Corey Brickley, via The New York Times
Corey Brickley, via The New York Times

Simplicidade pode ser um problema para a tecnologia

Especialistas acreditam que dificultar o uso de alguns produtos e serviços online contribui para a proteção do usuários

Kevin Roose, The New York Times

26 de dezembro de 2018 | 06h00

Sete anos atrás, Mark Zuckerberg subiu no palco durante a conferência anual de desenvolvedores do Facebook e anunciou uma grande mudança no funcionamento da rede social. Até então, os aplicativos que se conectavam ao Facebook perguntavam aos usuários se eles queriam publicar sua atividade mais recente no feed de notícias. Segundo Zuckerberg, essas mensagens do tipo pop-up - de aplicativos como Spotify e Netflix - eram irritantes, e assim a empresa criou uma nova categoria de apps capazes de postar no feed de notícias do usuário sem solicitar aprovação todas as vezes. 

"A partir de agora, a experiência será sem atrito", disse ele.

Faz cerca de dez anos que eliminar o "atrito" - nome dado a uma característica que torna um produto mais difícil de usar - tornou-se uma obsessão para a indústria da tecnologia. Airbnb, Uber e centenas de outras startups ganharam bilhões ao reduzir o esforço necessário para alugar quartos, chamar táxis e completar outras tarefas.

A história da tecnologia está cheia de exemplos de avanços alcançados graças à redução da complexidade. Mas será que alguns dos nossos desafios poderiam ser solucionados se tornássemos as coisas um pouco menos simples?

O design sem atrito das plataformas de mídia social como Facebook e Twitter, que facilitam a transmissão de mensagens a públicos imensos, tem sido a origem de incontáveis problemas, incluindo campanhas estrangeiras de influência, desinformação viral e violência étnica no exterior.

"A falta de atrito da internet fez dela um lugar ótimo, mas, agora, nossa devoção à minimização do atrito se tornou possivelmente o elo mais fraco da internet em termos de segurança", escreveu recentemente Justin Kosslyn, administrador da Jigsaw, subsidiária da Alphabet que se dedica à segurança digital, num ensaio para o site de tecnologia Motherboard.

Conversei com mais de uma dúzia de designers, gerentes de produto e executivos de tecnologia a respeito do design sem atrito. Muitos disseram que embora facilitar o uso dos produtos fosse geralmente algo positivo, há casos em que um pouco de atrito poderia ser útil para evitar certos males.

Bobby Goodlatte, ex-designer do Facebook, disse-me que a cultura de otimização da indústria "supõe que diminuir o atrito seja uma virtude em si". Segundo ele, "isso nos leva a perguntar, 'Será que conseguimos?' - e nunca 'Será que devemos?'".

"Construímos um mundo inteiro de aplicativos seguindo literalmente o lema do mínimo esforço, e isso está acabando com a saúde mental das pessoas", explicou a gerente de design Jenna Bilotta, que trabalhou no Google.

Com frequência, evocar a questão do atrito é uma maneira de desviar a atenção de um assunto mais amplo e menos palatável. Para o Facebook, o "compartilhamento sem atrito" era uma fachada para o verdadeiro objetivo da empresa: levar os usuários a publicar com mais frequência, aumentando assim o volume de dados disponíveis para o direcionamento de anúncios. Para o YouTube, a reprodução automática de vídeos aumentou o tempo de visualização, elevando a lucratividade da plataforma. E, para a Amazon, o sistema de compras com um clique criou uma máquina de consumo eficiente.

Quando as empresas de tecnologia tornam seus produtos mais difíceis de usar, o objetivo geralmente é afastar os hackers, spammers e outros agentes malignos (um exemplo é o sistema de Captchas, que exige que os usuários solucionem problemas de matemática ou identifiquem fotos de semáforos).

Há sinais de que algumas empresas de tecnologia começam a reconhecer os benefícios do atrito. O WhatsApp restringiu, este ano, o encaminhamento de mensagens na Índia depois de relatos segundo os quais tópicos virais de desinformação teriam levado a tumultos. E o YouTube tornou mais rigorosas as regras para a renda de anúncios em canais, dificultando a ação de spammers e extremistas que abusam da plataforma.

E se o Facebook dificultasse a difusão de desinformação viral acrescentando "quebra-molas" ao seu algoritmo e retardando a disseminação de publicações polêmicas até que a checagem fosse concluída? Essa abordagem pode parecer demasiadamente paternalista. Mas a alternativa é assustadora. Afinal, "atrito" é apenas outra palavra para "esforço", e é o que nos torna capazes do pensamento crítico e da autorreflexão.

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