Stefani Reynolds The New York Times
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Com serviços não utilizados, aeroportos reavaliam sua estrutura

'A aglomeração de pessoas, que é natural num aeroporto, sempre me deixou preocupado, particularmente nos menos modernos', disse Anthony Fauci, diretor do CDC (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas)

Kevin Williams, The New York Times - Life/Style

02 de setembro de 2020 | 05h00

É difícil dizer se o Aeroporto Changi, em Cingapura, é um complexo de entretenimento ou um aeroporto. Este aeroporto conta com cinemas de três telas, um jardim interno, uma piscina no teto e restaurantes e lanchonetes criativos que atraem não só os viajantes, mas também moradores da cidade.

Com mais de 400 lojas, incluindo as da Apple e Tiffany (que tem duas), o aeroporto seria o quarto maior shopping center em número de locatários se estivesse nos Estados Unidos. Um público cativo e rico tornou a área comercial do aeroporto uma das mais lucrativas do mundo.

Mas a pandemia aniquilou a aritmética comercial dos aeroportos e ninguém sabe o que vai ocorrer proximamente. O principal aeroporto em termos de concessões e vendas no varejo nos Estados Unidos é o de Los Angeles, com uma receita de US$ 3.036 por metro quadrado, segundo estudo feito em 2018 pelo Airport Experience News.

O aeroporto O’Hare de Chicago vem em segundo lugar, com US$ 2.718 em vendas por metro quadrado. Comparativamente, uma loja em um shopping normal custa em torno de US$ 325 o metro quadrado, segundo dados colhidos em 2017 pela CoStar. Mas tudo acabou agora, disse Alan Gluck, consultor para a área da aviação no ICF. “No geral, as vendas estão péssimas”, disse ele. Por exemplo, as vendas de concessões no Aeroporto Internacional de São Francisco caíram 96% em comparação com o ano anterior. No duty-free, a queda foi de 100%, porque todas as lojas foram fechadas.

Em maio de 2019, elas foram de US$ 11,5 milhões. Até o tráfego de passageiros voltar as lojas nos aeroportos não vão gerar lucro e mesmo quando retornar a capacidade talvez esteja reduzida, afirmou o consultor. “Temos de reavaliar a heurística existente salvo se acharmos que o comportamento da clientela será retomado ao que consideramos normal".

As muitas comodidades que outrora faziam dos aeroportos um local lucrativo são as mesmas que agora são problemáticas. Por exemplo os cinemas do aeroporto de Changi ainda estão fechados não só por proteção contra o vírus, mas também porque a circulação de pessoas é muito pequena para justificar as despesas operacionais.

“Nós dimensionamos as operações do nosso aeroporto com base no volume de passageiros que atendemos”, disse Ivan Tan vice-presidente sênior de comunicações de marketing do Changi Airport Group, que opera o aeroporto. O trânsito de passageiros no aeroporto caiu para 1% do que era há um ano, o que deixa pouco mercado para filmes ou restaurantes gourmet, disse Tan. O aeroporto fechou o Terminal 2 para acelerar reformas planejadas, mas a pandemia deve levar à substituição de algumas comodidades por outras novas.

“No longo prazo, o impacto da covid-19 sobre os serviços e as comodidades que oferecemos ainda deve ser visto”, disse ele. Até agora a pandemia não interrompeu terminais planejados ou em construção nos Estados Unidos, mas alguns operadores de aeroportos estão reavaliando os serviços oferecidos ao viajante.

O aeroporto internacional de Kansas City está no meio de uma reforma de um terminal, que custará US$ 1,5 bilhão, e pretende consolidar seus três terminais num único gigante com 39 portões, incluindo uma fonte de dois andares, um playground e concessões aeroportuárias atualizadas. “Não é a primeira vez que o aeroporto é remodelado durante uma interrupção importante do tráfego aéreo.

Em 11 de setembro de 2001, o aeroporto estava em meio a uma grande reforma. Mudanças tiveram de ser feitas rapidamente nas áreas de triagem de passageiros e os vidros internos e externos foram fortificados. “Naquele caso, o projeto estava em andamento. Os ajustes foram feitos e não foi tarde demais. Ainda estamos no início do projeto deste terminal, a construção está caminhando de modo que estamos numa situação melhor do que no 11 de setembro”, disse Joe McBride, porta-voz do aeroporto.

Outros projetos em andamento, incluindo reformas no aeroporto de La Guardia em Nova York e outros menores como Lafayette, Louisiana, vêm avançando, mas todos estão esperando para ver o que acontece para fazer ajustes. Qualquer construção de um novo terminal deve focar no espaço não só por causa do coronavírus, mas com vista a outras doenças respiratórias, disse Anthony Fauci, diretor do CDC (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas).

“A aglomeração de pessoas, que é natural num aeroporto, sempre me deixou preocupado, particularmente nos menos modernos”, disse Fauci. “Todos ficam literalmente cara a cara esperando para pegar o avião”. Segundo ele, os novos terminais precisam ter mais espaço para as pessoas se espalharem, uma filtragem de ar de partículas super eficientes e têm de distribuir máscaras faciais. Ele também gostaria de ver mais testagem dos passageiros para impedir o tipo de propagação do vírus que foi observado em Wuhan, na China, e em Milão, na Itália.

O que deve incluir medições de temperatura, questionários e monitoramento de contatos. Como 40% dos casos de coronavírus são assintomáticos, a tarefa é desafiadora, mas ainda assim vale a pena, acrescentou ele. A chave para tornar os aeroportos comercialmente viáveis numa fase pós-pandemia é tornar os exames médicos regulares em todos os aeroportos, disse Vik Krishnan, consultor de avião na McKinsey & Co.

“Não vimos as diferentes empresas aéreas promovendo sua segurança depois do 11 de setembro”, disse ele. Os viajantes agora estarão mais inclinados a voar novamente se os aeroportos adotarem as mesmas normas de segurança. Em Kansas City os responsáveis pelo aeroporto estão realizando os ajustes necessários. Se mais espaço for necessário o seu projeto tem flexibilidade para isto, uma possibilidade que aeroportos mais antigos não têm.

“A partir de agora mudamos de curso ou modificamos o novo projeto de terminal, mas estamos no início de estudos sobre como aumentar a segurança e melhor proteger a saúde do viajante”, disse McBride O novo prédio dará mais flexibilidade para o aeroporto no enfrentamento desta pandemia, ou de futuras, com a possibilidade de exames médicos do lado de fora, disse Laura Ettelman, sócia da Skidmore, Oowings and Merrill, empresa de design e arquitetura de Nova York, encarregada da reforma. A pandemia vai acelerar a construção de futuros terminais em outros aeroportos de modo a terem mais flexibilidade, disse ela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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