Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
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‘Somos como atletas aqui': O maestro com rotina de esportista

Lorenzo Viotti tem 31 anos e se tornou recentemente o maestro principal da Ópera Nacional Holandesa e da Orquestra Filarmônica da Holanda

Nina Siegal, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

AMSTERDÃ - Lorenzo Viotti estava diante da orquestra, sem batuta, regendo com as duas mãos. Enquanto a música aumentava, seus braços balançavam. Três dedos puxaram o ar, então ele avançou para conduzir o som para um crescendo.

O maestro suíço de 31 anos, que recentemente se tornou o maestro principal da Ópera Nacional Holandesa e da Orquestra Filarmônica da Holanda, é um maestro muito físico. Mas isso dificilmente seria uma surpresa para quem o conhece das redes sociais. Ele também é um ávido boxeador, jogador de tênis e nadador, que vai trabalhar de skate, ao que parece (embora também tenha abraçado a cultura holandesa do ciclismo).

No Instagram, quase 70.000 seguidores veem imagens de um Viotti elegante em gravata borboleta e fraque, como era de se esperar, mas também sem camisa, revelando um torso musculoso. Uma postagem recente, extraída de uma página da edição holandesa da revista Men’s Health, que o homenageou como o "homem do mês" de agosto, mostra Viotti passando pó de magnésio nas mãos antes de se erguer em argolas de ginasta.

Suas postagens de um homem de ação nas redes sociais são parte de um plano para mexer com as impressões sobre as pessoas que gostam de música clássica, disse Viotti em uma entrevista durante um recente intervalo de ensaio. “Como maestro hoje, não basta se concentrar apenas na música”, ele disse.

Mas ele rapidamente acrescentou que considera as redes sociais meramente “uma ferramenta” para despertar a curiosidade. “Talvez você possa ser jovem e praticar esportes malucos”, ele disse, mas sem “uma profunda discussão artística e talvez filosófica” sobre o porquê da música clássica ser interessante, as companhias de ópera e as orquestras não manteriam seu novo público.

Em setembro, em preparação para a estreia da nova temporada da Ópera Nacional Holandesa, Viotti disse que estava acordando de madrugada para passar uma hora e meia se exercitando antes de ir ao teatro para os ensaios de duas produções: Der Zwerg de Zemlinsky ( O Anão), baseado em um conto de Oscar Wilde; e uma encenação dramática de Missa in Tempore Belli de Haydn (Missa em Tempo de Guerra).

Viotti regeu as duas obras até o final de setembro. Em março, ele retornará à ópera para Tosca de Puccini.

“Somos como atletas aqui”, ele disse. “Não nos consideramos assim, mas nossa disciplina é como a de qualquer jogador de futebol profissional. Não posso sair na noite anterior ao ensaio porque tenho que estar bem disposto.

“Fazemos sacrifícios, porque o que fazemos é precioso”

Depois de quase um ano e meio de cancelamentos obrigatórios por conta da pandemia, Viotti queria começar a nova temporada em Amsterdã com um choque, ele disse. A cidade esperava sua chegada desde que a diretora artística da Ópera Nacional Holandesa, Sophie de Lint, anunciou sua nomeação em 2019.

“Lorenzo era muito requisitado, por isso tivemos que ser rápidos”, disse de Lint. “Ele é realmente um dos maestros mais talentosos da atualidade. Além disso, ele é um embaixador incrível da ópera e da música clássica em geral. ”

Viotti nasceu em uma família musical em Lausanne, na Suíça. Uma de suas irmãs, Marina, é mezzo-soprano, e a outra, Milena, trompetista profissional, assim como seu irmão Alessandro. Seu pai, Marcello, era o maestro principal da Orquestra da Rádio de Munique e diretor musical do Teatro La Fenice de Veneza quando morreu em 2005, aos 50 anos.

Viotti tinha 14 anos na época. “Como criança, não tenho muitas lembranças dele no trabalho, mas aprendi muito com ele como homem, como pai”, ele disse. “Fizemos mergulho juntos, jardinagem, jogamos futebol. Essas, para mim, são as memórias mais importantes. As memórias dele como regente não são importantes.”

Além do gênero clássico, Viotti foi exposto a uma ampla gama de estilos musicais enquanto crescia, ele disse, incluindo hip-hop, rap, funk e soul. Ele experimentou vários instrumentos, estudando piano, viola e percussão, e cantando em um coral.

“Não é só adicionar um pouco de rap aleatoriamente, e isso e aquilo, porque parece legal”, disse Viotti. “Tem que servir a um propósito muito estrito, que é o drama que estamos criando no palco. Minha formação como percussionista clássico, amante do rap e do funk, me ajudou a encontrar o groove, o fluxo. Isso é o que sentimos falta na música clássica.”

A Missa de Haydn não soa muito como hip-hop, mas sua atração para um percussionista é clara: a parte dos tímpanos é tão proeminente que a obra às vezes é apelidada de “Paukenmesse” (“Missa dos tímpanos”). A peça precisa ser construída do começo ao fim, para justificar as fortes batidas do tambor de seu final dramático, disse Viotti. Antes de encerrar um ensaio com a orquestra e o coro da Ópera Nacional Holandesa, ele levou os músicos de volta ao início cadenciado da obra.

"Agora mais devagar", ele disse ao grupo. “Se você quer chamar a atenção de alguém, fale mais baixo, mas com mais intensidade.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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