Jeremy Dennis/The New York Times
Jeremy Dennis/The New York Times

'Reservation Dogs' usa humor para evocar a cultura dos nativos americanos

Esta nova comédia de humor negro inverte os clichês usuais de Hollywood sobre os indígenas dos EUA, principalmente por ter escritores e atores nativos contando a história

Stuart Miller, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 05h00

Em um momento dramático do piloto da série Reservation Dogs, um carro com vidros fumê se aproxima dos Dogs, grupo de quatro ladrõezinhos adolescentes que vive em uma reserva indígena americana, no Oklahoma. Em câmera lenta, os membros da gangue rival baixam os vidros do carro, o rosto coberto com touca balaclava, apontam suas armas e abrem fogo... com bolas de tinta.

Bear, o líder autoproclamado dos Dogs (interpretado por D'Pharaoh Woon-A-Tai), cai com uma saraivada de tiros que, ao mesmo tempo, parece homenagear os filmes Perigo para a Sociedade Platoon, além da série Community. Enquanto está inconsciente, Bear tem uma visão: um guerreiro nativo americano montando um cavalo aparece em meio à névoa e fala de bravura para ele.

"Estive na Batalha de Little Bighorn", diz o guerreiro. Mas então fica envergonhado e corrige: "Bom, não matei ninguém, mas lutei bravamente. Na verdade, não participei da luta propriamente dita, mas vim por aquela colina muito acidentada". Ele viu o comandante Custer e correu atrás dele. "Mas então meu maldito cavalo pisou num buraco de toupeira, caiu e me esmagou", contou. E, lá se foi por água abaixo, a imagem do nativo americano.

Reservation Dogs mostra uma visão muitas vezes corajosa e sombria da vida em uma reserva indígena americana dos tempos modernos, conforme os Dogs se envolvem em pequenos delitos, tentam manter os valentões à distância e sonham em escapar para um mundo maior. Mas, como a cena de paintball ajuda a estabelecer desde o início, a série abandona os habituais clichês redutores sobre a vida em uma reserva – o programa não é piedoso nem místico – em favor de um realismo cômico e nuançado.

É preciso agradecer a seus criadores, Sterlin Harjo e Taika Waititi (diretor de Jojo Rabbit), ambos com raízes profundas em sua cultura indígena e um olhar satírico aguçado para as hipocrisias e os prazeres do entretenimento mainstream, por sua sensibilidade. (O título, bem como uma sequência do piloto, é uma referência a Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino.)

"Estamos rindo das expectativas do público que não é nativo americano, ao mesmo tempo que reconhecemos aspectos dessa parte da cultura nativa. Estamos provocando o público usando a história do cinema. Os nativos americanos crescem na cultura pop – é assim que aprendemos o que o resto do mundo está fazendo", disse Harjo, de 41 anos, membro fundador da trupe de comédia indígena americana 1491s.

Waititi acrescentou: "Estamos cansados de vagar por florestas conversando com fantasmas, colocando as mãos nas árvores e falando com o vento como se tivéssemos todas as respostas por causa do nosso relacionamento com a natureza. E sempre há aquelas músicas com flauta".

Reservation Dogs também é pioneiro: o primeiro programa de televisão com uma equipe de roteiristas e uma lista de diretores inteiramente indígena. Junta-se à sitcom Rutherford Falls, do serviço de streaming Peacock, como uma das duas novas séries deste ano que têm um criador nativo americano e contam com roteiristas, diretores, estrelas, compositores, artistas e designers de produção nativos – segundo Harjo, uma grande mudança em relação ao mundo em que cresceu.

"Eu disse: 'Espera aí, estou lendo isso direito? Um programa sobre nativos, feito por nativos?'", comentou Paulina Alexis, de 20 anos, que interpreta Willie Jack, a amiga sarcástica de Bear, a respeito de sua surpresa ao ler o roteiro pela primeira vez.

Sentados em um espaço aberto na cobertura de um hotel em Battery Park City, em junho, Alexis e Woon-A-Tai e seus colegas de elenco Lane Factor e Devery Jacobs pareciam animados em conversar com um repórter sobre a série. Woon-A-Tai, de 19 anos, disse: "Quando vi essa quantidade de influência indígena nos bastidores, eu soube que seria um divisor de águas".

Harjo e Waititi vêm de lados opostos do mundo – Harjo, de Holdenville, em Oklahoma (agora vive em Tulsa), e Waititi, da Nova Zelândia –, mas se tornaram amigos antes da criação de Reservation Dogs, tenso sido apresentados por Bird Runningwater, diretor do Programa para Nativos Americanos e Indígenas do Instituto Sundance.

Eles se deram bem porque tinham em comum uma família indígena. Mesmo com as dificuldades que enfrentaram, Harjo comentou que suas conversas sobre o passado não remoíam o lado negativo, mas em vez disso giravam em torno do compartilhamento de histórias divertidas e das cantorias ocasionais de rock clássico: "Em determinado momento, acabamos cantando a música 'Under Pressure' juntos. Não me lembro quem foi Bowie ou Freddie Mercury, mas foi um sucesso, obviamente".

Waititi é parte maori e parte judeu, o que, de acordo com Harjo, se alinha bem com o senso de humor dos nativos americanos – e não apenas com a metade indígena. "O humor nativo é muito específico, mas é comparável ao humor judaico. Há autodepreciação, muita provocação e um humor macabro que se desenvolve quando as pessoas são oprimidas", definiu Harjo.

Waititi, produtor executivo da série O que Fazemos nas Sombras, da FX (baseada no filme que ele escreveu e dirigiu com Jemaine Clement), fez um acordo com a rede de televisão, e sugeriu a Harjo que eles apresentassem a ideia de uma série que combinasse seus interesses e suas experiências em comum.

Mesmo com a influência de Waititi, Harjo se surpreendeu com a rapidez com que a ideia foi aceita. Ele disse que, no passado, teve projetos abandonados porque os executivos brancos não acreditavam que conseguisse encontrar talentos nativos americanos suficientes. Harjo sabia o que estava fazendo. "Nossas comunidades estão cheias de pessoas com um talento incrível. Mas somos descendentes de gente que sobreviveu ao genocídio, à remoção forçada e ao deslocamento, por isso não deixamos nossa casa tão facilmente quanto os outros. Não vamos para Los Angeles simplesmente e dizemos: 'Vou ser ator'. Portanto, temos de encontrar essas pessoas."

A FX deu a Harjo, que havia dirigido filmes independentes e criado vídeos de comédia com o grupo 1491s, o cargo de showrunner. "Eu nem sabia o que era showrunner", revelou. Felizmente, Harjo tinha alguém a quem podia telefonar: Sierra Teller Ornelas, que supervisiona Rutherford Falls. Essa série, que ela criou com Michael Schur (The Good Place e Parks and Recreation) e com Ed Helms (The Office), fez dela a primeira showrunner de TV nativa americana. "Eu ligava para Sierra e perguntava: 'Quando preciso ter uma reunião?'", contou ele.

Rutherford Falls tem um tom bastante suave, condizente com um programa cocriado por Schur – metade de sua equipe de roteiristas é indígena, e está centrada na amizade entre o personagem de Helms e uma nativa americana interpretada por Jana Schmieding.

Reservation Dogs tem mais uma vantagem. Com sua equipe de roteiristas indígenas "escrevendo de dentro para fora", Harjo se sentiu confiante o suficiente, por exemplo, para não parar e explicar todas as nuanças culturais e as piadas internas ao público branco. "Não vamos entregar a série mastigada para você", afirmou ele.

Durante as primeiras sessões, segundo Harjo, ele voltou duas vezes à sala dos escritores e disse a todos: "Certo, pessoal, vamos jogar isso fora e refazer." Era vital que encontrassem o equilíbrio certo entre humor e naturalismo para realmente iluminar a verdadeira vida dos nativos americanos nos Estados Unidos."

Harjo estava determinado a ajudar a substituir as décadas de faroestes que retrataram os povos indígenas como zumbis americanos – "sem rosto e sem alma, as coisas no caminho da expansão para o oeste que tinham de ser mortas" –, o que ele disse ser prejudicial tanto para o senso de identidade dos nativos quanto para a maneira como os americanos brancos os viam.

Os membros do elenco e os criadores das duas séries disseram que transformar programas como o deles em um novo normal era um objetivo abrangente. Significava criar oportunidades não só para atores e escritores nativos, mas também para compositores, artistas e designers de produção. De acordo com Harjo, a construção dessas redes levaria a mais projetos liderados por nativos.

Michael Greyeyes, de 54 anos, veterano das telas que interpreta um dono de cassino perspicaz em Rutherford Falls, comentou que, embora os programas pudessem ajudar a mudar a percepção do público branco, o mais importante para ele era seu impacto nas comunidades indígenas: "É crucial em matéria de panorama representativo. Tanto confirma quanto refuta nossa invisibilidade para o público não indígena".

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