Stuart Bradford para The New York Times
Stuart Bradford para The New York Times

Seu coração também tem sentimentos, e eles afetam sua saúde

Custo do estresse do trabalho e de relacionamentos infelizes pode ser alto

Anahad O’Connor, The New York Times

08 Dezembro 2018 | 06h00

Cem anos atrás, o cientista Karl Pearson estava estudando lápides em um cemitério quando notou algo peculiar: maridos e esposas em geral morriam a um ano de distância um do outro. Embora não tenham sido amplamente apreciados na época, os seus estudos agora mostram que o estresse e o desespero podem influir de maneira significativa na saúde, principalmente a do coração. Um dos exemplos mais interessantes é uma doença chamada cardiopatia do Takotsubo, ou do coração partido, na qual a morte de um dos cônjuges, problemas financeiros ou algum outro fato de caráter emocional enfraquecem o coração, provocando sintomas que imitam um ataque cardíaco. Esta carga emocional faz com que o coração assuma uma forma semelhante ao tradicional pote japonês, o Takotsubo, que tem um pescoço estreito e a base larga.

A relação entre a saúde emocional e a saúde do coração é o tema de um novo livro, “Heart: A History”, do cardiologista Sandeep Jauhar. Jauhar narra a história da medicina cardiovascular e explora os seus avanços tecnológicos, da cirurgia de coração aberto, ao coração artificial. Estas inovações cardíacas foram transformadoras, mas ele afirma que o campo da cardiologia precisa dedicar uma atenção maior aos fatores emocionais que podem influir nas doenças do coração, como relações infelizes, pobreza, desigualdade da renda e estresse no trabalho.

O interesse de Jauhar por este tema decorre do seu histórico familiar de doenças cardíacas, que mataram vários dos seus parentes. O seu avô morreu de repente de ataque cardíaco na Índia, aos 57 anos, ao se deparar com uma cobra preta. Jauhar ficou fascinado com o estudo do coração, mas também profundamente preocupado. “Eu aprendi a temer o coração, este assassino de homens na flor da idade”, afirmou.

Aos 45 anos, Jauhar também passou maus bocados com o coração. Apesar de praticar exercícios físicos regularmente e seguir um estilo de vida saudável, um exame revelou que ele tinha bloqueios nas coronárias. Ao analisar as radiografias do seu coração, ele teve uma percepção impressionante. “Sentado, atordoado, naquele quarto escuro”, escreve, “tive a sensação de vislumbrar como provavelmente morreria”.

O coração é uma máquina biológica simples, e um órgão vital que muitas culturas reverenciaram como a sede emocional da alma. Ele é o símbolo do romance, da tristeza, da sinceridade, do medo e até da coragem, palavra que deriva do latim, “cor”, coração. O coração, em poucas palavras, é uma bomba que faz o sangue circular. E o único órgão que move a si mesmo, batendo três bilhões de vezes em média na vida de uma pessoa, com a capacidade de esvaziar uma piscina por semana. É por isso que os cirurgiões não ousavam operá-lo, até o final do século 19, muito depois de os ouros órgãos terem sido operados, inclusive o cérebro.

No seu livro, Jauhar narra as histórias de médicos que foram os pioneiros na cirurgia cardiovascular no final do século 19, abrindo o peito dos pacientes e fechando-o rapidamente para evitar graves hemorragias. No entanto, procedimentos mais complexos necessitaram de máquinas sofisticadas.

C. Walton Lillehei criou a circulação cruzada, procedimento no qual um paciente é ligado a uma segunda pessoa cujo coração e pulmões podem bombear e oxigenar o sangue de ambos durante procedimentos longos. Lillehei praticou a circulação cruzada em cachorros antes de finalmente tentá-la em seres humanos em 1954. “Os seus críticos ficaram perplexos”, disse Jauhar. Mas o seu trabalho permitiu que outros construíssem a maquina coração-pulmão , hoje usada em mais de um milhão de operações cardíacas ao ano no globo todo.

A medicina cardiovascular evoluiu. A mortalidade depois de um ataque cardíaco caiu dez vezes desde o final da década de 50. Entretanto, a influência da saúde emocional no desenvolvimento da doença continua em grande parte subestimada, afirma Jauhar. Ele atribui isto ao Framingham Heart Study, um marco histórico, iniciado em 1948, que identificou fatores de risco cardiovasculares como colesterol, pressão sanguínea e tabagismo. Os pesquisadores do estudo consideraram inicialmente determinantes psicossociais, mas no fim, decidiram concentrar-se em coisas mais facilmente mensuráveis.

Nas dezenas de anos que se passaram desde então, outros estudos mostraram que pessoas que vivem socialmente isoladas ou cronicamente estressadas pelo trabalho ou por relacionamentos infelizes, são mais propensas a ataques cardíacos e a derrames. Estudos realizados entre imigrantes japoneses nos Estados Unidos mostraram que eles estão sujeitos ao risco de ataques cardíacos muito maior. Entretanto, os que preservaram a cultura japonesa tradicional e fortes laços sociais estão protegidos. As taxas de doenças do coração destes não aumentam. Segundo Jauhar, as autoridades da saúde deveriam considerar o stress emocional um fator de risco fundamental para doenças cardíacas.

“Eu estava sempre tão envolvido numa corrida destrutiva que provavelmente carregava uma quantidade absurda de estresse”, disse Jauhar. “Agora procuro viver de uma maneira um pouco mais saudável, mais relaxada. Também intensifiquei o meu relacionamento com os meus pacientes e com os seus temores sobre as doenças cardíacas”.

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