Shirley Curry/The New York Times
Shirley Curry/The New York Times

Essa ‘vovó gamer’ tem mais de 900 mil seguidores

Curry tem cultivado seguidores no YouTube com seus vídeos charmosos de viagens por 'The Elder Scrolls V: Skyrim'

Luke Winkie, The New York Times - Life/Style

01 de outubro de 2020 | 05h00

Shirley Curry já soma milhares de horas de jogo desde os anos 1990. Ela joga videogames a mais tempo do que muitos dos melhores competidores de hoje têm de vida. Ainda assim, quando as pessoas a elogiam por seus encantadores guias (ou "detonados") para o popular título de RPG The Elder Scrolls V: Skyrim, ela sente que os elogios estão fora de lugar.

“Quando me dizem coisas como, ‘Você é uma lenda!’, fico constrangida, pois sou apenas uma avó razoavelmente desajeitada", disse Shirley, 84 anos. “Tento ser sincera e fiel a mim mesma. Fico no meu apartamento sonhando com histórias. É tudo que faço.” Ela começa todos os dias em sua casa no sudoeste de Ohio empoleirada diante do computador com a câmera ligada, pronta para guiar os “netinhos” — termo que ela usa para se referir aos seus mais de 900 mil assinantes no YouTube — em mais uma jornada pelo título de 2011. Há uma masmorra a ser conquistada, ou uma cidade a ser explorada, ou novos feitiços para dominar.

Ela lê em voz alta todos os livros encontrados no jogo, deleita-se com a atmosfera das tavernas à beira da estrada, e cuidadosamente equipa seus personagens com espadas, machados e adagas. Ao fim de cada vídeo, ela se despede do público com a mesma saudação: “Tchau, tchau, netinhos".

 

Ela começou a se interessar pelos jogos quando o filho a ensinou como jogar o clássico de estratégia Civilization II (1996). “Eu jogava muito, dia e noite", disse ela. “Conquistava um continente depois do outro, e adorava aquilo.” Enquanto criava os quatro filhos, Shirley teve vários empregos diferentes: foi secretária, trabalhou em uma fábrica de doces e passou muitos anos como vendedora no departamento de vestuário feminino de uma Kmart. Aposentou-se em 1991, aos 55 anos.

Duas décadas mais tarde, ela deu início a um quarto ato. Entrou no YouTube em 2011 para assistir a seus canais de games favoritos e publicou seu primeiro vídeo jogando Skyrim em 2015. Esse vídeo, no qual ela enfrenta uma aranha gigante, somou 2,1 milhões de visualizações.

“Temos que criar uma campanha para fazer da Vovó Shirley um tesouro nacional", diz um dos principais comentários. Agora, Shirley é figura conhecida no universo global dos gamers. Além das centenas de milhares de assinantes no YouTube, ela tem 75 mil seguidores no Twitter e outros sete mil no Instagram. A Bethesda, estúdio responsável pelo desenvolvimento da série Elder Scrolls, prometeu incluí-la como personagem da sequência de Skyrim, a ser lançada.

“No estúdio, todos a conhecem. Queria fazer isso do jeito certo. Isso significou reproduzir não apenas sua aparência, mas também a textura da pele e as expressões faciais", disse Rick Vicens, artista sênior na Bethesda. “Quando falamos a respeito do processo e do que seria necessário, Shirley ficou entusiasmada.

Fico feliz em mostrar o resultado final a todos, mas especialmente a Shirley.” Em um ecossistema de influenciadores que tende a favorecer os mais jovens, Shirley descobriu que havia espaço para pelo menos uma avó. Consequentemente, ela teve que lidar com algumas das responsabilidades da fama na internet, como responder aos fãs e suportar os seguidores que se consideram mais “íntimos" sem nem sequer a conhecerem.

“Me esforcei muito para responder a todos os e-mails e comentários. Me parecia que, se a pessoa dedicou seu tempo a assistir meu vídeo e escrever algo, ela mereceria uma resposta. Mas foi demais para mim. Passava o dia inteiro respondendo. Então passei a simplesmente curtir as respostas de todos, mas também parei com isso", disse Shirley.

“Agora eu rolo a lista de comentários, vejo alguns usuários com quem costumo interagir, e respondo a eles. Não consigo dar conta de cada ‘Oi, vovó’, ‘Bom dia, vovó’.” Shirley disse que ganha um bom dinheiro com seu canal no YouTube, o suficiente para poder viajar acompanhando as convenções de games, onde conheceu alguns de seus fãs mais fervorosos.

Esses eventos foram interrompidos pela pandemia, mas Shirley disse que seu cotidiano não mudou muito em 2020: “Faço um café, sento ao computador, ligo os dois monitores e abro os e-mails, os comentários e o Twitter", disse ela. Shirley disse que, no começo de sua carreira no YouTube, ela preparava os vídeos jogando Skyrim uma semana antes da data de upload, mas, agora, elas os conclui frequentemente no mesmo dia em que são colocados no seu canal. Tornou-se difícil manter essa rotina por causa de uma série de questões de saúde.

Ela anunciou que faria uma breve pausa no canal em maio por causa de rápidas flutuações na sua pressão sanguínea. A causa ainda é desconhecida. “[A pressão arterial] sobe muito. E, quando cai, começo a perder os sentidos. Ninguém sabe por que a pressão cai tão rápido", disse ela.

“Uma médica não queria deixar que eu saísse do consultório, pois disse que eu poderia ter um derrame a qualquer minuto.” Shirley também disse que fica frustrada com certos comentaristas que tentam explicar a ela a gíria dos gamers. Ela falou a respeito do assunto em vídeo publicado no dia 25 de maio. “Sei que não deveria deixar essas coisas me estressarem, mas elas me cansam", disse ela.

“Jogo Skyrim há anos. Conheço a interface na tela, conheço as diferentes mecânicas, e ninguém precisa me explicar nem lembrar de nada o tempo todo.” O termo “burnout” é usado com frequência entre os YouTubers para descrever a exaustão sentida pelos criadores de conteúdo na tentativa de atender ao rigoroso cronograma de publicação de novos vídeos e satisfazer os fãs. Shirley disse sentir parte dessa pressão.

“Às vezes, tenho a sensação de estar encurralada. Os seguidores fazem comentários que me dão a sensação de não poder desapontá-los, nem abandoná-los", disse ela. “Há momentos em que fico cansada e penso em largar tudo isso. Mas não posso, simplesmente não posso.” Afinal, como tantos outros criadores de conteúdo on-line, Shirley criou um vínculo com seus espectadores, com quem conquistou um nicho na internet.

Antes, ela participava de um grupo de costura formado por pessoas da sua idade. Sabiam que ela era uma gamer, mas foi somente com o YouTube que ela encontrou uma oportunidade para falar dos detalhes de Civilization. Simplesmente não há uma comunidade de gamers da terceira idade à qual ela possa se integrar. “Falamos a respeito de tricô e coisas do tipo, mas não falamos a respeito de jogos porque eles não sabem nada desse tema", disse Shirley. “Eu não tinha com quem falar do assunto.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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