Clark Hodgin/The New York Times
Clark Hodgin/The New York Times
Kelsey Osgood, The New York Times - Life/Style

06 de janeiro de 2021 | 05h00

Desde o início da pandemia, Paul Fredette e Karen Karper Fredette fizeram algumas mudanças na vida: Karen Fredette parou de ir às aulas de ginástica, e eles reduziram as interações com os vizinhos a um mero aceno de mão.

Mas, em muitos aspectos, o isolamento é algo natural para eles. De uma casa que chamam de Still Wood, situada na encosta de uma montanha cercada por bosques selvagens, os Fredette vivem a vida "orientados pela solitude", que é sua forma preferida de dizer que são eremitas: devotados à simplicidade, ao silêncio e à oração. A cidade mais próxima, Hot Springs, na Carolina do Norte, fica a 29 quilômetros de distância e tem uma população de pouco menos de 600 habitantes.

Paul Fredette, de 71 anos, é um ex-padre católico, enquanto Karen Fredette, de 78 anos, passou 30 anos em um monastério depois de terminar o ensino médio e antes de partir para viver como eremita em uma cabana na Virgínia Ocidental. Desde 1996, ambos supervisionam uma rede social para eremitas e curiosos, chamada Raven's Bread Ministries. Dão conselhos espirituais para quem busca a solitude, escrevem livros sobre o assunto, administram um site e produzem um boletim trimestral, o Raven's Bread, que inclui contribuições da grande comunidade eremita.

A ideia original do Raven's Bread Ministries era validar a atração que os eremitas têm pela solitude. Mas, no último verão [do hemisfério norte], os Fredette se sentiram compelidos a ministrar para um grupo demográfico diferente: os que lutam contra o isolamento da pandemia do coronavírus. Depois de perceber que a média diária de acessos ao site, que antes da pandemia era de 800, chegou a dois mil em agosto, os Fredette começaram a criar vídeos no YouTube. Ouvi-los parece um pouco como ter uma conversa muito tranquila com os avós.

Embora exista alguma versão da solidão em quase todas as tradições religiosas, o eremitismo é mais comumente associado aos primeiros Padres e Madres Cristãos do Deserto, dos séculos 3 e 4. Os acadêmicos descobriram que o interesse pela vida eremítica está ligado à força das instituições eclesiásticas centralizadas da época, bem como ao aumento da industrialização e da urbanização.

Hoje, há eremitas que foram oficialmente declarados por suas respectivas instituições religiosas – no catolicismo são chamados de "eremitas canônicos" – e outros que não respondem a nenhuma autoridade espiritual. Existem eremitas que vivem em cavernas, como o eremita do Himalaia, que passa os verões em uma fenda de montanha 3.048 metros acima de Gangotri, na Índia. Mas muitos outros se escondem no meio de nós, nos subúrbios e nas cidades.

A vida real de um eremita

Os eremitas nunca estiveram tão isolados como muitos supõem. Muitas vezes, atraíram devotos e sempre tiveram de se sustentar por conta própria, o que significa permitir algum contato com o mundo exterior.

Os eremitas contemporâneos podem aceitar um emprego que requer pouca interação humana, como limpar casas. Tentam preencher o tempo extra de que dispõem com a prática espiritual em vez da interação social, presencialmente ou on-line, e fazem escolhas que dão sustentação a tal finalidade. Meditam no transporte, em vez de ler as notícias, ou atendem ao telefone apenas em horários predeterminados.

Podem viver em qualquer lugar, mas tendem a residir em habitações modestas e evitam se deslocar desnecessariamente. No entanto, um eremita também não deve ser confundido com um recluso. Segundo Karen Fredette, a diferença é que os eremitas não saem da sociedade por causa da misantropia. "Eu definiria um eremita ou uma pessoa que opta pela solitude como alguém que a escolhe por razões espirituais, e enfatizamos o espiritual, mas pode ser qualquer forma de experiência espiritual."

Embora o eremita tenha uma origem religiosa, um número surpreendente de assinantes do Raven's Bread se descreve como "tendo sido" religioso e diz não ser afiliado a nenhuma igreja ou grupo religioso específico.

Qualquer um pode abraçar a solitude?

Os próprios eremitas se dividem quanto à questão de saber se qualquer um pode abraçar a solitude. "Ela não é como uma proteína. Algumas pessoas descobrem o ganho com a solitude na música ou nos exercícios – apenas formas diferentes de acessar o transcendental", disse Heidi Haverkamp, assinante do Raven's Bread e autora do livro Holy Solitude: Lenten Reflections With Saints, Hermits, Prophets, and Rebels (Solitude sagrada: reflexões quaresmais com santos, eremitas, profetas e rebeldes, em tradução literal), que se descreve como solitária em meio período.

A solitude para alguns é mais uma ferramenta do que simplesmente uma solidão confortável. "A solitude é um meio de nos aproximarmos, de nos imergirmos em algo ou em alguém que é maior do que nós, de nos imergirmos no Espírito, por assim dizer", definiu John Backman, escritor e "quase eremita" que se afilia tanto ao zen-budismo quanto ao cristianismo.

Mas os Fredette e outros eremitas acreditam que qualquer um pode se beneficiar da incorporação de alguns fundamentos eremitas – como o de estar enraizado no próprio lugar, praticar a austeridade e se comprometer com uma programação diária que priorize a oração ou a meditação – em sua vida para ajudá-lo a entender seu isolamento, independentemente do tipo de personalidade, de religiosidade ou de circunstâncias de vida.

Para pessoas com pouco ou nenhum conhecimento da espiritualidade eremita, a pandemia provou ser a porta de entrada ideal. Karthik Kotturu, de 27 anos, de Gurugram, na Índia, que se descreveu como espiritual, mas não religioso, mencionou que, depois de um turbulento ajuste inicial ao bloqueio imposto pelo coronavírus, encontrou consolo nos ensinamentos do zen-budismo.

"A pandemia me fez perceber como eu tinha medo de ficar sozinho. Assim que comecei a ver o que já tinha, minha vontade de buscar algo fora de mim começou a diminuir", escreveu Kotturu por e-mail. Descobrir a ideia zen de se desapegar do mundo – nas palavras do Tao, eliminando tanto a "saudade quanto a aversão" – o ajudou a mudar sua perspectiva.

Outros descobriram que a situação lhes permitiu sentir um amor pela solitude que sempre esteve presente, mas fora negligenciado por conta das obrigações da vida. Hannah Sheldon-Dean, de 32 anos, escritora e editora que mora no Brooklyn, em Nova York, disse que suas tarefas matinais se tornaram uma rotina lenta e calma, e que sempre termina os dias ouvindo Harry Potter e o Texto Sagrado, podcast no qual os anfitriões fazem uma leitura profunda da série de Rowling, às vezes utilizando os princípios da Lectio Divina, estilo cristão de leitura que envolve abordar um texto em quatro estágios sem pressa: ler, meditar, orar, contemplar.

"Sempre tive tendências ritualísticas e contemplativas, como as que os eremitas descrevem, mas a pandemia acabou lhes dando mais espaço para florescer", observou Sheldon-Dean.

Karen Fredette explicou que entender que seu "eu mais profundo" está sempre a seu lado é a chave para transformar um isolamento cheio de ansiedade em uma solitude estimulante. "Quando começamos a conversar com nós mesmos, passamos a nos conhecer e percebemos que não estamos sozinhos."

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