Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Novidade na Olimpíada, skate ainda luta por aceitação no Japão

País tem fama de país ordeiro, e prática do skate tenta romper com essa cultura

John Branch, The New York Times

11 de março de 2020 | 06h00

TÓQUIO — Daisuke Hayakawa é o técnico da equipe olímpica de skate do Japão, que deve dominar a estreia da modalidade na Olimpíada de Tóquio, marcada para este ano. Mas isso não significa que ele ousaria andar de skate em uma calçada urbana. Por mais que seja rebelde, ele não é mal educado. “No Japão, o skate é tratado como algo para garotos rebeldes", disse ele.

Assim, com o anoitecer se aproximando após um dia quente no ano passado, Hayakawa, de 45 anos, carregava o skate nas mãos. Saiu de casa, no centro de Tóquio, viajou de trem meia hora rumo ao norte e depois caminhou por cerca de 15 minutos na direção do Rio Sumida.

As ruas e calçadas estavam praticamente vazias. Mas foi só quando chegou a uma solitária trilha de concreto perto do rio que Hayakawa apoiou o skate no chão. Andando sozinho, ele treinou uma série de manobras e acrobacias, saltando enquanto o skate rodopiava sob seus pés, truques do tipo que seus atletas olímpicos vão mostrar a um público de milhões em meados do ano.

Do outro lado do rio, havia um parque bem cuidado, com acres de gramado verde cortados por calçadas lisas. Havia escadas de concreto com corrimãos de metal. Bancos com pessoas sentadas. Desníveis na pista. Seria um lugar perfeito para as brincadeiras de um skatista. Mas Hayakawa não ousaria levar o skate ali. “Os outros ficariam incomodados", disse.

O Japão tem uma cultura de cortesia e comedimento público — um país ordeiro, onde as pessoas formam fila para embarcar no metrô, raramente comem em público, jogam o lixo no lixo, e mal se vê grafite nos muros. A dignidade está em se misturar à massa, e não em se destacar dela.

Andar de skate é uma atividade barulhenta, bagunceira. É por isso que, durante décadas, foi relegada às sombras da sociedade. “Aqui, ninguém usa o skate como meio de transporte, é impossível", disse Shimon Iwazawa, de 20 anos. Mas ele faz isso mesmo assim, geralmente no escuro da noite. “Quem anda de skate na rua é associado a uma imagem negativa.”

Em meados do ano passado, Iwazawa disse que estava carregando skate pela estação central de Tóquio quando um segurança o deteve e pediu para ver o conteúdo da sua mochila. De acordo com ele e outros skatistas, a ocorrência é comum. Mas, dessa vez, havia na mochila dele uma lâmina usada para cortar a fita que os skatistas aplicam à prancha para melhorar a aderência dos pés. A lâmina foi confiscada como arma, disse Iwazawa, que foi fotografado, cedeu impressões digitais e passou horas sob custódia.

Alguns skatistas escondem o skate quando estão em público. Alguns já foram chamados de “ianques” supostamente por terem importado esse comportamento do exterior. “Essa é a luta que o skatista enfrenta no país", disse Nino Moscardi, gerente da divisão de skate da Nike para o Japão. “As pessoas gritam, ‘Vá andar no parque!’, o que só mostra o quanto esse esporte é incompreendido.”

Andar de skate já foi parte da contracultura americana, um refúgio para jovens desajustados embalados pelo som do punk e do rap. Com o passar das décadas, a atividade se popularizou, adotada pelas massas que buscam uma rebeldia calculada. O fenômeno ecoou no mundo inteiro, chegando ao Japão. Foi algo emprestado via correio, nas revistas, nos vídeos e nas demonstrações, com o então adolescente Tony Hawk ensinando como se faz.

Décadas mais tarde, as ruas lotadas de Tóquio estão cheias de pessoas usando tênis Vans. Há lojas de skate e pistas destinadas à prática do esporte. Mas o que não vemos é gente andando de skate nas ruas. As placas de proibição estão por toda parte. As ruas de Tóquio são cheias, mas frequentemente vemos bicicletas cortando em meio aos pedestres. A diferença está no barulho que o skate faz. Andar de skate é considerado um “meiwaku-koui” (comportamento incômodo).

E agora temos um exército de jovens japoneses que deve conquistar mais medalhas no skate do que qualquer outro país na estreia da modalidade durante a olimpíada deste ano. Skatistas japoneses como Yuto Horigome, Aori Nishimura e um grupo de adolescentes já se tornaram ídolos do circuito de competições mundiais. Agora, o sucesso esperado deles está conferindo ao esporte uma aceitação inédita no país.

Pistas de skate estão em construção. Pais inscrevem os filhos em aulas de skate. Desses, estão emergindo alguns dos melhores atletas do mundo bem a tempo de disputar a Olimpíada. A expectativa é elevada. Hayakawa espera que o Japão fique com seis das 12 medalhas em disputa no skate. É uma época estranha e animadora para os adultos desajustados do Japão. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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