Andrew Testa/The New York Times
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Shell investe em energia limpa, mas ativistas dizem que ações precisam ser mais rápidas

Embora ainda dependa dos lucros dos combustíveis fósseis, a Royal Dutch Shell está investindo mais em energia renovável. Os críticos dizem que as mudanças precisam vir mais rápido

Stanley Reed, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 05h00

MINETY, Inglaterra - Em uma clareira na fronteira com o terreno de uma fazenda, 40 grandes caixas retangulares do tamanho daqueles contêineres enviados por navios estão atrás de uma cerca alta. Dentro delas, estão pilhas de células de íon-lítio e outros equipamentos elétricos.

Conectadas, essas unidades formarão a maior bateria da Europa, segundo os operadores, e será capaz de bombear impulsos poderosos de eletricidade para compensar as flutuações na rede elétrica quando os ventos enfraquecem ou os céus nublados diminuem a geração de energia renovável. Conforme mais eletricidade vem da energia eólica e solar, a necessidade de baterias gigantescas aumentará.

Uma das empresas por trás desse projeto de 40 milhões de libras (cerca de US$ 56 milhões) é a Royal Dutch Shell. Como outras gigantes petrolíferas, a Shell está sob pressão para se distanciar dos combustíveis fósseis, que causam danos ao clima, e está se reformulando como uma empresa de energia renovável, em busca de investimentos enquanto caminha timidamente em direção a um novo futuro.

A investida da Shell no interior da Inglaterra em Minety, cerca de 145 quilômetros a oeste de Londres, oferece uma pista para esse futuro. Mas para uma empresa mais acostumada com plataformas de petróleo no mar e produção de gás natural, a bateria gigante é parte do que alguns críticos veem como uma mudança tortuosa que, dizem eles, deve acelerar para ter um impacto real sobre os fatores que causam as mudanças climáticas.

Uma subsidiária da Shell chamada Limejump está gerenciando o dispositivo - ela administra muitas dessas baterias - e dividirá as receitas com a venda da energia armazenada nele em um acordo com dois investidores chineses.

A Limejump é o tipo de negócio que chama a atenção dos executivos da Shell atualmente. Com 80 engenheiros de software, traders e analistas, a empresa compra eletricidade de 675 fazendas eólicas, instalações solares e outros geradores, em grande parte renováveis, espalhados pela Grã-Bretanha, e a vende para empresas que desejam que sua energia seja eco sustentável.

A empresa, que a Shell adquiriu há dois anos, é um dos vários investimentos que a petrolífera fez na área de energia limpa. Outra é a Sonnen, uma fornecedora alemã de baterias que cria suas próprias redes de energia para desafiar as grandes concessionárias. A Shell também está construindo um serviço de carregamento de veículos elétricos em todo o mundo e alimentando postos de abastecimento de hidrogênio na Califórnia.

Ben van Beurden, CEO da Shell, tem falado a respeito da necessidade de cortar as emissões de carbono desde 2017. Na opinião de alguns, porém, a Shell está agindo com atraso deliberadamente. Os investimentos da empresa em energia limpa desde 2016 somam US$ 3,2 bilhões, enquanto ela gastou cerca de US$ 84 bilhões em exploração e desenvolvimento de petróleo e gás, de acordo com estimativas da Bernstein, empresa de pesquisa de mercado.

“Você não pode alegar que está em transição quando investe apenas uma porcentagem tão pequena do capital em novos negócios”, disse Mark van Baal, fundador do Follow This, grupo ativista de investidores holandeses.

Todas as grandes empresas petrolíferas, principalmente na Europa, compartilham um dilema semelhante. Seus líderes veem que a demanda por produtos derivados do petróleo tende a enfraquecer e que sua indústria enfrenta crescente desaprovação, sobretudo na Europa, por causa de seu papel na mudança climática. A Shell é responsável por aproximadamente 3% das emissões globais, em grande parte pela gasolina e outros produtos queimados por seus consumidores.

No entanto, a Shell e outras empresas ainda conseguem quase todos os seus lucros a partir de combustíveis fósseis e são naturalmente cautelosas em dar fim à maior parte de seus vastos ativos de petróleo e gás e petroquímicos - avaliados em cerca de US$ 180 bilhões no caso da Shell, de acordo com a Bernstein - principalmente quando o consumo do petróleo está previsto para continuar por anos, um ponto ressaltado pelo aumento dos preços do petróleo este ano.

Em um artigo recente no LinkedIn, van Beurden escreveu que “não ajudaria o mundo nem um pouco” se a Shell parasse de vender gasolina e diesel hoje. “As pessoas abasteceriam seus carros e caminhões de entrega em outros postos de serviços”, escreveu ele.

A Shell também parece estar jogando um jogo mais longo e cauteloso do que alguns concorrentes, como a BP, que estão investindo em projetos de energia renovável. Os executivos da Shell parecem céticos em relação ao potencial de lucro de apenas construir e operar ativos de geração de energia renovável, como parques eólicos.

“É uma estratégia muito mais multifacetada do que eu acho que as pessoas necessariamente previram”, disse Adam Matthews, diretor de engajamento e ética do Church of England Pensions Board, que tem trabalhado em estreita colaboração com a Shell em metas para reduzir as emissões de carbono da empresa.

Os executivos da Shell dizem que querem apostar em tecnologias e negócios que talvez evoluam para engrenagens-chave no sistema de energia mais limpa que está surgindo.  Eles querem não apenas produzir energia limpa, mas ganhar dinheiro com o fornecimento dela para empresas como a Amazon e clientes do varejo por meio de grandes contratos personalizados; ou com pontos para recarregar veículos elétricos ou utilitários de propriedade da Shell. Os números dos investimentos aumentarão, dizem eles, para até US$ 3 bilhões por ano, de um total de cerca de US$ 20 bilhões em despesas de capital anuais.

“Estamos pensando mais para frente; para onde vai o futuro?”, disse Elisabeth Brinton, vice-presidente executiva da Shell para energias renováveis e soluções de energia.

A pressão sobre a Shell para ela mudar talvez aumente. Em 26 de maio, um tribunal holandês abalou a empresa ordenando que ela acelerasse seus planos de redução de emissões. Van Beurden respondeu dizendo que a Shell provavelmente aceleraria seus esforços para reduzir a emissão de carbono, mas também disse que a empresa espera oferecer produtos derivados do petróleo e gás “por muito tempo ainda”. Um motivo: ter certeza de que tem recursos financeiros para investir em energia de baixo carbono.

No entanto, os executivos da Shell parecem à vontade em fazer investimentos em novas áreas quando consideram o caso convincente. Este ano, a Shell comprou a Ubitricity, que instala pontos de recarga de veículos elétricos em postes de luz e outras estruturas em Londres e outras cidades.

Poppy Mills, que trabalhou na negociação para a Shell e agora é o diretor comercial da Ubitricity para a Grã-Bretanha, disse que embora a economia de tais negócios fosse "desafiadora", a Shell tinha comprado a empresa como uma forma de chegar até a grande porcentagem de residentes da cidade que mantinham seus carros na rua e não tinham acesso a carregadores.

“Era uma lacuna em nosso portfólio não ter uma rede na rua”, disse ela.

Essa solução provavelmente impulsionará o crescimento da energia limpa na Shell e em outras empresas petrolíferas.

“Esses negócios são minúsculos no esquema geral das coisas”, disse Stuart Joyner, da Redburn, uma empresa de pesquisa. “Mas eles são a parte que está crescendo, em relação aos outros elementos, rapidamente.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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