ESA Hubble e NASA via The New York Times
ESA Hubble e NASA via The New York Times
Dennis Overbye, The New York Times - Life/Style

28 de janeiro de 2021 | 05h00

Ninguém acredita que tenha sido um telefonema de um ET, mas astrônomos admitem que ainda não têm uma explicação para um feixe de ondas de rádio que aparentemente vieram da direção da estrela Proxima Centauri.

“É algum tipo de sinal tecnológico. A questão é: será tecnologia da Terra ou tecnologia de algum outro lugar do espaço?”, indagou Sofia Sheikh, uma estudante da Pennsylvania State University à frente da equipe que estuda o sinal e tenta decifrar a sua origem. Ela faz parte da Breakthrough Listen, uma iniciativa de US$ 100 milhões financiada por Yuri Milner, um investidor bilionário russo, para descobrir ondas de rádio alienígenas. O projeto agora esbarra em uma outra descoberta.

A Proxima Centauri é uma perspectiva convidativa para o “espaço profundo”.

Ela é a estrela mais próxima do Sol que se conheça, a apenas 4,24 anos luz da Terra, parte de um sistema de três estrelas conhecido como Alpha Centauri. Proxima tem pelo menos dois planetas, um dos quais um mundo rochoso ligeiramente maior do que a Terra que ocupa a chamada zona habitável da estrela, onde as temperaturas poderiam permitir a existência de água, a base da vida, em sua superfície.

O sinal de rádio em si, detectado na primavera de 2019 e em seguida divulgado inicialmente no jornal The Guardian, é sob muitos aspectos a substância dos sonhos dos caçadores de aliens. Era um sinal de banda estreita com a frequência de 982.02 megahertz como foi registrado no Parkes Observatory na Austrália. Seja ele a explosão de uma estrela ou uma tempestade geomagnética, tende a transmitir em uma ampla gama de frequências.

“Aparentemente, o sinal só pode ser captado em nossos dados quando estamos olhando na direção de Proxima Centauri, o que é fantástico”, disse Sheikh.

“Trata-se de um limiar que nunca foi superado por qualquer sinal que tenhamos visto anteriormente, mas há muitas ressalvas.”

Os que trabalham no campo esperançoso da busca de inteligência extraterrestre, também conhecida como SETI na sigla em inglês, dizem que já viram isso acontecer antes.

“Vimos estes tipos de sinais antes, e sempre constatamos que se tratava de RFI – Interferência de Frequências de Rádio”, disse Dan Werthimer, tecnólogo chefe do Berkeley SETI Research Center, que não participa do estudo da Proxima Centauri, em um email.

Da mesma opinião foi também o seu colega de Berkeley, Andrew Siemion, que é o principal investigador da Breakthrough Listen. “O nosso experimento existe em um mar de sinais de interferência”, afirmou. “O meu instinto no fim me diz que pode ser de origem antropogênica”, acrescentou. “Mas até o momento ainda não podemos explicá-lo plenamente”.

A Breakthrough Listen foi anunciada com grande estardalhaço por Milner e Stephen Hawking em 2015, dando origem ao que Simeon definiu como um renascimento.

“Este é o melhor momento para fazer SETI”, afirmou.

O recente entusiasmo surgiu no dia 29 de abril de 2019, quando cientistas da Breakthrough posicionaram o radiotelescópio de Parkes para a Proxima Centauri a fim de monitorar a estrela por suas labaredas violentas. Trata-se de uma pequena estrela conhecida como anã vermelha. Estas estrelas apresentam frequentemente estas explosões, que poderiam acabar com a atmosfera de um planeta  e com a possibilidade de vida sobre ele.

No total, eles registraram 26 horas de dados. Entretanto, o radiotelescópio de Parkes estava equipado com um novo receptor capaz de resolver os sinais de banda estreita do tipo SETI que os pesquisadores procuram. Por isso, em 2020, a equipe decidiu vasculhar os dados em busca de tais sinais, tarefa que coube a Shane Smith, um universitário do Hillsdale College em Michigan e estagiário da Breakthrough.

O sinal que surpreendeu a equipe apareceu cinco vezes em 29 de abril durante uma série de janelas de 30 minutos em que o telescópio ficou direcionado para a Proxima Centauri. Desde então, não apareceu mais. Foi um mero tom sem modulação, significando que parecia não carregar nenhuma mensagem, à exceção de sua própria existência.

O sinal também mostrou uma tendência a derivar frequentemente na frequência durante os intervalos de 30 minutos, uma indicação de que qualquer sinal que viesse dele não vem da superfície da Terra, mas muitas vezes está correlacionado com um objeto em rotação ou que orbita.

Mas a deriva não se coaduna com os movimentos de qualquer planeta conhecido na Proxima Centauri. E, na realidade, o sinal – se for real – pode vir de algum outro lugar além do sistema Alpha Centauri. Quem sabe?

O fato de o sinal não aparecer posteriormente suscitou comparações com uma famosa detecção conhecida como o “Sinal Uau!” visto em um impresso do radiotelescópio Big Ear, operado pela Ohio State University em 1977. Jerry Ehman, um astrônomo atualmente aposentado, escreveu “Wow!” ao lado do impresso depois de vê-lo. O sinal nunca mais apareceu, nem foi explicado de maneira satisfatória, e algumas pessoas ainda se perguntam se não terá sido um chamado perdido do espaço exterior.

A respeito do sinal da Proxima, Siemion disse: “Houve algumas exclamações, mas nenhum ‘uau!’ ”

Sheikh, que pretende doutorar-se na metade deste ano, chefia o trabalho de detetive. Ela se bacharelou na Universidade da Califórnia, com a intenção de seguir na física de partículas, mas de repente percebeu que estava caminhando para a astronomia. Ela ouviu falar pela primeira vez  do projeto Breakthrough Listen e do SETI  no Reddit, enquanto procurava um novo projeto de pesquisa no curso universitário.

“Diria que inicialmente ficamos muito céticos, e eu continuo sendo cética”, afirmou a respeito do suposto sinal. Mas ela acrescentou  que foi “o sinal mais interessante obtido no programa Breakthrough Listen”.

Ao longo dos anos, os astrônomos do SETI orgulharam-se da própria habilidade em perseguir uma fonte de sinais suspeitos e eliminá-los antes que vazasse para o público.

Desta vez, o seu trabalho foi publicado pelo jornal The Guardian. “O público quer saber; entendemos isto”, afirmou Siemion. Mas,  como ele e Sheikh enfatizam, ainda não terminaram.

“Francamente, ainda há muita análise a ser feita para nos sentirmos confiantes de que esta coisa não é uma interferência,” explicou.

Parte do problema, acrescentou, está no fato de que as observações originais não foram feitas de acordo com o protocolo padrão do SETI. Normalmente, um radiotelescópio apontaria para uma estrela ou outro alvo por cinco minutos e depois “se afastaria” ligeiramente dela por cinco minutos para ver se o sinal persistia.

Entretanto, nas observações da Proxima, o telescópio apontou por 30 minutos e depois se deslocou para longe no céu (30 graus aproximadamente) por cinco minutos, para um quasar que os astrônomos estavam usando para calibrar o brilho das labaredas da estrela. Esta ampla guinada pode ter levado o telescópio distante da eventual fonte da rádio interferência.

Se tudo mais falhar, disse Sheikh, tentarão reproduzir os resultados replicando os movimentos exatos do telescópio Parkes novamente no dia 29 de abril de 2021. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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