Emile Ducke / The New York Times
Emile Ducke / The New York Times

Solo da Sibéria está descongelando cada vez mais rápido

A água, que varre estradas de terra já precárias e arranca cadáveres dos túmulos, ameaça vilarejos inteiros com a inundação permanente

Neil Macfarquhar, The New York Times

11 de agosto de 2019 | 06h00

YAKUTSK, RÚSSIA - O assistente de laboratório colocou as mãos no freezer e tirou dali um objeto envolto em uma esfarrapada sacola plástica de compras, tirando a cobertura lamacenta e depositando-o em uma mesa de madeira. Era a cabeça decepada de um lobo.  O animal, de pelo úmido e dentes à mostra, parecia prestes a atacar, mas já estava rosnando há cerca de 32 mil anos - preservado no pergelissolo, mais conhecido como permafrost, a aproximadamente 20 metros da superfície na Iacútia, nordeste da Sibéria.

Conforme o Ártico (incluindo boa parte da Sibéria) se aquece pelo menos duas vezes mais rápido que o restante do mundo, o permafrost - solo permanentemente congelado - está descongelando. Estranhezas como a cabeça do lobo estão emergindo com mais frequência em uma região já conhecida por revelar mamutes preservados inteiros.

O descongelamento do permafrost - bem como outras alterações precipitadas pelo aquecimento global - está transformando essa região incrivelmente remota às vezes chamada de "Reino do Inverno". Trata-se de um dos locais habitados mais frios do planeta, e é imenso; se fosse uma república independente, a Iacútia seria o oitavo maior país do mundo.

A perda do permafrost deforma a própria paisagem, derrubando casas e celeiros. Os padrões de migração de animais caçados durante séculos estão mudando, e fortes enchentes trazem o caos à região em quase toda a primavera. A água, que varre estradas de terra já precárias e arranca cadáveres do túmulo, ameaça vilarejos inteiros com a inundação permanente. Ondas vão desfazendo o litoral do Ártico, menos congelado.

Os povos indígenas se veem mais ameaçados do que nunca. Sentem-se impotentes e expulsos de suas terras tradicionais. “Tudo está mudando, as pessoas tentam encontrar uma forma de se adaptar", disse o agricultor Afanasiy V. Kudrin, 63, de Nalimsk, vilarejo de 525 habitantes situado acima do Círculo Polar Ártico. “Precisamos que o frio volte, mas o clima não para de esquentar”, lamenta.

A mudança climática é um fenômeno global, mas as mudanças são particularmente pronunciadas na Rússia, onde o permafrost cobre cerca de dois terços do país a profundidades que chegam a quase um quilômetro e meio. “As pessoas não se dão conta da escala da mudança, e nosso governo não quer nem pensar no assunto", diz Aleksandr N. Fedorov, vice-diretor do Instituto Melnikov para o Permafrost, instituição de pesquisa na capital regional, Yakutsk.

Na Iacútia, que representa quase 20% do território da Rússia, as distâncias são imensas, e o transporte, limitado. A população é pouco inferior a um milhão. No distante nordeste, o distrito de Srednekolymsk, situado inteiramente acima do Círculo Polar Ártico, é um pouco menor do que a Grécia. Apenas oito mil pessoas habitam 10 vilarejos, sendo 3.500 na capital, também chamada Srednekolymsk.

Temperaturas

Em Srednekolymsk, o verão costumava durar de 1º de junho até 1º de setembro, mas agora se estende por mais duas semanas em ambas as extremidades. Em janeiro, o termômetro fica na casa dos -46°C, em vez dos habituais -59°C. Para os moradores locais, -46°C é um clima “fresco". Seguindo um padrão observado em todo o país, a temperatura média anual em Yakutsk aumentou de  -10°C para -7,5°C ao longo das décadas, afirma Fedorov.

Os invernos mais quentes e verões mais longos estão degelando aos poucos a terra congelada que cobre 90% da Iacútia. A camada superior que degela no verão e congela no inverno pode se estender a uma profundidade de até três metros, sendo que antes o máximo observado era um metro. O degelo do permafrost e o aumento da precipitação tornaram a terra mais úmida. Chuva e neve formam uma camada de isolamento térmico que acelera o degelo subterrâneo. A água pressionada pelos pedaços de gelo causa agora pesadas enchentes todo mês de maio.

No ano passado, em Srednekolymsk, as enchentes varreram a pista de pouso de terra. Aeronaves soviéticas ligam a região ao restante do mundo, mas a pista teve de permanecer fechada por uma semana. Em outros lugares, as rotas de migração das renas selvagens mudaram, e insetos e plantas desconhecidos passaram a habitar a mata.

Caçadores em Nalimsk, 18 quilômetros ao norte de Srednekolymsk, costumavam armazenar o peixe e a caça em uma caverna de sete metros escavada no permafrost, funcionando como uma espécie de freezer natural. Agora, a carne apodrece. O vilarejo de Beryozovka foi inundado em praticamente todas as primaveras da década passada, e seus 300 moradores tiveram de recorrer às canoas para seus deslocamentos. Beryozovka abriga a única concentração do povo Even, uma das muitas tribos indígenas locais, cada vez menores.

“Falaram em abandonar o vilarejo, mas os moradores não quiseram se mudar", diz Octyabrina R. Novoseltseva, diretora da Associação dos Povos Indígenas do Norte na região de Srednekolymsk. “Eles perderiam tudo, e sua cultura desapareceria”. O governo na distante Moscou é um conceito abstrato. Os aldeões costumam depender apenas de si mesmos. Até grupos administrados pelo estado como o instituto de pesquisa do permafrost carecem dos recursos necessários para avaliar corretamente a extensão da degradação do solo. Tampouco conseguem medir outras consequências, como o volume de metano produzido pelos micróbios no chão descongelado, intensificando o aquecimento global. “Não estamos realmente monitorando a situação e, assim, vamos ver o que ela trará", afirma Yevgeny M. Sleptsov, diretor do distrito de Srednekolymsk.

Consequências do degelo

Com o degelo do permafrost, parte da terra afunda, transformando a topografia em um percurso de obstáculos repleto de crateras e outeiros, chamado termocarste. O material pode afundar e formar pântanos e, posteriormente, lagos. Plantio e pasto são inviabilizados.

Em toda a Iacútia, os agricultores substituíram dezenas de milhares de vacas por cavalos nativos. Esses consomem menos feno, mas produzem menos leite, e o mercado para sua carne é limitado. Os animais morrem quando o casco não consegue penetrar a neve e o gelo mais profundos para chegar ao alimento.

Nikolai S. Makarkov, 62, está construindo uma casa nova. Cansou de tentar salvar a antiga, que já afundou quatro vezes.

Anos atrás, a estrada do vilarejo tinha um percurso reto, ladeada de chalés de madeira. Agora, a lamacenta e esburacada pista mal pode ser chamada de estrada. Casas abandonadas mantêm ângulos improváveis. “Parece que uma guerra passou por aqui", compara Makarkov, cuja casa nova fica equilibrada em pilares que afundam quase cinco metros no chão, onde ainda há permafrost. “Logo, não haverá mais terra plana no vilarejo. Tenho apenas 30 ou 40 anos de vida pela frente, e espero que minha casa nova dure muito tempo”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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