Alejandro Villanueva para The New York Times
Alejandro Villanueva para The New York Times

Setesdal: costumes antigos seguem firmes em vale norueguês

Unesco pensa em declarar cultura local como patrimônio imaterial da humanidade

Sarah Pollock, The New York Times

06 de setembro de 2019 | 06h00

Uma jovem estava em um auditório em um vale na Noruega chamado Setesdal usando o tradicional vestido bunad da região, uma larga saia preta com listras vermelhas e verdes na barra, uma blusa branca de mangas longas e um lenço cobrindo o cabelo. A voz de soprano ressoou pela sala.

Em um lado, uma mulher de meia idade, também trajada a caráter, respondeu cantando, e um jovem intercedeu com versos que fizeram o público cair na gargalhada. No palco, uma garota respondeu, seguida por um homem mais velho sentado de lado, com um violino no colo.

A cantoria era em um dialeto tão estranho que não seria imediatamente compreendida pelo norueguês médio. E as canções empregavam uma forma poética de quatro linhas chamada stev que é também única no vale. Quando os breves poemas são cantados como foram naquela noite, a prática é chamada de stevjing, e se torna um jogo musical de chamado e resposta, frequentemente improvisados, no qual os cantores podem celebrar, lamentar, discutir e provocar uns aos outros.

Os cantores são descendentes de uma tradição de séculos de agricultores que aravam o solo e levavam os animais para pastar nos campos no alto dessas montanhas. As canções foram a saraivada de abertura de dois dias de celebração comunitária mostrando a rica tradição de Setesdal, com música de violino, danças e roupas típicas, todas elas diferentes das encontradas no restante da Noruega. 

As artes tradicionais daqui são tão únicas que a Unesco pensa em declará-las patrimônio imaterial da humanidade. É um momento interessante para Setesdal, há muito considerada pelos demais noruegueses como região provinciana cujos habitantes teimosos se atinham a costumes ultrapassados. Agora, essas mesmas distinções são motivo de orgulho. 

Ainda assim, o vale entre encostas íngremes conhecido pela beleza natural está perdendo habitantes. A população das três principais cidades de Setesdal, Bygland, Valle e Bykle, teve queda de 20%, restando hoje menos de 3.500 moradores. A economia mudou da agricultura e da engenharia florestal para o turismo e a energia hidrelétrica. O coração do estreito vale fica a menos de 160 quilômetros da cidade de Kristiansand, no sul do país, um próspero porto e destino turístico procurado.

O extremo sul do vale é marcado por um imenso fiorde ligado a íngremes despenhadeiros. Mais ao norte, paredões verticais de pedra se erguem por mais de 600 metros a partir do chão do vale, atraindo escaladores de toda a Europa. Algumas das melhores trilhas para caminhada no sul da Noruega, percorrendo rotas que remontam ao período medieval, ficam nas Montanhas Setesdalsheiene. Os viajantes podem passar a noite em chalés para turistas totalmente equipados, e os lagos estão repletos de peixes que podem ser apanhados.

Pelo interior vemos os característicos lofts de madeira, armazéns sobre palafitas com teto de grama. Chamados de stabbur, ou stolpehus no dialeto local, os mais antigos foram construídos antes de 1350, e eram usados para guardar os objetos de valor de uma fazenda, incluindo as roupas e peças de prata usadas nas celebrações tradicionais.

A arquitetura do vale inclui mais edifícios do período medieval do que qualquer outro distrito da Noruega, disse o consultor Anders Dalseg, do Museu de Setesdal. Vinte por cento dos edifícios noruegueses construídos antes de 1650 ficam em Setesdal, incluindo 18 construídos antes de 1350.

Talvez a tradição dos violinistas do vale seja mais significativa, abrangendo algumas das músicas mais antigas da Noruega. A celebração daquela semana incluiu uma apresentação de dois mestres noruegueses do violino, Hallvard T. Bjorgum e Gunnar Stubseid, que vivem nos vilarejos de Setesdal onde nasceram. O salão do andar de cima do museu estava lotado para a apresentação deles.

Alguns dias depois, Stubseid ofereceu um passeio por um museu menor chamado Sylvartun, abrigado em um antigo edifício de madeira com teto verde. É um lugar ótimo para oferecer aos visitantes uma ideia de como é o modo de vida tradicional de Setesdal. Há um diorama de vídeo em tamanho real no qual moradores locais trajados a caráter trocam stevs cantarolados entre si e tocam violino. Há também belíssimos instrumentos detalhados em exposição.

Stubseid disse que a cultura viva precisa ser apresentada para que exista. “É possível escutar um registro, mas não é a mesma coisa", disse ele. “Esse é o problema do cuidado com a cultura imaterial. Trata-se de uma questão filosófica bastante interessante.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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