Sally Deng
Sally Deng
Mustafa Akyol, The New York Times

15 de junho de 2019 | 06h00

Quem concorda que os algarismos árabes façam parte do currículo escolar dos americanos? A empresa de pesquisas CivicScience, da Pensilvânia, fez recentemente essa pergunta a cerca de 3.200 americanos em uma questão que parecia ligada à matemática, mas o resultado foi uma medida da atitude dos estudantes em relação ao mundo árabe.

Aproximadamente 56% dos participantes disseram, “Não". Quinze por cento não tinham opinião formada. Esse resultado, que logo inspirou mais de 24 mil publicações no Twitter, poderiam ser muito diferentes se os pesquisadores tivessem explicado o que são os “algarismos árabes”. Há 10 deles: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.

O fato levou John Dick, diretor executivo da empresa de pesquisas, a descrever o resultado como “a mais triste e cômica demonstração do preconceito americano já vista em nossos dados". Supõe-se que os americanos contrários ao ensino dos algarismos árabes (mais republicanos do que democratas) simplesmente desconhece o que eles são, demonstrando ainda uma aversão a qualquer termo envolvendo a descrição “árabe".

O que é realmente triste e cômico - e também motivo para uma pausa para uma pergunta simples: por que o sistema numérico mais eficiente do mundo, também o padrão na civilização ocidental, é chamado de “algarismos árabes”? A resposta remonta à Índia do século 7, quando foi desenvolvido o sistema numérico, incluindo a revolucionária formulação do zero.

Cerca de dois séculos mais tarde, este foi trazido ao mundo muçulmano, cuja magnífica capital, Bagdá, era na época a melhor cidade do mundo para os interessados em uma carreira intelectual. Ali, um muçulmano persa chamado Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi desenvolveu uma disciplina matemática chamada al-jabir, que significa literalmente “reunião de peças quebradas".

No início do século 13, um matemático italiano chamado Fibonacci, que estudou cálculo com um mestre árabe no Norte da África muçulmano, considerou o sistema de numerais e decimais muito mais prático do que o sistema romano, e logo os popularizou na Europa, onde os números passaram a ser conhecidos como “algarismos árabes".

Enquanto isso, a disciplina da al-jabir se tornou a “álgebra", e o nome de al-Khwarizmi evoluiu para “algoritmo". Hoje, muitas palavras que usamos habitualmente têm sua origem no árabe; uma lista breve incluiria almirante, alquimia, alcova, almanaque, algarismo, máscara, nadir, açúcar, xarope, tarifa e zênite. Alguns estudiosos acreditam que até a palavra “cheque", do tipo que se obtém em um banco, vem da palavra árabe sakk, que significa “documento escrito" (o plural, sukuk, ainda é usado no sistema bancário islâmico para se referir às obrigações).

Há um motivo pelo qual esses termos ocidentais têm raízes árabes: entre os séculos 8 e 12, o mundo muçulmano, cuja língua franca era o árabe, foi muito mais criativo do que a Europa cristã, que vivia então a Baixa Idade Média. Os muçulmanos foram os pioneiros na matemática, geometria, física, astronomia, biologia, medicina, arquitetura, comércio e, principalmente, filosofia. É verdade que os muçulmanos herdaram essas ciências de outras culturas, como os gregos antigos, os cristãos orientais, os judeus e os hindus. Ainda assim, eles desenvolveram essas disciplinas com suas próprias inovações e as transmitiram à Europa.

Por que mergulhar tão fundo nesse passado tão esquecido? Porque ele traz lições para muçulmanos e não muçulmanos. Entre os últimos estão os conservadores ocidentais, tão apaixonados na sua defesa do legado da civilização ocidental, que eles costumam definir exclusivamente como “judaico-cristã”. É claro que a civilização ocidental tem um grande feito que deve ser preservado: o Iluminismo, que nos deu a liberdade de pensamento, liberdade de religião, abolição da escravidão, igualdade perante a lei e democracia.

Esses valores não devem ser sacrificados em nome do tribalismo pós-moderno chamado de “política identitária". Mas os conservadores ocidentais recuam eles próprios ao tribalismo quando negam a sabedoria e a contribuição de fontes que não sejam judaico-cristãs. A terceira grande religião abraâmica, o Islã, também participou da criação do mundo moderno, e honrar esse legado ajudaria a estabelecer um diálogo mais construtivo com os muçulmanos.

É claro que nós, muçulmanos, temos uma grande pergunta a responder: por que nossa civilização já foi tão criativa, e por que perdemos essa era dourada? Alguns muçulmanos encontram uma resposta simples na fé e na falta dela, pensando que o declínio veio quando os muçulmanos se tornaram "pecadores". Outros supõem que a majestade do passado estaria ligada a grandes líderes, esperando ver uma reencarnação deles. Alguns encontram consolo em teorias da conspiração que responsabilizam inimigos externos e “traidores” internos.

Há uma explicação mais realista: a civilização islâmica antiga era criativa porque mantinha a mente aberta. Ao menos alguns muçulmanos sentiam o desejo de aprender com outras civilizações. Havia espaço para a liberdade de expressão, que era extraordinária para a época.

Isso permitiu que a obra de grandes filósofos gregos como Aristóteles fosse traduzida e debatida, teólogos de diferentes ramos manifestassem seus pensamentos, e estudiosos encontrassem patrocinadores independentes. Mas, a partir do século 12, uma forma menos racional e mais uniforme do Islã foi imposta por califas e sultões despóticos. Com isso, o pensamento muçulmano se tornou insular, repetitivo e pouco curioso.

Já no século 17, na Índia muçulmana, Ahmad al-Sirhindi, estudioso de destaque conhecido também como Imam Rabbani, sinalizava uma virada dogmática ao condenar todos os “filósofos” e suas disciplinas “idiotas”. “Entre as suas ciências codificadas e sistêmicas está uma geometria completamente inútil", escreveu ele. “A soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos - onde está o benefício disso?”

O motivo que levou a esse trágico fechamento da mentalidade muçulmana, e como ele pode ser revertido, são as maiores questões enfrentadas pelos muçulmanos hoje. Não devemos perder mais tempo com negações e jogos de culpa. Mas, ao mesmo tempo, os outros não devem cometer o erro de julgar a civilização islâmica ao apontar para seus piores produtos, muitos dos quais vemos por toda parte.

Trata-se de uma civilização grandiosa que fez significativas contribuições para a humanidade, especialmente o Ocidente. É por isso que temos “algarismos árabes” no celular. E essa é apenas a ponta de um imenso iceberg de ideias e valores partilhados entre o Islã e o Ocidente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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