Gerd Altmann/Pixabay
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Melinda Wenner Moyer, The New York Times

26 de fevereiro de 2022 | 05h00

Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington em St. Louis, sabe que está se aproximando do burnout quando acorda, sente uma raiva imediata dos e-mails na sua caixa de entrada e não quer sair da cama. Talvez não seja surpreendente que uma profissional da saúde mental, que está tentando conter a maré de esgotamento, também possa se sentir esgotada às vezes. Afinal, o fenômeno se tornou quase onipresente.

Quando as pessoas pensam em burnout, geralmente vêm à cabeça sintomas mentais e emocionais, como sentimentos de desamparo e descrença. Mas o burnout também pode levar a sintomas físicos, e os especialistas dizem que é bom ficar atento aos sinais e tomar medidas quando os perceber.

O burnout, segundo sua definição, não é uma condição médica. É “uma manifestação de estresse crônico absoluto”, explicou Lotte Dyrbye, cientista que estuda o burnout na Mayo Clinic. A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve o burnout como um fenômeno próprio dos locais de trabalho, caracterizado por sentimentos de exaustão, descrença e redução de eficiência. “Você começa a funcionar mal e perder prazos, fica frustrado e talvez até irritado com seus colegas”, disse Jeanette M. Bennett, pesquisadora que estuda os efeitos do estresse sobre a saúde na Universidade da Carolina do Norte.

Mas o estresse pode ter efeitos desgastantes sobre o corpo, especialmente quando não diminui depois de um tempo – então faz sentido que possa incitar sintomas físicos, disse Jeanette. Quando as pessoas estão sob estresse, seus corpos sofrem alterações que incluem níveis mais altos do que o normal de hormônios do estresse, como cortisol, adrenalina, epinefrina e norepinefrina. Essas alterações são úteis no curto prazo – elas nos dão energia para superar situações difíceis –, mas, com o tempo, elas começam a prejudicar o corpo.

Nossos corpos “não foram projetados para os tipos de estressores que enfrentamos hoje”, disse Christina Maslach, psicóloga social da Universidade da Califórnia, Berkeley, que se dedica ao estudo do burnout.

O que observar

Um sintoma comum do burnout é a insônia, disse Lotte, da Mayo Clinic. Quando pesquisadores da Itália entrevistaram os profissionais da saúde que estavam na linha de frente no primeiro pico da pandemia, descobriram que 55% relataram ter dificuldade em adormecer, enquanto quase 40% tiveram pesadelos.

Pesquisas sugerem que o estresse crônico interfere no complicado sistema neurológico e hormonal que regula o sono. É um ciclo vicioso, porque não dormir deixa esse sistema ainda mais fora de controle. Se você notou que não está conseguindo dormir à noite, isso pode ser um sinal de que você está com burnout, disse a cientista da Mayo Clinic – e sua insônia pode agravar o problema.

A exaustão física é outro sinal comum. Segundo a psiquiatra Jessi, um de seus principais sintomas de burnout é a fadiga. “Percebi que estava dormindo todos os dias depois do trabalho. E fiquei tipo ‘O que há de errado comigo?’, mas na verdade era burnout”, disse ela.

Mudanças nos hábitos alimentares – comer mais ou menos do que o habitual – também podem ser um sinal de burnout: no estudo com profissionais da saúde italianos, 56% relataram mudanças nos hábitos alimentares. As pessoas podem comer menos porque estão muito ocupadas ou irritadas, ou podem desejar “aquelas comidas reconfortantes que gostamos de comer quando precisamos de algo para nos sentirmos melhor”, disse a pesquisadora Jeanette. A pesquisa também sugere que os hormônios do estresse podem afetar o apetite, fazendo com que as pessoas sintam menos fome do que o normal quando estão sob muito estresse e mais fome do que o normal quando o estresse alivia.

Dores de cabeça e de estômago também podem ser incitadas por burnout, disse a psiquiatra Jessi. Na Suécia, um estudo com pessoas que sofrem de transtorno de exaustão – uma condição médica semelhante ao burnout – revelou que 67% relataram sentir náusea, gases ou indigestão e que 65% tinham dores de cabeça. Também é importante observar que o burnout pode se desenvolver juntamente com a depressão ou a ansiedade, as quais podem causar sintomas físicos. A depressão pode causar dores musculares, dores de estômago, problemas de sono e alterações de apetite. A ansiedade está ligada a dores de cabeça, náuseas e falta de ar.

O que fazer

Se você estiver enfrentando sintomas físicos que podem ser indicativos de burnout, pense em consultar seu médico de cuidados primários ou um profissional de saúde mental para determinar se os sintomas resultam do estresse ou de outras condições físicas, disse Lotte, da Mayo Clinic. Não ignore os sintomas e nem parta do pressuposto de que eles não têm importância.

“É muito fácil ignorar seus próprios sintomas, especialmente na nossa cultura, onde nos ensinam que o mais importante é trabalhar duro sempre”, disse a psiquiatra Jessi.

Se for burnout, a melhor solução é abordar a raiz do problema. Burnout geralmente é reconhecido quando resulta do trabalho, mas o estresse crônico pode ter uma variedade de causas – problemas financeiros, problemas de relacionamento e sobrecarga com o cuidado dos filhos, entre outras coisas. Pense nas “pedrinhas no seu sapato com as quais você tem que lidar o tempo todo”, disse a psicóloga Christina, e pense em maneiras de remover algumas delas, pelo menos algumas vezes. Talvez você possa pedir ao seu parceiro para ajudar mais com a rotina do filho ou pedir comida quando estiver especialmente ocupado, para não precisar planejar o jantar também.

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Qualquer coisa que você possa fazer para recuperar um elemento de controle pode ser muito útil
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Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington

Apesar da cobertura da cultura popular sobre o problema, o burnout não pode ser “consertado” com mais autocuidado, disse Christina – na verdade, essa insinuação só piora o problema, porque coloca a culpa e a responsabilidade nas pessoas que já estão com burnout e implica que elas deveriam fazer mais para se sentirem melhor. No entanto, algumas escolhas de estilo de vida podem diminuir as chances de burnout. O apoio social, por exemplo, pode ajudar, disse Jessi. Esse apoio pode ser uma conversa com um terapeuta ou um encontro com os amigos (mesmo que pelo Zoom).

Outra opção é aproveitar os benefícios de saúde mental ou exercícios físicos oferecidos pelo seu empregador. Dormir mais também pode ajudar – então, se você sofre de insônia, converse com um médico sobre possíveis tratamentos, sugeriu a pesquisadora Jeanette. Quando o burnout decorre de problemas relacionados ao trabalho, pode ser útil solicitar melhores condições no emprego. A psicóloga Christina sugeriu fazer um brainstorming com colegas de trabalho e apresentar ao seu empregador ideias que ajudariam – como oferecer áreas silenciosas para intervalos e telefonemas pessoais, criar dias “sem reuniões” para que os funcionários possam ter mais tempo para se concentrar ou garantir que haja sempre café na sala de descanso.

Mesmo pequenas mudanças como essas podem reduzir o risco de burnout se resolverem um problema que as pessoas enfrentam no trabalho todos os dias. “São os estressores crônicos que deixam as pessoas realmente loucas depois de um tempo – quando elas não têm o equipamento certo, não têm as coisas de que precisam, não têm pessoas suficientes para fazer o trabalho”, disse Christina.

Tirar uma folga do trabalho também pode ajudar, mas provavelmente é apenas um band-aid temporário, disse Jessi. Ela compara essa folga ao uso de um balde para esvaziar a água de um navio afundando. “O navio ainda vai afundar, certo? Você tem que fazer mais do que tirar um balde da água de vez em quando”, disse ela. Ainda assim, é importante pegar uma folga regularmente, disse Lotte.

Em última análise, o ideal é garantir que você tenha alguma liberdade e autonomia em seu trabalho, disse Jessi. “Qualquer coisa que você possa fazer para recuperar um elemento de controle pode ser muito útil”, disse ela. Isso pode significar fazer sua atividade de trabalho menos favorita antes do intervalo, para que você tenha algo pelo que ansiar durante a tarefa e um tempo para se recuperar depois. Ou trocar uma tarefa temida com um colega de trabalho e pegar sua tarefa mais odiada, que talvez não seja tão difícil para você.

Por fim, tente reservar um pouco de tempo todos os dias para algo que você ama, disse Lotte. Sua pesquisa descobriu que os cirurgiões que reservam tempo para hobbies e recreação – mesmo que apenas 15 a 20 minutos por dia – são menos propensos a sofrer de burnout do que os cirurgiões que não o fazem. “Você tem que ter algo fora do trabalho que ajude a desestressar, que ajude a se concentrar, ajude a relaxar”, disse ela./Tradução de Renato Prelorentzou

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