Nathan Bajar para The New York Times
Nathan Bajar para The New York Times

Skatistas ganham espaços e aceitação

Antes eles preferiam buscar a emoção nas ruas, mas agora adotaram as pistas, que são consideradas lugares de 'intercâmbio social'

Jeff Ihaza, The New York Times

03 Maio 2018 | 10h15

Em julho de 1995, a artista Maura Sheehan instalou uma escultura que pode ser usada para praticar skate no ancoradouro da Ponte de Brooklyn. Maura ficou fascinada com os skatistas depois de observar grandes grupos deles se exibindo pelas ruas do centro.

“Seu sentido de comunidade é realmente uma coisa profunda”, ela disse falando dos skatistas que iria encontrar. “Ele obriga a conversar, a interagir”.

A pista inclinada do meio tubo não trai apenas skatistas. Maura lembra das manobras audaciosas e dos espectadores atraídos pela estrutura. “Era realmente como um organismo social vivo”, ela disse.

Depois de dezenas de anos tomando conta de ruas, estacionamentos e esculturas públicas, os skatistas foram integrados à cultura tradicional. O skate, um esporte inicialmente rebelde, tornou-se uma recreação comum.

Com um aumento do número de pistas para praticar skate no mundo inteiro e com a inclusão do esporte nos Jogos Olímpicos de 2020, a crescente popularidade deste locais está apenas no começo.

“Grande parte dos recursos destinados às atividades de recreação não visa apenas as Olimpíadas, por isso veremos um aumento de pistas de skate e de instalações para a sua prática no mundo todo”, disse Thomas Barker, diretor executivo da Associação Internacional das Empresas de Skateboard.

A Fundação Tony Hawk, uma das principais parceiras na construção de pistas de skate nos Estados Unidos, calcula que existam atualmente cerca de 3,5 mil nos Estados Unidos – mesmo assim, isto representa somente um terço do que o país necessita.

Em outras épocas, esperar que as autoridades municipais decidissem construir uma pista só para esta finalidade parecia algo impossível. Mas os adultos de hoje cresceram juntamente com a integração do skate na cultura popular, desde Bart Simpson até as franquias de videogame de enorme sucesso, como a Pro Skater de Tony Hawk. O skate não é mais temido pelas pessoas. Nas pistas e nos vídeos de músicas e filmes, é visível a influência desta cultura.

“É uma inspiração cultural para toda uma geração de pessoas que antes não existia”, disse Peter Whitley, diretor de programas da Tony Hawk Foundation. “A minha geração, que hoje tem mais de 40 ou 50 anos e cresceu com o skate como marco cultural, não encontra o mesmo tipo de animosidade ou desconfiança em relação a esta atividade”.

Durante muito tempo, as pistas de skate foram menosprezadas pelos skatistas, que preferiam o desafio das ruas, muitas vezes indo contra a lei. Mas hoje eles parecem menos resistentes à ideia de usar os espaços destinados a esta finalidade.

Iain Borden, professor de arquitetura e cultura urbana no University College de Londres, e autor de “Skateboarding, Space, and the City”, considera a difusão destas pistas um fenômeno social. “São lugares de intercâmbio social”, ele disse. “Poderíamos dizer que não são ambientes para a prática do esporte, mas paisagens sociais”.

Ele se referiu à inauguração de uma pista de skate em South London, onde viu uma mescla de pessoas, de raças e orientações sexuais diferentes, comungando entre si como na interpretação de um espaço público idealizado. “Todo mundo conversava com todo mundo”, disse Borden. “Não era uma rua comercial onde as pessoas caminham sem se olhar”.

Ao contrário dos prenúncios da urbanização e da adequação do espaço urbano à classe em ascensão, que são os cafés e as lojas de roupas caras, as pistas de skate oferecem esta sensação de igualdade. Em lugares liberais como Copenhague, onde as autoridades procuram a opinião de skatistas quando projetam locais públicos, as pistas de skate representam um ponto de vista progressista de interação no espaço comum.

Em Lagos, na Nigéria, um grupo de jovens criativos instalou um meio tubo para um evento que se realizaria em um único dia; no Marrocos, recentemente foi construído mais uma pista de concreto; em Cabul, no Afeganistão, uma pista de skate funciona também como espaço para as jovens aprenderem, graças à ONG Skateistan; Shangilia, no Quênia, tornou-se a primeira pista de skate da África Oriental. E na Coreia do Sul, disse Borden, os jovens que se preocupam com as rígidas expectativas dos adultos concentraram grande parte da sua vida na pista de skate.

“Existe a ideia de que as coisas que o skate ensina às pessoas são exatamente os mesmos valores, a fortaleza moral, a confiança e a independência que a sociedade neoliberal quer despertar nos seus cidadãos”.

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