Brian Otieno / The New York Times
Brian Otieno / The New York Times

Voluntários somalis assumem onde governo não chega

Governo somali luta para oferecer serviços públicos básicos como saúde e educação; jovens somalis agem por conta própria para tirar país da crise

Abdi Latif Dahir, The New York Times

23 de fevereiro de 2020 | 06h00

MOGADISHU, SOMÁLIA – Ela acabava de enfrentar inundações, quando a bomba explodiu. Dez horas por dia durante um mês, Amina Abdulkadir Isack, de 27 anos, cuidou como voluntária de mães anêmicas, crianças com malária e mulheres grávidas na região central da Somália, onde inundações recordes deixaram milhares de pessoas precisando da ajuda que o governo mal teria condições de oferecer.

Mas alguns dias depois de ela voltar para casa, em uma manhã muito quente em Mogdishu, no fim de dezembro, terroristas detonaram um caminhão carregado de explosivos, matando 82 pessoas e ferindo quase 150.

Isack entrou imediatamente em ação, ajudando uma equipe de voluntários de resposta a crises dirigido por jovens que procuraram as vítimas, chamaram as famílias, recolheram donativos e realizaram os serviços que o governo estava demasiado assoberbado para  administrar por conta própria. “Os jovens são os que construirão a nação”, afirmou a médica. “Nós dependemos somente de nós mesmos”.

O governo somali luta para oferecer serviços públicos básicos como saúde e educação, e não consegue tomar a iniciativa nas emergências. Entretanto, diante das crescentes dificuldades do país – da mudança climática à violência do terrorismo – jovens somalis estão cada vez mais agindo por conta própria para o país sair da crise. Eles assumiram os serviços básicos do Estado, como construir estradas e dar assistência médica e educação.

Este espírito independente cresceu depois que militantes do Shabab, grupo terrorista filiado à Al Qaeda, cederam o controle de Mogadishu em 2011, deixaram a capital nas mãos de um governo que tem o apoio internacional, mas é fraco.

Desde então, os jovens somalis passaram a desempenhar um papel de liderança na estabilização e no processo de reconstrução. Trabalham para reabilitar crianças, soldados, reanimar o turismo interno, responder às crises humanitárias e até mesmo vender camelos somalis usando bitcoin.

Quando um caminhão explodiu em Mogadishu em 2017 matando 587 pessoas e ferindo outras 316, centenas de voluntários ajudaram a identificar as vítimas, lançaram campanhas pelas redes sociais e conseguiram dezenas de milhares de dólares para ajudar  o único serviço de ambulâncias da capital. Segundo os organizadores da resposta, ao todo conseguiram US$ 3,5 milhões em doações; mais tarde, o governo contribuiu com US$ 1 milhão.

Apesar do seu esforço, os civis só podem ajudar quando acontecem os ataques. E em vez de aprender das tragédias anteriores, as autoridades continuam desorganizadas e despreparadas para a próxima, disse Saida Hassan, uma somali-americana que já trabalhou no Ministério da Educação. Depois do ataque de 28 de dezembro, ela participou de uma reunião governamental em que as autoridades não tinham um plano de ação.

“Eu só pensava: ‘Há gente morrendo a cada segundo enquanto nós ficamos conversando’”, acrescentou. Depois da reunião, Saida ajudou a formar a iniciativa de resgate Gurmad – o grupo de voluntários com o qual a médica Isack trabalhou. “É frustrante”, afirmou. “Muitas vezes parece que estamos nos arrastando quando não só podemos caminhar, como também correr, basta querer”.

O governo da Somália deu alguns passos para desenvolver a economia, reformou as instituições estatais e melhorou a segurança.  Entretanto, o progresso foi minado pela corrupção desenfreada, pelos parcos recursos do governo e sua limitada presença em todo o país, bem como em razão de um impasse político entre o governo central e os estados membros da federação. Aos jovens que tentam construir o futuro da nação, as perspectivas de mudança às vezes parecem sombrias.

Sami Gabas é o fundador da Saamionline, uma varejista online. Embora as autoridades de várias regiões estejam ávidas por cobrar impostos, disse Gabas, elas mal compreendem as dificuldades para montar e administrar uma start-up, muito menos para oferecer ajuda ou incentivos. “Nós não queremos fazer apenas negócios”, disse. “Queremos criar e inovar e ajudar o país a ir para frente”.

No entanto, ativistas e homens de negócios continuam morrendo em circunstâncias misteriosas. Mohamed Sheik Ali era um empreendedor prolífico que abriu várias empresas. Seis anos depois de abrir o seu primeiro negócio em Mogadishu, foi morto por ladrões desconhecidos em agosto de 2018.

Em um país com uma população jovem, a sua filosofia sempre foi confiar nas próprias forças, disse sua irmã Sagal Sheikh Ali. Depois da sua morte, ela achou que era seu “dever” manter os seus negócios funcionando.

Para voluntários como Isack, não há outra opção senão correr para o local do próximo desastre. “Eu mesma poderei enfrentar o perigo amanhã. Por isso, estão dando apoio ao meu povo enquanto posso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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