Ryan Lowry/The New York Times
Ryan Lowry/The New York Times
Alex Williams, The New York Times - Life/Style

20 de março de 2021 | 05h00

Seth Rogen está bem ciente do fato de que se parece com um quarto dos homens brancos de Los Angeles com idade entre 25 e 50 anos.

O cabelo desarrumado. A barba que não é aparada há semanas. Os óculos do tipo super comum. A camiseta irônica se esforçando para conter um corpo que não tem vergonha de ser de tiozão. Sua imagem de pessoa comum lhe rendeu quase cem papéis em filmes e programas de televisão, pequenos e grandes, nas últimas duas décadas.

Em sua comédia de estreia de 2007, Ligeiramente Grávidos, Rogen interpretou o drogado sem rumo que de alguma forma conquistou a garota, e nenhum dos dois conseguiu entender por quê. Em Steve Jobs, de 2015, ele fez brilhantemente o papel de Steve Wozniak, o amável cofundador da Apple que parecia muito contente em ceder a capa das revistas, os bilhões e, basicamente, a própria história ao parceiro fanfarrão de gola rolê preta.

Rogen, que tem 38 anos e também é roteirista, diretor e produtor, há muito tempo transcendeu a imagem do macho beta para se tornar um poderoso nome de Hollywood. Mas o "comum" ainda serve como uma forma de camuflagem nas ruas. "Antes da pandemia, eu vagava por Los Angeles sem rumo, sem ninguém tirando fotos de mim por meses e meses e meses a fio. Mesmo os fãs que me reconhecem na rua acham que sou apenas um cara que se parece comigo", brincou Rogen.

Ele não sai muito de casa em Los Angeles, mas outro dia se aventurou a ir a um caixa eletrônico. "Eu estava usando máscara e tudo o mais, e alguém me reconheceu. Foi um choque para mim. Isso simplesmente não acontecia comigo fazia muito tempo. Caso aquela pessoa esteja lendo isso aqui, gostaria de pedir desculpas por minha reação. Talvez eu tenha saído correndo", disse ele.

Rogen se manteve ocupado durante a pandemia, mesmo quando grande parte da produção de cinema e televisão entrou em colapso, como tantas outras coisas no mundo.

Como seus milhões de seguidores no Instagram bem sabem, ele se dedicou seriamente à cerâmica, postando inúmeras fotos de vasos, saboneteiras e cinzeiros coloridos feitos com capricho. Ele os modelou no estúdio montado na garagem da casa, que divide com a esposa, Lauren Miller Rogen, de 38 anos, atriz e diretora, e a cachorra Zelda.

Ele também passou a quarentena finalizando seu primeiro livro, Yearbook (Anuário, em tradução literal), que a Penguin Random House publicará em maio. É um livro de memórias fragmentado, composto de ensaios cômicos que relembram seus primeiros shows de stand-up quando ainda era adolescente, aventuras em um acampamento de verão judeu em seu país natal, o Canadá, e "muito mais histórias sobre uso de drogas do que minha mãe gostaria", de acordo com a orelha do livro.

Maconheiro do nível de Willie Nelson, Rogen também conseguiu trazer para os Estados Unidos a Houseplant, empresa canadense de cannabis que fundou em 2019 com Evan Goldberg, seu parceiro de cinema de longa data. Esta venderá a primeira investida comercial de Rogen na cerâmica: um cinzeiro suntuosamente embalado e um jarro para flores ao preço de US$ 85 – projetados por ele, mas feitos na China –, que unem suas paixões gêmeas, o pássaro gaio e a argila.

Como tantos outros, ele trabalhou remotamente, recebendo ligações sobre projetos de filmes das nove às cinco. Fora isso, tem assistido a muito streaming (The Office, The Larry Sanders Show), fumado muita maconha e ficado muito no Twitter.

Rogen começou a ficar popular no Twitter quando comprou uma briga inflamada e muito divulgada com o senador americano Ted Cruz, do Texas, que se prolongou por algum tempo depois do dia da posse, sugerindo que Cruz merecia admiração apenas "se você for um fascista, um supremacista branco que não acha ofensivo quando alguém chama sua esposa de feia", e acrescentando várias obscenidades.

Mais tarde, quando Cruz escreveu no Twitter que Rogen se comportava na rede como "um marxista com síndrome de Tourette", Rogen respondeu que tinha "um caso muito leve" da síndrome, mas certamente não recuou. Vinte anos atrás, teria sido difícil censurar um estranho famoso dessa maneira, segundo Rogen – "mas agora, graças a Deus, posso fazer isso. As pessoas sempre dizem: 'Você é assim no Twitter, mas, se estivesse cara a cara com ele, não faria isso.' E isso não é verdade. Com certeza, eu diria a Ted Cruz que..." Tapem os ouvidos, crianças!

Rogen brincou no programa Jimmy Kimmel Live!, em abril, que estava "autoisolado desde 2009". Goldberg, amigo desde o ensino fundamental em Vancouver, na Colúmbia Britânica, que conversa com ele diariamente, concorda que Rogen é "o oposto de ficar louco". "Como uma celebridade que não gosta de sair e beber e fazer coisas assim, ele é provavelmente um dos mais bem situados para lidar com isso. Adora ficar em casa. Adora exercer seus hobbies; adora ver TV no sofá com a esposa e a cachorra deles. E é isso. É isso que ele ama. Sei que, secretamente, ele adora ficar preso em casa", observou Goldberg, de 38 anos.

Com os escritórios da Point Gray Pictures, a produtora deles, fechados, Rogen e Goldberg ainda tinham muito que conversar. Eles estão escrevendo um roteiro para o diretor Luca Guadagnino sobre Scotty Bowers, ex-frentista que arranjava encontros sexuais para as estrelas da era de ouro do cinema.

Também estão ajudando a produzir Pam and Tommy, minissérie da Hulu sobre o roqueiro Tommy Lee e a estrela de SOS Malibu Pamela Anderson, que fizeram pelo vídeo de sexo de celebridades o que Fred e Ginger fizeram pelo foxtrote quando um eletricista (interpretado por Rogen) disponibilizou o famoso filme caseiro.

Os parceiros preferem o Zoom. "Ficamos na varanda dele uma vez e pensamos: 'Prefiro ver seu rosto em uma tela a sentar a cinco metros de distância um do outro", disse Goldberg.

Isso não quer dizer que o isolamento de Rogen seja completo. Ocasionalmente, ele convidava alguns amigos para o estúdio na garagem para trabalhar com argila. Robert Lugo, artista que se descreve em seu site como "oleiro e ativista de gueto", trabalhou com ele para aprender a criar peças maiores. "Honestamente, fiquei surpreso com quanto ganhei com isso. É meditativo. Força você a estar bem presente", afirmou Rogen sobre a cerâmica.

Puxando o primeiro de muitos profundos tragos de um baseado em forma de cone, Rogen explicou que sua esposa, que trabalha com argila desde o colégio, matriculou-o em aulas alguns anos atrás, e ele rapidamente ficou viciado. Enquanto outros começaram a cozinhar durante a quarentena, Rogen se curvou sobre uma das três rodas de cerâmica em seu estúdio, que tem dois fornos.

Para Rogen, "um aspecto dos filmes é que eles não ocupam massa ou espaço físico. São muito intangíveis. E acho que o mais legal de fazer coisas como cinzeiros é que elas são incrivelmente tangíveis e úteis. Adoro filmes, e eles são muito úteis para mim, mas não são úteis no sentido de que interajo com eles dezenas de vezes ao longo do dia, de forma casual, já que estou apenas fumando maconha".

Na mente de alguns fãs, Seth Rogen é maconha, e maconha é Seth Rogen. E ele está totalmente bem com isso. "Honestamente, eu me sinto honrado por estar associado à erva. Às vezes, as pessoas esperam que eu tente me esquivar de ser um maconheiro muito famoso, ou alguém que, de certa forma, é mais famoso por fumar maconha do que por qualquer outra coisa que tenha feito. Mas, sinceramente, isso é algo digno para mim. Tenho tanto orgulho disso quanto de qualquer coisa", completou o artista.

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