Alexander Ingram para The New York Times
Alexander Ingram para The New York Times

Sinais de vida em uma cidade-fantasma da Espanha

Recuperação da economia espanhola contribui para o renascimento da cidade planejada de Valdeluz, abandonada após a crise financeira de 2008

Raphael Minder, The New York Times

26 de julho de 2019 | 06h00

Uma escola sempre esteve nos planos de Valdeluz, cidade nos arredores de Madri criada 15 anos atrás e imaginada como um paraíso residencial para trabalhadores da capital. Uma escola particular, para alunos do ensino infantil ao médio, foi inaugurada em setembro de 2007 - um ano antes de a crise financeira global ter estourado a bolha imobiliária na Espanha.

Em pouco tempo, Valdeluz se converteu em uma das famosas "ciudades fantasma" da Espanha, cheia de propriedades que ninguém desejava e construções inacabadas. Os donos de lares declararam moratória de suas hipotecas, agências imobiliárias faliram e imóveis foram retomados. A escola, construída pela metade e pensada para 1.500 estudantes, fechou em 2013, fazendo de Valdeluz o maior município da Espanha sem nenhum centro acadêmico.

Valdeluz está se recuperando após uma década perdida, acompanhando uma economia nacional que emergiu da recessão no fim de 2013. Mas a recuperação da cidade está ocorrendo em um ritmo que pouco tem a ver com os sonhos que inspiraram o lançamento do projeto, quando Valdeluz foi anunciada como a primeira cidade construída a partir do zero na Espanha. Os empreendedores imobiliários esperavam uma chegada maciça de compradores abastados; hoje, Valdeluz se contenta com a chegada de famílias de inquilinos interessadas em formar uma comunidade nova.

Dois anos atrás, a cidade reabriu como instituição pública, menor. As matrículas chegaram a 303 nas turmas do primário. Mas, em vez de uma escola do ensino médio no terreno vizinho, o que há é uma construção abandonada. Pais frustrados, que precisam transportar os filhos a escolas em outras cidades, penduraram um grande cartaz nas paredes inacabadas: "Quando teremos escola?".

"Uma cidade sem escola é um lugar sem vida", disse Santiago Nova Grafión, diretor da escola. 

Valdeluz cobre atualmente apenas um quarto do terreno previsto em 2004, quando a construção teve início. Os apartamentos são vendidos e o aluguel está subindo. Algumas pessoas começaram até a procurar lugar em outras cidades, porque Valdeluz está ficando cara demais.

Inevitavelmente, as oscilações da economia da Espanha significaram que a infelicidade de um comprador se tornou a oportunidade para o próximo. No auge da crise imobiliária, alguns compradores jovens se mudaram para a cidade, atraídos pela acessibilidade de um lar novo que poderia ser comprado dos bancos, que retomaram mais de metade dos apartamentos de Valdeluz.

Javier Guzmán Jiménez, presidente do braço local do Partido Popular, conservador, comprou seu lar em 2010. Ele lembra que foi o último a comprar uma casa da Reyal Urbis, construtora que iniciou o projeto de Valdeluz e entrou com pedido de recuperação judicial. A Reyal Urbis foi liquidada em 2017, com uma divida de mais de 3,5 bilhões de euros, ou cerca de R$ 14,7 bilhões.

Em 2010, Guzmán Jiménez pagou 270 mil euros por sua casa, em um quarteirão onde os moradores dividem uma piscina, um playground e uma quadra de tênis de mesa, esporte popular na Espanha. Seu vizinho esperou mais um ano e conseguiu um preço ainda melhor: 200 mil euros. Um vizinho que comprou no começo, antes da bolha imobiliária da Espanha estourar, pagou 470 mil euros por uma casa idêntica.

"No começo, morar aqui era bem deprimente", disse Guzmán Jiménez, agora com 50 anos, ao lembrar das ruas vazias de Valdeluz durante a crise. "Nos sentíamos um pouco como os primeiros colonos, sabendo que era preciso resistir e rezar por dias melhores".

Os empreendedores foram convencidos a construir Valdeluz por causa do desenvolvimento da rede de trens de alta velocidade da Espanha e da decisão do governo de situar aqui uma estação na rota que liga Madri a Barcelona. A estação foi aberta em 2003. O único segurança trabalhando em uma manhã recente disse que a bilheteria foi fechada há cerca de 18 meses, após a aposentadoria do único funcionário.

"Valdeluz existe por causa da promessa segundo a qual levaríamos 18 minutos para chegar a Atocha", uma das principais estações ferroviárias de Madri, disse a política Alicia Avila Milan, do partido Ciudadanos, de centro-direita. "Temos os trilhos, mas nunca recebemos os trens que deveriam parar aqui".

Hoje, Valdeluz é uma curiosa mistura de opulência e abandono. Em um dos lados da rua principal, uma rampa conduz a uma construção abandonada coberta de pichações. Ali deveria ficar o supermercado principal da cidade, mas o varejista faliu durante a crise. Um prédio de apartamentos nas imediações conta com uma reluzente piscina e parece estar em excelentes condições - mas no lugar de uma das alas planejadas há um terreno baldio.

Enquanto Valdeluz continua sua recuperação, alguns moradores temem uma nova rodada frenética de construções.

"Não viemos para cá para viver em um lugar barulhento e lotado, e sim porque planejávamos ter filhos e queríamos que eles crescessem em um lugar seguro, arborizado e tranquilo, disse Vanessa Garrido Nuero, que aluga um apartamento na cidade". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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