Nachman Blumental criou um dicionário do nazismo apresentando o significado original das palavras em alemão e as distorções dos assassinos.
Nachman Blumental criou um dicionário do nazismo apresentando o significado original das palavras em alemão e as distorções dos assassinos.

Sobrevivente do Holocausto coletou documentos nazistas com eufemismos para massacre

Comissão Central de Histórica Judaica transcreveu três mil depoimentos de sobreviventes entre 1944 e 1947

Gal Beckerman, The New York Times

05 de julho de 2019 | 06h00

Eles não esperaram o fim da guerra. Em agosto de 1944, enquanto as forças soviéticas expulsavam os nazistas do leste da Polônia, um grupo de intelectuais judeus começou a busca pelos rastros do horror que tinha acometido seus entes queridos. Eles queriam provas. Entre eles estava o filólogo Nachman Blumental, que conhecia mais de dez idiomas, do hebraico ao francês.

Tinha fugido para a União Soviética e, ao retornar, descobriu que a mulher, Maria, e o filho pequeno, Ariel, tinham sido mortos. Na tentativa de dar algum sentido a tudo aquilo, ele criou a Comissão Central de Histórica Judaica. O grupo transcreveu três mil depoimentos de sobreviventes entre 1944 e 1947, buscando fragmentos da papelada nazista e preservando memórias do cotidiano no gueto. 

Em cada documento nazista que encontrava, ele circulava e sublinhava termos inócuos como “abgang” (saída) ou “evakuierung” (retirada). Ele sabia o que essas palavras significavam de fato quando apareciam em memorandos e formulários burocráticos: eram eufemismos para o massacre. Dedicou-se então à missão de revelar como os nazistas tinham usado o idioma alemão para ocultar a mecânica do assassinato em massa.

O Instituto de Pesquisa Judaica YIVO, de Nova York, adquiriu recentemente o acervo de documentos pessoais de Blumental, composto de mais de 200 mil documentos que ficaram juntando pó desde a morte dele em 1983. Uma pasta está repleta de poemas e canções compostas pelos judeus nos guetos e campos de concentração, transcritos por ele a partir das palavras dos sobreviventes. Outros itens são mais viscerais, como um pedaço do couro do sapato do filho dele.

Mas os artefatos parecem pouca coisa diante dos milhares de cartões com anotações cobertos com uma minúscula letra cursiva. Cada um contém algumas frases usadas na escrita nazista e a etimologia de alguma palavra alemã específica, mostrando seu significado original e a distorção dos seguidores de Hitler.

Ele criou um dicionário do nazismo. Blumental esperava que esse léxico fosse útil aos promotores dos julgamentos que se seguiram à guerra no fim dos anos 1940, dos quais ele participaria de três, como perito. Também estava pensando no futuro, quando provas documentais do genocídio poderiam se tornar indecifráveis sem algum tipo de legenda.

Em 1947 ele publicou Slowa niewinne (“Palavras Inocentes”), abrangendo as letras de A até I, o primeiro de dois volumes que ele imaginou para seu dicionário. Blumental nunca concluiu o segundo volume, mas seus documentos mostram a metástase do projeto conforme ele obteve acesso a material novo proveniente de arquivos nazistas recém descobertos.

Entre os documentos, há um pesado exemplo de como a pesquisa dele coincidia com sua dor pessoal. Em 1948, ele viajou até o vilarejo onde a esposa e o filho tinham sido mortos em junho de 1943. Blumental chegou com seu caderno, com o objetivo de entrevistar moradores que tivessem testemunhado o assassinato. A mulher e o filho estavam se escondendo quando foram presos pela polícia polonesa. Então, um oficial nazista levou-os ao cemitério judaico local e atirou neles.

Em suas anotações, Blumental transcreveu vários relatos do assassinato, um acontecimento que, de acordo com depoimentos, foi “testemunhado por todos". Transcrevendo as palavras de um pedreiro, que morava ao lado do cemitério, ele escreveu: “Ela pediu para ser fuzilada primeiro.

Não queria ver a morte do filho. Não queria tirar a roupa. A criança começou a gritar: ‘Mamãe, mamãe, onde está minha mãe’. Ele atirou. Atirou na criança, uma vez, e feriu o menino. Atirou outra vez e o matou. A criança gritava. Minha mulher foi enterrada sem as roupas. Meu filho, vestido". Como resultado da sua investigação, os policiais que detiveram Maria e Ariel foram indiciados em 1950. 

A comissão durou poucos anos antes de ser dissolvida pelo governo polonês, que criou o Instituto Histórico Judaico em 1947. Blumental foi nomeado seu primeiro diretor, mas o trabalho foi limitado pelas demandas do Partido Comunista, e a maioria dos membros originais abandonou a organização, incluindo Blumental, que imigrou para Israel em 1950. Dedicou o resto da vida à pesquisa do Holocausto.

Seus documentos pessoais, que o YIVO planeja digitalizar e tornar disponíveis, foram comprados de Miron Blumental, filho de Blumental nascido em 1954, exatamente 11 anos após o assassinato de Ariel.  O que ele enxerga nos arquivos do pai e em seus milhares de cartões anotados é um homem lutando contra a própria impotência, agarrando-se a cada fragmento de evidência, até mesmo o mais efêmero - as palavras.

“Tudo que ele conhecia desapareceu", disse Miron Blumental. “Ele se apegava a todos esses detalhes como se fossem prova que tudo aquilo tinha existido. Era o seu memorial, a única coisa que podia fazer. Em termos reais, não podia realizar nada. Não havia como restaurar nada daquilo.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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