Susan Wright/The New York Times
Susan Wright/The New York Times

Série 'We Are Who We Are' segue jovens que estão explorando seu gênero

'Acho que ser um provocador, no bom sentido, significa desafiar o status quo. Você precisa desafiá-lo, se for um artista e criador verdadeiro', diz o diretor Luca Guadagnino

Kyle Buchanan, The New York Times - Life/Style

29 de setembro de 2020 | 05h00

"O que significa ser um provocador? Devíamos falar sobre isso por um momento", Luca Guadagnino perguntou por meio do aplicativo Zoom. Estávamos discutindo sobre Sarah, a personagem coadjuvante interpretada por Chloë Sevigny na nova série da HBO We Are Who We Are, mas também estávamos, de forma indireta, falando do próprio Guadagnino.

Sarah é uma personagem cheia de contradições: como comandante de uma base do Exército americano na Itália, ela tem a tarefa de manter a ordem; como mãe, porém, Sarah é maliciosa e até transgressora, muitas vezes incitando seu filho de 14 anos, Fraser (interpretado por Jack Dylan Grazer), a se tornar um rebelde.

Sarah não é como a maioria das mães, mas observei que é como a maioria dos diretores de cinema, que devem ser disciplinadores e provocadores em igual medida. Guadagnino se identificaria com isso? Ele poderia, mas primeiro queria ter certeza de que estávamos na mesma página: a palavra "provocador" não era pejorativa para ele, mas sim uma vocação superior. "Acho que ser um provocador, no bom sentido, significa desafiar o status quo – e este muda o tempo todo. Você precisa desafiá-lo, se for um artista e criador verdadeiro", disse Guadagnino.

Nesse sentido, ele poderia se relacionar com Sarah, mas também com o loiro tingido, o irreverente Fraser, que se interessa mais por moda do que por uniformes e cuja chegada à base causa sensação entre os adolescentes.

Guadagnino, de 49 anos, é seduzido por estranhos que provocam quase sem querer, como Oliver (Armie Hammer) em seu filme Me Chame pelo Seu Nome (2017), que anima o triste e costumeiro verão de uma família com seu sex appeal, ou Susie (Dakota Johnson), a nova dançarina em seu remake de Suspíria – A Dança do Medo (2018), cujo talento faz explodir várias cabeças em sua academia. A própria presença desses personagens atravessa o status quo, mas eles não podem ser culpados pela forma como as pessoas reagem. Existe apenas algo em sua natureza.

Eles são quem são. E talvez esse tipo de coisa seja inata em Guadagnino também. Como um menino solitário e obcecado por cinema que cresceu em Palermo, na Itália, ele conseguiu convencer sua mãe a comprar uma câmera Super 8, e, em seguida, tentou fazer seu primeiro curta – uma homenagem ao diretor de terror Dario Argento.

O jovem Guadagnino submergiu um pedaço de carne bovina em um copo d'água e planejou filmar sua decomposição ao longo do tempo, mas o cheiro de podridão alcançou seu público antes que aquela visão nojenta o conseguisse. "Minha mãe jogou a carne fora, por isso nunca terminei meu filme. Mas esse foi o primeiro!", contou ele, com orgulho.

Em 1999, Guadagnino fez sua estreia no longa-metragem com The Protagonists, que foi recebido de forma igualmente visceral, ganhando uma rodada de vaias no Festival de Cinema de Veneza. Sua visão grandiosa e ousada começaria a conquistar a crítica com filmes subsequentes, como Um Sonho de Amor (2009) e Um Mergulho no Passado (2015). Depois que Me Chame pelo Seu Nome se tornou uma sensação premiada com um Oscar, Guadagnino teve até a chance de dirigir filmes para grandes estúdios, enchendo sua agenda com remakes planejados de O Senhor das Moscas e Scarface.

Ainda assim, filmes maiores exigem orçamentos maiores, e depois que Guadagnino teve problemas para garantir dinheiro suficiente para fazer Blood on the Tracks, um filme repleto de estrelas adaptado do álbum de Bob Dylan com o mesmo nome, ele migrou para a televisão.

O produtor Lorenzo Mieli sugeriu uma série explorando a fluidez de gênero nos subúrbios americanos, mas Guadagnino queria dar a We Are Who We Are um toque pessoal. "Eu não gostava muito de 'tópicos' e também não muito da ideia de zeitgeist (espírito da época). Em vez disso, o que achei interessante foi fazer uma narrativa de TV não da perspectiva da ação e do enredo, mas mais da perspectiva do comportamento", comentou ele.

O resultado é uma série de oito episódios que deve menos ao fortemente estilizado Euphoria, outro grande seriado adolescente da HBO, e mais ao naturalismo de A Nossos Amores, drama de Maurice Pialat sobre o amadurecimento, lançado em 1983. Guadagnino entrou no projeto com planos detalhados para distinguir cada episódio com lentes diferentes e técnicas de câmera elaboradas, mas começou a repensar suas intenções, no ano passado, quando os jovens atores do programa chegaram ao set nos arredores de Pádua, na Itália.

"Qual é o sentido de trabalhar com atores, ou intérpretes em geral, se você não confia neles como forças criativas?", questionou Guadagnino, que pediu a Grazer e à estreante Jordan Kristine Seamón indicações de como seus personagens pensariam, falariam e se comportariam.

"Eles começaram a me dar uma inspiração social incrível, e o que eu queria era sentir e tocar o sopro de vida que vinha dessas pessoas. Em um único gesto, joguei fora todas as minhas construções nas quais passei muitos, muitos meses: 'Não, vamos seguir os personagens'", contou ele. O elenco aprendeu a lidar com isso.

"Basicamente, nem sabíamos o que faríamos todos os dias; dependia da luz. Ele manteve todos os atores lá, e o set já estava montado, portanto ele podia filmar o que e quando quisesse. Quantos diretores têm esse tipo de luxo?", observou Sevigny. Embora Guadagnino diga que não se inspira em tópicos polêmicos, muitas questões contemporâneas ainda aparecem no trabalho. Enquanto o personagem de Seamón, Caitlin, explora os limites de sua identidade de gênero, seu pai conservador Richard (interpretado pelo rapper e ator Kid Cudi) usa um boné com a frase "Make America Great Again".

"Foi algo pelo qual tive realmente de cavar fundo, porque esse personagem é totalmente diferente de quem sou e das coisas que defendo", admitiu Cudi. Provavelmente, o que causará ainda mais confusão é a paixão do jovem Fraser por um fuzileiro naval bonitão na casa dos 20 anos (Tom Mercier), que pouco faz para dissuadir seu interesse. Os personagens de We Are Who We Are muitas vezes entram em território perigoso, mas Guadagnino não está interessado em moralizar. O objetivo é fazer você refletir sobre isso e tirar suas próprias conclusões.

"Poderíamos julgar o comportamento de um amigo e ajudá-lo. Mas precisamos julgar os personagens? Se começarmos a higienizar nossos personagens a partir da provocação das questões éticas, é melhor pararmos de fazer o que fazemos", disse Guadagnino, balançando a cabeça.

Guadagnino terminou a edição das imagens de We Are Who We Are em fevereiro, apenas duas semanas antes da Itália entrar em lockdown para lidar com a pandemia do coronavírus. Embora tenha permanecido ocupado em quarentena, criando um curta-metragem que estreará no Festival de Veneza, os últimos meses foram dolorosos: o pai de Guadagnino morreu em maio e seu companheiro de 11 anos, o diretor Ferdinando Cito Filomarino, deixou-o. Milão, onde vive Guadagnino, começou a reabrir, mas ainda é um lugar solitário, como o próprio diretor.

"Honestamente, sou um personagem nesta paisagem vazia. Sonho todos os dias com meu pai e com meu companheiro, e trago esses sonhos comigo para o vazio da cidade. Não quero parecer patético. Mas esse sou eu, e não posso deixar de ser franco", acrescentou ele.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.