Fred Ramos para The New York Times
Fred Ramos para The New York Times

Sobreviventes de massacre em El Salvador buscam justiça

‘Por que mataram todas aquelas crianças?’

Elisabeth Malkin, The New York Times

30 Maio 2018 | 15h15

EL MOZOTE, El Salvador - Depois que os soldados partiram, os sobreviventes rastejaram dos barrancos e cavernas onde tinham se escondido para se proteger da matança e encontraram sua terra arrasada. 

Alguns tentaram rapidamente enterrar os corpos de suas mães e filhos. Então, eles fugiram.

Durante décadas, essas testemunhas viveram seu luto em silêncio no vilarejo salvadorenho de El Mozote e arredores. Mas, após decisão recente dos tribunais, elas começaram a tornar públicos seus relatos, descrevendo os quatro dias de dezembro de 1981 quando unidades militares salvadorenhas, treinadas e equipadas pelos Estados Unidos, mataram 978 pessoas no maior massacre da história recente da América Latina.

“Por um milagre, Deus nos poupou para que pudéssemos contar o que aconteceu", disse Dorila Márquez, 61 anos, sentada no terraço da casa reconstruída que ela abandonou às pressas quando tinha 25 anos.

Os sobreviventes tinham pouca esperança de justiça. Mas um juiz provincial reabriu um antigo julgamento envolvendo o massacre de El Mozote, ordenando que os comandantes militares envolvidos, hoje na reserva, fossem acusados por crimes de guerra.

“Por que fizeram aquilo? Por que mataram todas aquelas crianças?” perguntou Dorila.

Em 1981, durante a batalha de Washington contra o comunismo, o presidente Ronald Reagan enviou instrutores militares a El Salvador, cujo exército combatia os guerrilheiros esquerdistas da Frente de Libertação Nacional Farabundo Martí, ou FLNFM.

A partir de 11 de dezembro, soldados do governo executaram metodicamente todos os habitantes de El Mozote. Eles então prosseguiram para La Joya e outras comunidades vizinhas, onde fuzilaram moradores e incendiaram suas casas.

Depois que o governo e a FLNFM assinaram acordos de paz em 1992, a assembleia nacional de El Salvador concedeu anistia pelos crimes cometidos durante a guerra. A impunidade diante das atrocidades (estima-se que até 85 mil civis tenham desaparecido ou sido mortos) tornou-se garantida pela lei.

Isso mudou dois anos atrás, quando a Suprema Corte salvadorenha reverteu a anistia. Advogados dos sobreviventes pediram a um juiz da província que reabrisse um julgamento iniciado em 1990, e ele concordou.

No ataque a La Joya, os soldados mataram 24 parentes de Rosario López. Quando o tiroteio começou, Rosario se escondeu numa colina com os três filhos e o marido, José de los Angeles Mejía, agora com 72 anos.

Mejía desceu a colina cinco dias mais tarde. Encontrou o corpo de uma das irmãs da mulher, com o vestido levantado e roupa de baixo jogada numa pedra. Os corpos de crianças estavam amontoados numa pilha, com os rostos irreconhecíveis. “Eu disse a mim mesmo: que barbaridade!”, lembra-se ele.

Com o lento avanço do julgamento, ainda não foram apresentadas provas explicando por que os soldados massacraram civis de maneira tão implacável, e quem teria ordenado a operação.

Dezoito homens de idade avançada enfrentam acusações preliminares de assassinato, estupro e terrorismo: seriam os arquitetos e executores do ataque que, durante décadas, o exército salvadorenho nem sequer reconheceu ter ocorrido.

Lizandro Quintanilla, advogado de defesa que representa um dos acusados, o general da reserva Walter Salazar, disse ainda haver dúvidas a respeito do que ocorreu em El Mozote, e também que seria impossível associar os restos exumados aos comandantes sob julgamento.

“Não é uma história da qual se possa inferir responsabilidade", disse Quintanilla, “seja do meu cliente ou dos acusados".

Dorila, no entanto, está determinada a conseguir justiça.

Ela falou dos homens que destruíram seu vilarejo. “Eles terão de se haver com Deus, mas também precisam respeitar a lei", disse Dorila. “De que vale a lei se não é aplicada?”

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El Salvador [América Central]

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