Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times
Nicholas Casey, The New York Times

17 de outubro de 2018 | 06h00

JAMUNDÍ, COLÔMBIA - Primeiramente, ele sobreviveu quando um homem o atacou com golpes de facão. Meses mais tarde, ele implorou a um obscuro grupo armado que poupasse sua vida depois de ouvir que seu nome constava de sua lista.

Então, no final de julho, homens armados seguiram Libardo Moreno, 16, ativista na luta pelos direitos dos camponeses, quando voltava para seu rancho no oeste da Colômbia. Eles chegaram até o portão da propriedade, pedindo ajuda porque estavam com um pneu murcho. Quando Moreno os socorreu com uma bomba de ar, eles atiraram atingindo-o no pescoço e no peito.

"Ele falou: 'Eles me mataram, eles me mataram'", contou sua esposa, Margarita Fernández, que o encontrou caído no concreto em uma poça de sangue. "Os homens partiram em suas motocicletas e o deixaram lá caído".

Em 2016, o governo da Colômbia declarou oficialmente o fim de mais de 50 anos de guerra civil e assinou um acordo de paz com o maior grupo rebelde do país, as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia, as Farc. No espaço de um ano, a taxa de homicídios caiu para seu patamar mais baixo desde 1975, um feito impressionante em um país onde meio século de conflitos havia ceifado pelo menos 200 mil vidas.

Mas um aspecto estarrecedor do derramamento de sangue não dá sinal de mudar: a morte de ativistas, organizadores de sindicatos, vereadores, líderes indígenas e ambientalistas, que estão sendo atacados em todo o país. Os assassinatos estão aumentando nesta época de paz.

Moreno é um dos pelo menos 190 líderes comunitários que morreram até o momento em 2018, o que significa que o país provavelmente ultrapassará o numero de mortes de ativistas registradas em todo o ano de 2017, segundo o Instituto de Estudos para a Paz e o Desenvolvimento da Colômbia.

Poucos casos foram solucionados pelo governo da Colômbia; entretanto, foi possível perceber um padrão: quase todos os assassinatos ocorreram em regiões que os guerrilheiros das Farc abandonaram no ano passado quando se desmobilizaram.

A saída das Farc foi inicialmente uma dádiva para os ativistas e os organizadores comunitários - a chance de promover projetos de infraestrutura necessários há dezenas de anos, como estradas, aquedutos e serviços no país inteiro. Mas o governo ainda não assumiu o controle de muitas das áreas abandonadas pelos rebeldes. O lugar destes foi tomado por uma mistura de narcotraficantes, grupos paramilitares e facções rebeldes que se cindiram. 

"O Estado jamais pôs os pés nestas áreas deixadas pelas Farc", disse Carlos Guevara, do grupo de pesquisa Somos Defensores, que monitora os ataques contra ativistas.

Entre junho e setembro, em apenas dois dias sangrentos, dez ativistas foram mortos em oito províncias, inclusive um organizador político de esquerda, um líder de aldeia e dois representantes de um grupo indígena.

No dia 19 de agosto, Marisel Pai ia a uma reunião com o marido, um líder indígena chamado Holmes Niscué, quando ele foi alvo de um ataque a balas. Niscué foi atingido nove vezes. Grupos guerrilheiros o haviam responsabilizado por uma incursão do governo contra suspeitos traficantes, em uma operação que deixou sete pessoas mortas em julho.

"Nós não temos qualquer ajuda, dormimos no chão agora", disse a viúva, que está escondida desde o enterro do marido.

As mortes constituem um desafio para o novo presidente da Colômbia, Iván Duque, que assumiu no dia 17 de agosto e prometeu introduzir mudanças no acordo de paz, que considera falho. Em resposta a perguntas enviadas por escrito pelo jornal "The New York Times", o governo afirmou que as mortes são consequências de anos de violência na Colômbia, e que tenta encontrar maneiras para proteger os organizadores comunitários e os ativistas.

Aqui em Valle de Cauca, onde este ano foram mortos mais de dez líderes sociais, o assassinato de Moreno foi uma surpresa. Economista agrícola, ele não parecia representar uma ameaça.

A área foi outrora o centro do conflito com os rebeldes. Mas a guerra estava acabando, e Moreno queria organizar os camponeses do lugar. Eleito vereador, atuou na Câmara Municipal da aldeia onde criou um programa de ajuda aos camponeses, uma cooperativa de recursos para o cultivo e a venda de bananas da terra. E pressionava as autoridades locais para dar início à construção de um aqueduto.

Então, em julho, os rebeldes depuseram as armas. Por algum tempo, as pessoas da aldeia Las Pilas, acharam que o conflito tinha acabado. Mas o governo não enviou mais ninguém para proteger a aldeia de Moreno: nem policiais, nem soldados.

Familiares de Moreno afirmam que ele ficou preocupado, porque suas propostas de desenvolvimento poderiam desagradar aos novos narcotraficantes que entravam na região.

"Pavimentar uma estrada ou construir um aqueduto é muito bom", disse Alex Moreno, cunhado de Libardo Moreno. "Mas para alguns, é péssimo. Significa que há mais acesso, mais gente - e mais autoridades aparecerão".

Alex Moreno afirmou que as autoridades falharam com Liberdo Moreno em vida, abandonando sua aldeia. Mas também falharam na sua morte: a polícia, segundo ele, recusou-se a vir a Las Pilas para buscar o corpo, temendo a violência desta região.

"É impossível saber quem terá feito isso se as autoridades nem sequer visitaram a cena do crime". / Susan Abad contribuiu para a reportagem.

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