Molly Matalon para The New York Times
Molly Matalon para The New York Times

Sofrimento de Hannah Gadsby deixou de ser engraçado

Criar o stand-up furioso 'Nanette', sucesso na Netflix, foi um ato de autopreservação para a estrela australiana

Melena Ryzik, The New York Times

03 Agosto 2018 | 15h30

LOS ANGELES - Talvez tenham ouvido falar: Hannah Gadsby está furiosa, e ela é fantástica.

Hannah, uma comediante australiana, é a criadora de “Nanette”, um show de stand up que se tornou um especial da Netflix, no qual critica furiosamente o tratamento dispensado às mulheres, a pessoas estranhas e às que parecem “de outro gênero”. 

Ela não hesita em fustigar os abusos que estas pessoas suportam, e as normas culturais que permitem que isto aconteça. Hannah revela seus próprios traumas sexuais e de gênero, mas não convida as pessoas a rirem deles.

“Nanette” é a comédia mais comentada dos últimos anos. E no seu sucesso, Hannah, 40, orienta talvez a forma de arte do stand-up para uma nova direção. “Construí uma carreira com o humor autodepreciativo, e não quero mais fazer isto”, afirma no especial. “Porque você entende o que autodepreciativo significa quando é produzido por uma pessoa que já existe marginalmente? Não é humildade. É humilhação”.

A reação do público a “Nanette” vai “além da minha compreensão”, disse Hannah um destes dias em Los Angeles. Ela estava cansada, não apenas por causa da viagem da Austrália, mas também pelas excursões com o seu show, que em 2017 ganhou prêmios importantes no Melbourne International Comedy Festival e no Edinburgh Fringe. “Fiz este show mais de 250 vezes e isto tem um preço”, afirmou. “Vou precisar passar o próximo ano na maior parte dormindo”.

A comediante Tig Notaro, que fez a crônica do seu câncer em outro especial, disse que ficou “totalmente surpresa” com o show de uma hora de duração de Hannah Gadsby. “Deveria ser obrigatório assistir a um espetáculo como ‘Nanette’, se você é um ser humano”, escreveu em um e-mail. Hannah, acrescentou, está acabando com a comédia. “Ela limpou a mesa para criar uma nova forma de comédia”, afirmou por sua vez Tig Notaro.

“Nanette” foi motivado pelo debate que ocorreu na Austrália sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tudo aconteceu depois que Hannah recebeu dos médicos o diagnóstico do transtorno do espectro autista, e da ADHD, síndrome do déficit de atenção com hiperatividade. 

Isto lhe deu uma grande clareza de visão a respeito da sua vida - de que as coisas poderiam ter sido diferentes se o mundo demonstrasse maior aceitação. Ela disse: “Fiquei absolutamente confusa. De repente, tantas coisas estavam cristalizadas na minha cabeça, e eu precisava tirar aquilo tudo”.

Hannah, que em criança viveu em cidadezinhas na Tasmânia, foi campeã de golfe do seu estado. Começou a jogar no country clube onde sua mãe trabalhava, e onde as mulheres não tinham permissão para se tornarem membros plenos. Quando o seu irmão ganhava um torneio, recebia como prêmio equipamentos de golfe. “Eu ganhava travessas e vasos”, contou. “Ganhava em geral coisas para o meu enxoval”.

Estas experiências a ajudaram a formar uma visão de mundo própria, principalmente vendo como sua mãe, uma mulher combativa, era denegrida no trabalho. Entrar em confronto era exaustivo. Em vez disso: “Aprendi a desaparecer”, disse Hannah. “Eu era invisível”.

Estudou história da arte na Australian National University em Canberra. Trabalhou em uma livraria e em um cinema ao ar livre, depois se tornou uma trabalhadora rural itinerante. Perto dos 30 anos, por mero capricho, resolveu participar de uma competição patrocinada pelo Melbourne Comedy Festival. Ela sabia que era engraçada. “Eu participava da vida sem participar”, contou. Chegou às finais no estado.

Os familiares de Hannah tinham conhecimento do que ela tinha passado, mas quando foram assistir a “Nanette”, ainda no começo, ela modificou as falas porque era “injusto submetê-los a este golpe baixo em uma sala lotada de gente estranha”.

O espetáculo é montado sobre o ataque que ela sofreu em uma parada de ônibus, que narra em detalhes - primeiro para provocar o riso, e depois com raiva. Também menciona outras violações graves, predatórias, ocorridas na sua infância e juventude, agora sem muitos detalhes; ela não se sente pronta, afirmou, “porque conhecia aquelas pessoas”.

Sua mãe estava na Ópera de Sydney quando o espetáculo foi gravado para a Netflix, por isso não pôde modificar o material. Ela quase teve um colapso.

“Acho que o truque mágico deste espetáculo é o fato de que é engraçado, e então o engraçado vira do avesso”, disse Mike Birbiglia, comediante e diretor de cinema.

Comediantes como Kumail Nanjiani e Kathy Griffin tuitaram mensagens sobre o trabalho de Hannah. Birbiglia disse que se inseria em um movimento da comédia para alcançar um degrau mais alto. “E, no entanto, só nos faz pensar: iremos um passo mais embaixo”, afirmou.

Hannah não está ansiosa por voltar aos palcos, mas sua baixa autoestima recebeu um forte impulso com o brilho de “Nanette”. Isto não significa que ela ache que alguém que sofreu deva exibir os próprios traumas.

“Parte do que acaba com a vergonha é o fato de ser finalmente ouvida, de ser vista”, explicou. “E eu fiz isto em grande escala. Não quero que as pessoas olhem para mim e digam: ‘Veja, gente estranha, é assim que se faz. Ao contrário, é: ‘Não, é assim que não se deveria fazer’”.

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