Fred Tanneau/Agence France-Presse — Getty Images
Fred Tanneau/Agence France-Presse — Getty Images

Sim, o polvo é inteligente. Mas a razão disto não está clara

Os cientistas não sabem como os cefalópodes se tornaram tão inteligentes

Carl Zimmer, The New York Times

28 de dezembro de 2018 | 06h00

Para demonstrar a que ponto um polvo pode ser inteligente, Piero Amodio nos direciona para um vídeo no YouTube, que mostra um polvo juntando duas metades de uma concha para se esconder dentro dela. Depois o animal empilha as duas metades como se fossem um ninho e as carrega com ele. “Isto sugere que o polvo está usando essas ferramentas porque tem alguma compreensão de que podem ser úteis no futuro”, disse Amodio, estudante de graduação da Universidade de Cambridge, Grã-Bretanha. Mas Amodio não está apenas assombrado como também perplexo.

Durante décadas os pesquisadores têm estudado como certos animais evoluíram e se tornaram inteligentes. Mas todas as teorias científicas falham quando se trata dos cefalópodes, grupo de inclui o polvo, a lula e a sépia. Amodio e cinco especialistas em inteligência animal exploram esse paradoxo num estudo publicado no mês passado em Trends in Ecology and Evolution.

Os cientistas identificaram alguns fatores partilhados por animais inteligentes. Eles  têm cérebros grandes, vivem por longo tempo e conseguem criar vínculos sociais duradouros. Essas similaridades levaram a explicações promissoras sobre como determinados animais evoluíram e se tornaram inteligentes. Uma explicação sustenta que a inteligência evoluiu como uma adaptação para procurar comida, Outros pesquisadores afirmam que animais mais inteligentes “cooperam e aprendem com outros membros das mesmas espécies”, disse Amodio.

Os cefalópodes se comportam de maneira que sugere que são bastante inteligentes. Um polvo chamado Inky, por exemplo, escapou recentemente do Aquário Nacional da Nova Zelândia, escapando do seu tanque e deslizando por um cano aberto que o levou para o chão, e aparentemente foi para o mar. Pesquisadores da Hebrew Universisty em Israel ofereceram a polvos uma caixa em forma de L com alimento dentro. Os animais imaginaram uma maneira de empurrar e puxar a caixa através do pequeno buraco na parede do seu tanque.

Outra característica que os cefalópodes compartilham com animais inteligentes é o cérebro relativamente grande. Mas as similaridades acabam aí. Muitos dos neurônios utilizados estão nos tentáculos do polvo. E o surpreendente é que os cefalópodes morrem jovens. Alguns vivem até dois anos, ao passo que outros duram somente alguns meses. E os cefalópodes não criam vínculos sociais.

Amodio e seus colegas acreditam que a história evolucionária dos cefalópodes explicaria esse paradoxo da Inteligência. Há 275 milhões de anos, seu ancestral perdeu sua concha externa. Agora os animais podiam começar a explorar lugares que eram proibidos - fendas rochosas, por exemplo - em busca de suas presas. A perda de suas conchas também os deixou vulneráveis aos predadores. O que pode ter levado os cefalópodes a se tornarem mestres do disfarce e das escapadas. E isto desenvolvendo grandes cérebros, a capacidade para solucionar novos problemas, e talvez ter uma visão do futuro.

A pesquisa pode fazer mais do que lançar uma luz sobre os cefalópodes e seus parentes: ela pode nos oferecer uma compreensão maior da inteligência em geral. “Não podemos dar como certo que existe um único caminho para a inteligência, mas talvez existam caminhos diferentes”, disse Amodio.

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