Angie Wang
Angie Wang
Justin Gillis e Bruce Nilles, The New York Times

11 de maio de 2019 | 06h00

Temos uma boa notícia que pode parecer uma má notícia: você vai ter de se livrar de seu forno a gás.

Sabemos como você vai se sentir ao ler essas palavras. Nós também adorávamos cozinhar usando o gás. Mas se nossa sociedade pretende resolver a crise climática, uma das coisas que precisamos fazer é parar de queimar gás em nossos edifícios.

Ninguém vai chorar se for obrigado a trocar o modelo do aquecimento doméstico por uma alternativa mais eficiente. Mas os fornos a gás despertam uma resposta emocional, e a indústria do gás sabe disso. Vendo essa luta no horizonte, a indústria já está preparando a propaganda com fotos idílicas de chamas azuis. O que as empresas de gás não dizem é que seu forno é um perigo não apenas para o clima global, mas para a saúde da sua própria família. Tudo será explicado em breve.

Primeiro, um pouco de contexto global: a necessidade de enfrentar a mudança climática é mais do que urgente. Nosso tempo está se esgotando. Nos próximos dez anos, apenas nos Estados Unidos, será preciso cortar pela metade poluição para que o país faça sua parte na preservação de um planeta habitável.

Apesar do governo Trump, os EUA estão progredindo em algumas áreas. O país está aposentando as usinas de carvão em um ritmo recorde, e metade delas já foi desativada. Uma nova onda de ambição para combater a mudança climática está varrendo as assembleias legislativas estaduais este ano conforme um número cada vez maior delas se compromete com a geração de energia 100% limpa ou debate como fazê-lo. Mas, independentemente desse progresso, o Rhodium Group estima que as emissões de gases-estufa nos EUA tenham aumentado 3,4% no ano passado em relação ao ano anterior, um dos maiores saltos observados nas últimas décadas.

A queima do gás é, agora, uma fonte dessa poluição maior do que a queima do carvão, e quase um terço desse gás é queimado nos lares e edifícios comerciais. Mas, apesar de um crescente refrão de promessas climáticas feitas por governos estaduais e locais, nenhuma delas enfrentou de fato a questão do gás nos edifícios. Na verdade, as empresas de gás ainda têm permissão para gastar bilhões com a extensão de novas linhas, uma infraestrutura que terá de ser restringida muito antes do fim de sua vida útil se quisermos atingir nossas metas climáticas.

Tirar o gás dos edifícios existentes é um processo que claramente levará algum tempo e, com isso, os novos edifícios são o lugar certo para começarmos a superar esse vício. E a Califórnia deve ser a primeira.

Em Berkeley, a vereadora Kate Harrison propõe uma proibição às instalações de gás em novas construções, parte de uma iniciativa para garantir que a cidade cumpra o estabelecido em sua declaração de "emergência climática" de 2018. Outras cidades estudam o tema, e Los Angeles anunciou recentemente um plano ambicioso. Depois que as cidades da Califórnia mostrarem como isso pode ser feito, esperamos que o restante dos EUA aja de acordo.

O objetivo final dessa substituição é fazer com que uma parcela cada vez maior da economia seja movida a eletricidade, estratégia conhecida como "eletrizar tudo". Isso faz sentido, pois, conforme a eletricidade renovável substitui os combustíveis fósseis, a rede elétrica vai se tornar cada vez mais limpa.

Talvez os leitores mais velhos estejam pensando: espere aí. Os lares elétricos "medalha de ouro" eram promovidos meio século atrás, em uma época em que os preços da eletricidade estavam em queda. Lares desse tipo foram muito alardeados pela indústria elétrica e por Ronald Reagan, representante dos interesses da General Electric. Mas eles se tornaram um problema para seus proprietários quando os preços da eletricidade aumentaram.

Por que os lares totalmente elétricos fazem sentido agora? Porque a tecnologia foi aprimorada, sob a forma de dispositivos chamados bombas de calor. Elas funcionam com eletricidade, mas de maneira muito mais eficiente do que os eletrodomésticos da geração de nossos pais. Assim, se começarmos a instalá-las agora, quando a rede elétrica se tornar mais limpa, nossos edifícios passarão a contribuir cada vez menos para a mudança climática.

Talvez você nunca tenha ouvido falar em bombas de calor, mas já há uma delas na sua casa. A bomba de calor é a tecnologia central da sua geladeira. Trata-se de um circuito envolvendo uma bomba e um compressor que absorvem o calor do ar interior e o expelem na cozinha, e isso ocorre mesmo quando o interior da geladeira é mais frio que o ambiente externo.

Uma bomba de calor pode substituir tanto o aquecedor quanto o ar-condicionado. No inverno, ela absorve o calor do lado de fora, mesmo quando o clima estiver frio, soprando o calor dentro de casa. No verão, a bomba de calor funciona ao contrário, resfriando o lar.

Construir um novo lar totalmente elétrico usando um sistema de bombas de calor já é mais barato do que construir um lar para o uso do gás porque se evita o custo do terminal de gás e da ventilação. Para os lares mais antigos, os números variam; um estudo do Rocky Mountain Institute revelou que o custo de instalação e operação de uma bomba de calor o longo da sua vida útil pode ser mais barato ou mais caro do que um sistema de gás (a variação é de aproximadamente 10%). E, conforme as bombas de calor se tornarem equipamento-padrão nas novas construções, o mercado vai produzi-las em maior escala, derrubando o custo para todos os lares.

Os fornos usam pouca energia, mas, enquanto as pessoas não se convencerem de que há alternativas superiores ao forno a gás, não conseguiremos nos livrar dos terminais de gás nos edifícios - o que nos ajudaria a poupar muito dinheiro com o fechamento do sistema de distribuição do gás.

Mais uma vez, a tecnologia ofereceu uma resposta. Os cooktops de indução, que funcionam com eletricidade, são superiores aos fornos a gás. Esses dispositivos usam ondas magnéticas para aquecer panelas, e os cozinheiros que os experimentam logo ficam apaixonados. A suposta vantagem dos fornos a gás é controlar com precisão o calor, mas os cooktops de indução são mais exatos, e mais rápidos. Por enquanto, os cooktops ainda são mais caros do que os fornos a gás.

Uma mudança coletiva para a cozinha por indução faria sentido mesmo se o clima não fosse nossa preocupação, pois os fornos a gás estão poluindo nossos lares. Nos dez anos mais recentes, um crescente número de evidências científicas mostrou que os fornos a gás produzem poluentes como dióxido de nitrogênio e monóxido de carbono. Quando cozinhamos, esses poluentes invisíveis podem facilmente alcançar níveis que seriam considerados ilegais no ambiente externo, mas as leis americanas para a limpeza do ar, por exemplo, não vigoram dentro de casa.

Os cientistas associam os fornos a gás a ataques de asma e hospitalizações. Em 2008, cientistas da Universidade Johns Hopkins, em Maryland, insistiram para que os médicos aconselhassem pais de crianças asmáticas a se livrarem dos fornos a gás, ou ao menos instalarem poderosas coifas de exaustão. A asma é uma doença descontrolada e discriminatória, que afeta principalmente as crianças e as comunidades de negros e hispânicos.

Por questões climáticas e de saúde, acreditamos que as pessoas que podem arcar com o custo dessa mudança no momento não devem aguardar uma queda nos preços. Contrate um bom empreiteiro, substitua os eletrodomésticos a gás por bombas de calor e feche o terminal de gás. Ao mesmo tempo, programas estaduais de incentivo devem ser anunciados para garantir que todas as famílias possam fazer essa transição o mais rápido possível, independentemente de sua renda.

O quanto antes fizermos a mudança, mais cedo poderemos mostrar aos vizinhos nosso novo cooktop de indução, ensinando a eles que os lares totalmente elétricos estão de volta, e no momento certo.

Bruce Nilles é diretor administrativo do Rocky Mountain Institute, onde deu início a um programa de eletrização de edifícios. Justin Gillis foi repórter do Times cobrindo o setor ambiental.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
aquecimento globalgás de cozinha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.