Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Sistema de segurança russo usa flores para aliciar informantes

Depois de protestos, o Kremlin está à procura de novas pessoas que possam desempenhar esse papel

Andrew Higgins, The New York Times

28 Setembro 2018 | 10h00

MOSCOU - O imenso aparato de segurança da Rússia frequentemente exibe o seu poderio por meio de ações brutais: gordos policiais em uniforme anti-motim espancando manifestantes, ou misteriosos brutamontes que atacam e por vezes matam políticos e jornalistas da oposição.

Entretanto, foi com um rosto mais bondoso, mais insidioso do sistema, que, no início de agosto, um cavalheiro polido, sorridente, bem vestido, com um ramalhete de flores na mão, bateu inesperadamente à porta do apartamento de Nataliya Gryaznevich, em Moscou.

O homem, que se apresentou apenas como “Andrei”, disse a Nataliya, 29 anos, membro de um grupo pró-democracia chamado Rússia Aberta, que gostaria de convidá-la para um café e para uma conversa amigável. “Parece que você gosta mesmo de café”, ele disse, sugerindo que sabia outras coisas a respeito dela.

“Ele se comportou como um velho amigo de quem eu não lembrava”, contou Nataliya. Embora de início ela ficasse espantada, compreendeu o que estava acontecendo quando se encontraram, e ele tentou interessá-la com perguntas sobre as suas viagens ao exterior e seus contatos estrangeiros. Então, ela se deu conta de que “Andrei” estava tentando recrutá-la como informante.

“Você poderá ir longe com a gente ao seu lado”, ele afirmou. O relato de Nataliya a respeito da tentativa de recrutamento abre uma janela sobre um dos aspectos mais secretos do sistema de segurança da Rússia.

Os informantes basicamente trabalham como espiões para o Estado russo. Hoje, não são onipresentes na Rússia como costumavam ser na Alemanha Oriental ou na União Soviética, onde milhões de pessoas acabaram entregando amigos e colegas.

Mas depois que foi banida, no início dos anos 90, a prática de atrair cidadãos russos para informarem a respeito das atividades de colegas aparentemente aumentou.

As autoridades procuram persistentemente notícias sobre a oposição interna desde que as manifestações contra o governo eclodiram no inverno de 2011 e maio de 2017.

Viktor Voronkov, diretor do Centro da Pesquisa Social Independente de São Petersburgo, falou ao jornal russo “Novaya Gazeta”, no início deste ano, que quatro membros de sua equipe comentaram com ele que haviam sido abordados pelo Serviço Federal de Segurança, o sucessor da KGB.

“É raro que pessoas relatem tais coisas”, ele disse, acrescentando que muitos dos que são contatados são convidados a assinar um termo de confidencialidade.

Irritada, mas também intrigada quanto aos motivos e à identidade do estranho que apareceu à sua porta, Nataliya concordou em encontrá-lo.

Ela regressara recentemente da cidade de Vladivostok, no leste da Rússia, depois de passar uma noite numa cela da delegacia de polícia por ajudar a organizar uma conferência, patrocinada na cidade pela organização Rússia Aberta. No café, “Andrei” deixou claro que sabia perfeitamente dos problemas dela com a polícia.

O homem ofereceu-se para ajudá-la nas suas questões legais, desde que ela retribuísse. A proposta dele era a seguinte: Se Nataliya concordasse em fornecer informações, não precisaria mais se preocupar com a polícia.

A única vez em que ele abandonou seu jeito polido foi depois que ela declinou as ofertas. E, mesmo então, não recorreu a ameaças abertas. “Obviamente não era a primeira vez que ele fazia esse tipo de coisa”, observou Nataliya.

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