Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Sistema da União Europeia para combater interferências nas eleições falha

Força-tarefa do grupo foi criada especificamente para tratar da desinformação russa

Matt Apuzzo, The New York Times

14 de julho de 2019 | 06h00

BRUXELAS - No início deste ano, a União Europeia lançou uma ambiciosa iniciativa com o objetivo de combater interferências nas eleições: um sistema de alerta soaria o alarme em caso de propaganda russa. Entretanto, apesar das grandes expectativas, algumas gravações mostram que o sistema não emitiu alertas e já corre o risco desse tornar ultrapassado. Antes das eleições ao Parlamento Europeu, em maio último, circulava em Bruxelas uma brincadeira interna sobre o sistema de alerta rápido: não é rápido. Não há alertas. Aliás, não há sistema algum.

As primeiras lutas da Europa podem servir de lição para outras nações, como os Estados Unidos, onde os serviços secretos preveem que a Rússia tentará interferir nas eleições presidenciais do próximo ano. Em vários aspectos, a União Europeia tem sido mais agressiva do que Washington, exigindo mudanças das companhias de mídia social, e procurando combater a desinformação. Mas ao fazer isto levou o bloco para áreas em que a liberdade de expressão, a propaganda e as políticas nacionais se intersectam. Os esforços para fazer frente à desinformação revelaram-se extremamente complexos.

Pouco tempo atrás, analistas europeus detectaram contas de Twitter suspeitas que poderiam ter divulgado informações falsas sobre um escândalo político austríaco. Dias antes das eleições europeias, os tuítes mostraram sinais de interferência política russa. Por isso, as autoridades se prepararam para divulgar uma advertência sobre o sistema de alerta. Mas nunca o fizeram, porque ficaram debatendo se o caso seria suficientemente grave para um alarme. De fato, nunca emitiram alarme algum.

Mais de dez autoridades europeias atuais e anteriores entrevistadas, além da revisão de documentos internos, mostram um processo limitado por causa de discordâncias. A maioria dos países não contribuiu, segundo os documentos, e a rede se tornou uma desordem de informações sem nenhuma análise. Jakub Kalensky, o ex-analista europeu em matéria de desinformação, disse que a política interna e certa resistência entre os líderes europeus tornaram o sistema muito lento em sua resposta à ameaça russa.

As autoridades destacam que o seu empenho para tratar da questão começou em 2015, com a criação de uma força tarefa de analistas que vasculham a internet. O sistema de alerta foi criado para dar respaldo a esta iniciativa. Segundo Lutz Güllner, uma das autoridades que supervisionam a campanha, a ausência de um alerta foi o reflexo da cautela da sua equipe. A cada nova peça de propaganda, acrescentou, os analistas perguntam: “O que vamos fazer com isto? Como o definimos?”

O fato de a Rússia usar os sites europeus, as contas de rede social e a ascensão de partidos políticos de extrema direita, cujas mensagens convergem com as da Rússia, só complicaram estes cálculos. Agentes russos suspeitos usaram abertamente contas do Facebook irlandês para tentar aumentar as tensões na Irlanda do Norte.

E imitadores de extrema direita na Itália aderiram aos tópicos do Kremlin. No entanto, analistas europeus estão proibidos de denunciar a propaganda produzida por sites ou mídia europeus, limitação cujo intuito é preservar a liberdade de expressão. Eles estão restritos a monitorar fontes oficiais da mídia russa e a divulgar documentos denunciando afirmações referentes à Europa.

Quando editavam uma recente relatório sobre propaganda pré-eleitoral, as autoridades retiraram as referências ao apoio russo a grupos políticos europeus, segundo três funcionários a par do processo. Estas referências foram substituídas por um alerta geral sobre “fontes maldosas, dentro e fora” da União Europeia.

As autoridades afirmam que as modificações refletem a política da União Europeia, um bloco de 28 países em que os socialistas portugueses, os centristas franceses e a direita húngara têm igual direito de se manifestar. Uma coisa é chamar os artigos russos sobre a Ucrânia de desinformação. Outra coisa é estas afirmações serem repetidas pelo governo húngaro, e então as coisas acabam se complicando. 

Antigos membros do bloco oriental, como a Lituânia, afirmaram que é necessário adotar uma postura firme contra a Rússia, ao passo que França e Alemanha favorecem a diplomacia. A força tarefa contra a desinformação foi criada especificamente para tratar da desinformação russa, no entanto, omitiu toda referência à Rússia em seus objetivos escritos.

O benefício imediato do Sistema de Alerta Rápido não são na realidade os alertas, disse Güllner. “O benefício real é unir os 28 membros em uma plataforma comum”. Mas somente um terço das nações europeias contribuiu para a iniciativa antes das eleições, segundo um relatório interno do governo tcheco. Os que o fizeram frequentemente só inseriram recortes de notícias de ONGs.

“O RAS está ameaçado de desaparecer”, afirmou o relatório checo. O documento pedia padrões definidos sobre o compartilhamento de informações e um plano claro de análise deste material. “Se visamos algo mais do que gastar recursos com a manutenção de uma plataforma para compartilharmos ocasionalmente estudos de ONGs ou convites a conferências”, acrescentou, "teremos de repensar a nossa estratégia”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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