Sasha Arutyunova para The New York Times
Sasha Arutyunova para The New York Times

Série aborda campos de concentração nos EUA na 2ª Guerra Mundial

Família do ator George Takei esteve entre os cerca de 120 mil nipo-americanos detidos

Austin Considine, The New York Times

16 de agosto de 2019 | 06h00

VANCOUVER, COLÚMBIA BRITÂNICA - As melhores histórias de horror nos dizem algo a respeito de nós mesmos. Uma horda de zumbis representa o conformismo tóxico, e um monstro pode representar um pesar insuportável. Mas nem todas as histórias assustadoras são alegorias. Uma das histórias mais terríveis que o ator George Takei ouviu foi um relato verídico a respeito da sua infância.

Ele apenas não tinha se dado conta do horror enquanto vivia a situação. “Para mim, foi tudo uma incrível aventura, apanhando girinos no córrego e observando enquanto se transformavam em sapos", disse Takei, 82 anos, descrevendo os três anos (dos cinco aos oito) que passou atrás de uma cerca de arame farpado em um pântano no Arkansas.


Sem jamais compreender de fato o motivo de estar ali, o menino se adaptou, brincando com outras crianças e adotando um cachorro de rua. “Soube do campo de concentração quando meus pais contaram a história na minha adolescência.” Takei descobriu que sua família esteve entre os cerca de 120 mil nipo-americanos da costa oeste que foram forçados a viver em campos de concentração na 2ª Guerra Mundial, resultado de medidas racistas de contraespionagem aprovadas por ordem executiva após o bombardeio de Pearl Harbor.

Agora, ele tem a oportunidade de ajudar a contar essa história a um público maior com a série antológica da AMC, The Terror, que voltou este mês para uma segunda temporada situada principalmente em um campo como aquele em que o ator viveu aprisionado. Trata-se de um assunto raramente abordado de maneira central em uma obra audiovisual, e muito menos em uma cuja voz é claramente asiática: a maior parte do elenco, que inclui Takei, conhecido pelo papel de Hikaru Sulu na série Star Trek, é de ascendência asiática.

A série, que injeta uma dose de terror sobrenatural a um drama de época, foi um veículo perfeito para transmitir o clima de um capítulo histórico tão sombrio de preconceito e paranoia. Como a primeira temporada de The Terror, que acompanhou uma fracassada expedição ao Ártico no século 19, a segunda sugere vínculos alegóricos entre sua ameaça central e as circunstâncias históricas. 

A segunda temporada, batizada de Infamy (Infâmia), se baseia na tradição folclórica das histórias japonesas de fantasmas, conhecidas como kaidan; enquanto os prisioneiros enfrentam as dificuldades do cativeiro e a presença de espiões no seu meio, um espírito vingativo vem ao campo em busca de justiça.

“O horror do campo de concentração foi assombroso", disse Takei. “Imagine pessoas inocentes - tudo foi tirado delas, seus lares, suas contas bancárias, seus negócios. É um estresse incrível.” Takei, que interpreta na série um líder comunitário mais velho, não esqueceu o “aterrorizante” dia em que soldados vieram arrancar sua família de casa.

Ele lembra de ser tomado pelo medo com o irmão, e do choro da irmã mais nova. Lembra de ser obrigado a sair, levando com o irmão os poucos pacotes que conseguiam carregar. “Nós o seguimos até a entrada até minha mãe sair", disse Takei. “E, quando ela veio, tinha nossa irmã pequena no colo e uma imensa e pesada sacola na outra mão, com as lágrimas escorrendo dos olhos. É uma lembrança que ficou gravada no meu cérebro.”

Os produtores reuniram um elenco de mais de 150 pessoas, dentre as quais muitas tinham parentes que foram mandados aos campos. Alexander Woo, responsável principal pela série, disse querer apresentar um retrato dos campos que revelasse o sofrimento e a dignidade. “Vimos uma extraordinária capacidade de resiliência nas mais de 100 mil pessoas mandadas aos campos", disse ele. “Era importante mostrar o espectro completo das vivências das pessoas nesses campos, sem dar a impressão de um lugar de infelicidade monolítica.”

Os elementos da série inspirados nas kaidan, que Woo descreveu como “histórias sinistras e sobrenaturais que muitas vezes são contatas há centenas ou milhares de anos", foram vistos na estreia da segunda temporada como uma espécie de vigilantismo sobrenatural. Um marido abusivo fica cego depois que sua mulher comete suicídio, e o equilíbrio moral é corrigido. Woo destacou que os elementos de horror têm como objetivo aprofundar o elo dos espectadores com o terror vivido pelos prisioneiros.

“O horror é uma ótima maneira de transmitir um sentimento visceral", disse ele. A história dos campos de concentração americanos é, na verdade, uma história de imigrantes, disse Woo. Ele espera que os americanos possam se identificar com isso, já que muitos de seus ancestrais enfrentaram a discriminação. 

Cristina Rodlo, que interpreta uma jovem gestante hispânica obrigada a viver nos campos com o namorado, é a única atriz principal da série que não tem ascendência asiática. Ainda assim, enquanto atriz mexicana trabalhando em Los Angeles com um visto, ela disse que também se identificava com uma história a respeito de famílias de imigrantes detidas. “É algo que nós, mexicanos, estamos enfrentando atualmente - a mesma história se repete", disse ela. “É loucura pensar que o mesmo ocorreu 70 anos atrás, e não aprendemos nada com a história.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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