Centro de Antropologia Forense, Universidade do Tennessee
Centro de Antropologia Forense, Universidade do Tennessee

Seu cadáver pode ajudar a solucionar crimes

O Centro de Antropologia Forense, da Universidade do Tenessee, realiza experimentos com restos humanos para descobrir detalhes de mortes misteriosas

Fawn Fitter, The New York Times

22 de março de 2019 | 06h00

Depois de morrermos, a maioria de nós espera ser lembrada por nossas contribuições à sociedade durante a vida. Quero seguir contribuindo mesmo depois que minha hora chegar. Assim, depois que der meu último suspiro, serei enviada à Universidade do Tennessee, em Knoxville, para o Centro de Antropologia Forense, mais conhecido como “Celeiro dos Corpos".

Ali, estudantes e pesquisadores analisarão meu corpo em decomposição para aprender como recuperar restos humanos, calcular o tempo transcorrido após a morte e reunir as peças de quem eu teria sido. Em outras palavras, depois de morrer, vou solucionar crimes.

Há menos de uma dúzia de lugares no mundo dedicados à ciência de compreender os restos humanos. O Celeiro de Corpos foi a primeira instalação do tipo. Fundado em 1981 com um terreno grande o bastante para o sepultamento de um único cadáver, agora ele já dispõe de mais de dez mil metros quadrados, o suficiente para a decomposição de 150 a 200 pessoas por vez sob uma variedade de condições. São enterrados em covas rasas, deixados flutuando no líquido, deixados no banco de trás de um carro e em meio às folhas sob uma árvore. 

Todos os resultados são considerados valiosos pontos de dados a partir dos quais os cientistas forenses e detetives do futuro aprenderão a analisar os detalhes da morte. Fiquei sabendo do Celeiro de Corpos quando entrei em uma galeria de arte e fui atraída por uma imagem em branco e preto, etérea e forte, mostrando um corpo anônimo em avançado estado de putrefação. Era parte da série “Aquilo que permanece”, da fotógrafa Sally Mann, fotografada no Centro de Antropologia Forense em 2006.

Posteriormente, pesquisei a respeito do centro e descobri que eles tinham um programa de doação de corpos. “Alguns são professores cujo desejo é continuar ensinando depois de mortos, alguns querem ser úteis para sempre, alguns conheceram a vítima de algum crime", disse Dawnie Wolfe Steadman, diretora do Celeiro de Corpos. “Há motivações de todo o tipo para as doações. Cada um tem sua razão, e somos gratos a todos eles.”

O Celeiro de Corpos não procura qualidades específicas. “Não podemos controlar o momento da morte dos doadores, e isso torna pouco prática a busca por doadores de um determinado recorte demográfico", disse Steadman. Quando os doadores chegam, seu perfil é encaminhado de acordo com o projeto. Até o momento, cerca de 1.800 pessoas foram parar ali; outras 4 mil declararam sua intenção de juntar-se a elas.

Na primeira parte do meu pós-vida, meus visitantes mais frequentes serão as feras, pássaros e insetos. Se ficar exposta aos elementos durante o verão, o processo pode levar meses; se eu for integrada a um experimento mais longo, como aquele que mede os gases emitidos por um corpo enterrado ao longo do tempo, posso permanecer vários anos “em campo”.

Após um período médio de seis meses a dois anos, terei sido reduzida a ossos e transferida para dentro, para o Acervo de Esqueletos Doados W. M. Bass, representando amostras de pessoas de diferentes idades, etnias e procedências. E ali permanecerei, tratada como um volume raro numa biblioteca, onde os estudantes poderão analisar meus ossos desarticulados, estudar meu corpo, e então devolver meus restos à prateleira.

O Centro de Antropologia Forense também deixará que meus entes queridos me visitem. Se eles o fizerem, imagino-os espalhando meus restos em uma mesa, montando cada pedaço como um quebra-cabeça. Imagino eles se indagando como ajudei a solucionar assassinatos, identificar pessoas desaparecidas ou exonerar os inocentes acusados. E então espero ser devolvida à prateleira com a sensação satisfatória de , mesmo tendo partido há muito, ainda terei muitas histórias para contar.

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