Scott Dalton para The New York Times
Scott Dalton para The New York Times

Site de genealogia para identificação de parentes

Como o DNA é usado para solucionar crimes antigos

Heather Murphy, The New York Times

04 Novembro 2018 | 07h00

LAKE WORTH, FLÓRIDA - Na noite do dia das bruxas de 1996, um homem mascarado bateu na porta de uma casa em Martinez, Califórnia, algemou a moradora que atendeu o chamado e a estuprou. Duas semanas depois, ele telefonou para o consultório de dentista onde ela trabalhava. Os investigadores tentaram rastreá-lo usando os registros telefônicos, mas não chegaram a lugar nenhum. Obtiveram traços de sêmen, mas o DNA dele não correspondia a nenhum registro do banco de dados policial.

Em setembro - duas décadas depois do crime - o gabinete da promotoria distrital de Sacramento tentou algo novo para finalmente chegar ao fundo do caso desse estuprador serial, que atacou pelo menos 10 mulheres em suas casas. Os investigadores converteram o DNA do agressor para o tipo de perfil usado por sites de genealogia como 23andMe, e transmitiram os dados ao GEDmatch.com, um site gratuito e aberto para todos, muito procurado pelos genealogistas interessados em descobrir parentes biológicos ou reconstruir a história da família.

Em questão de cinco minutos analisando os resultados, os investigadores encontraram um parente próximo dentre os milhões de perfis no banco de dados. Em duas horas, tinham identificado um suspeito, detido em seguida: Roy Charles Waller, especialista em segurança da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Essa prisão marcou a 15ª vez que o GEDmatch proporcionou pistas levando a um suspeito num caso de assassinato ou assédio sexual, começando com a detenção em abril do ex-policial Joseph James DeAngelo, por estupros e assassinatos cometidos na Califórnia nos anos 1970 e 1980 pelo famoso Golden State Killer.

E ninguém ficou mais surpreso que os dois criadores do GEDmatch - o empresário aposentado Curtis Rogers, 80 anos, da Flórida, e o engenheiro de transportes John Olson, 67 anos, do Texas. O pequeno empreendimento deles, que começou como um projeto paralelo, acabou colocando de cabeça para baixo a abordagem dos investigadores para a solução de casos antigos.

Em até três anos, o DNA de quase todos os norte-americanos de ascendência norte-europeia - o principal grupo de usuários do site - poderão ser identificados por meio de seus primos no banco de dados do GEDmatch, de acordo com um estudo publicado em 11 de outubro na revista Science.

“Foi um pouco chocante acompanhar o desenvolvimento desse lado”, disse Rogers, que foi atraído para a pesquisa quando decidiu investigar se teria algum parentesco com um homem que chegou à América a bordo do Mayflower em 1620.

Após a prisão de DeAngelo, departamentos policiais de todos os Estados Unidos procuraram o site para solucionar casos de décadas atrás. Cada vez mais, a ferramenta é aplicada também a casos contemporâneos.

Inicialmente, Rogers ficou indignado com o uso de seu site pelo policiamento, mas, agora, orgulha-se de ajudar. “Em questão de um ano, creio que a ideia terá sido amplamente aceita", disse ele. Alguns genealogistas consideram a noção problemática, levando em consideração as muitas questões éticas e de privacidade que vieram à tona conforme os investigadores usam um site particular de informações familiares para solucionar crimes.

Decifrando o DNA

Rogers trabalha no escritório central do GEDmatch, uma casinha em Lake Worth, Flórida, e Olson, seu sócio, trabalha de casa no Texas. Três cientistas da computação aposentados às vezes prestam auxílio remoto.

O banco de dados do GEDmatch pode agora ser usado para identificar pelo menos 60% de todos os americanos de origem europeia por meio de seus primos, de acordo com análises de pesquisadores em genética.

Mas o GEDmatch não tem laboratório. Em vez disso, funciona como um local possibilitando que pessoas que já fizeram a análise do seu DNA possam encontrar mais parentes e mergulhar mais fundo em suas raízes. Alguns usuários têm interesse em encontrar primos perdidos, outros são aposentados investigando antigos mistérios da família, ou filhos adotivos em busca dos pais biológicos. É provável que mais de 10 mil pessoas tenham usado o site nos oito anos mais recentes, de acordo com dois genealogistas que ensinam às pessoas como fazer suas buscas.

A ferramenta oferece aos pesquisadores e investigadores criminais imensa flexibilidade. Há agora mais de 17 milhões de perfis de DNA em bancos de dados genealógicos, mas a maioria dos grandes sites restringe as informações que podem ser transmitidas, proibindo não apenas evidências criminais como também informações processadas por laboratórios externos. O GEDmatch aceita tudo isso - sangue processado num laboratório obscuro, saliva processada pelo 23andMe - gratuitamente, desde que os dados estejam no formato correto.

O site também é útil para quem está reconstituindo o histórico familiar. Em média, uma pessoa encontra alguns primos se usar os sites de genealogia já existentes. Mas, para um investigador genético, a chave está em descobrir precisamente qual é o parentesco desses primos com a pessoa em questão, e também entre si. As ferramentas criadas por Olson permitem que os usuários enxerguem precisamente os segmentos genéticos de sobreposição entre os primos. A partir dos cerca de um milhão de perfis do site, um detetive genético habilidoso é capaz de decifrar a identidade de um indivíduo a partir de uma única correspondência com um primo de terceiro grau.

“Não há nada parecido”, disse Barbara Rae-Venter, genealogista genética que usou o site para ajudar a desvendar o caso do Golden State Killer.

Não é fácil usar o GEDmatch dessa forma. A maioria dos investigadores precisa da ajuda de um genealogista genético habilidoso.

Dilema ético

No dia 25 de abril, o gabinete da promotoria distrital de Sacramento anunciou uma reviravolta no caso do Golden State Killer.

Rogers ficou sabendo disso enquanto assistia ao noticiário da TV na cama. “Eu nunca tinha nem mesmo ouvido falar desse Golden State Killer", disse ele.

Mas, quando um dos âncoras mencionou o uso de “uma nova forma de tecnologia usando DNA", ele perguntou à mulher, “Será que estou envolvido?”

Parecia possível que sim: cerca de seis meses antes, duas empresas envolvidas em investigações criminais tinham pedido a ele autorização para usar seu site.

As agências de policiamento dos EUA têm seu próprio banco de dados para investigações criminais: Codis, que contém mais de 16 milhões de perfis de DNA. Mas perfis forenses contêm apenas uma pequena fração das centenas de milhares de indicadores genéticos dos quais os sites de genealogia dependem. 

Se os investigadores não conseguem localizar uma correspondência exata nesse banco de dados, um site como o GEDmatch é melhor para rastrear suspeitos por meio de seus parentes.

O acordo de privacidade do site sempre foi vago, essencialmente firmando que seus proprietários não têm controle do uso que pode ser feito da informação genética ou genealógica individual. Mas aceitar explicitamente a presença do policiamento pareceu algo diferente.

“Provavelmente, não há nada que eu possa fazer para impedi-los", disse Rogers à Parabon, uma empresa de consultoria forense, e à DNA Doe Project, uma organização voltada para a identificação de cadáveres anônimos. “Mas não posso conceder permissão. Tenho que proteger o site.”

Mudança de posicionamento

Rogers ficou furioso ao saber que uma terceira turma de investigadores tinha envolvido o GEDmatch no caso do Golden State Killer sem antes consultá-lo. Parecia inevitável que a notícia atraísse milhares de pessoas para o site.

Enquanto mostrava sua casa, Rogers mostrou uma pilha de mensagens de e-mail recebidas naquela semana. 

A primeira era uma mensagem repleta de palavrões, acusando-o de violar a privacidade dos usuários. 

Mas as mensagens seguintes eram de efusivos parabéns. Rogers e Olson não esperavam tamanha demonstração de apoio. E não imaginaram que receberiam 5 mil novos perfis para o site pouco depois da detenção de DeAngelo - recorde para um só dia, disse Olson.

Duas semanas depois, a Parabon anunciou que estava se unindo à genealogista genética CeCe Moore para usar o GEDmatch na solução de crimes.

“Isso seria simplesmente impossível sem a coragem de John e Curtis, que permitiram o acesso do policiamento ao seu banco de dados”, disse CeCe, que ajudou a identificar mais de 12 suspeitos de assassinato e abuso sexual usando o site nos cinco meses mais recentes.

Com os numerosos elogios, os dois começaram a relaxar. Em maio, ajudaram o acordo de privacidade para mencionar que os perfis dos usuários poderiam ser usados em investigações de homicídio e abuso sexual. Já em setembro, não restavam mais dúvidas quanto ao rumo escolhido.

“Não estou mais nem um pouco preocupado com questões de violação da privacidade, porque foram muitos os casos em que a investigação do DNA levou à captura de um suspeito”, disse Rogers.

Mas muitos observadores discordam. Se o DNA de uma pessoa pode levar investigadores a rastrear centenas de parentes de um suspeito, o modelo padrão de consentimento individual se mostra inadequado, disse Rori Rohlfs, professora da Universidade San Francisco State. Para ela, é icônico que a polícia da Califórnia precise de aprovação de um juiz para vasculhar bancos de dados de criminosos em busca do irmão de um suspeito de homicídio, mas possa transmitir dados de DNA ao GEDmatch para identificar primos sem nenhuma restrição.

Alguns pesquisadores também alertam para a empolgação em torno de casos que ainda não foram julgados, dando a entender que uma correspondência de DNA seria equivalente a uma admissão de culpa.

Conforme mais agências policiais experimentam o uso das ferramentas de genealogia genética, o banco de dados do GEDmatch está aumentando à razão de aproximadamente 1.800 perfis por dia, disse Olson.

“Não gosto nem um pouco disso", disse a mulher de Rogers, a artista Janet Siegel Rogers.

“Por que não gosta?” indagou Rogers.

O que a incomodava era o hábito do marido de passar o dia respondendo a e-mails. “Ele fica 24 horas 

por dia no computador", disse ela.

Enquanto ela falava, Rogers bebia um gole de vinho.

A partir de traços de saliva deixados no copo, um genealogista genético habilidoso poderia usar o site criado por ele para revelar seu nome e o de uma dúzia de parentes próximos. Também seria possível determinar que, embora ele não tenha parentesco com nenhum dos pioneiros americanos, seus ascendentes eram na verdade vikings.

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