Gabriela Portilho The New York Times
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'Não quero ficar presa em nenhuma caixa', diz Sonia Gomes, com exposição em NY

'Não se pode falar em arte brasileira sem se falar no negro', disse ela. 'E somos nós que estamos mudando as coisas, com nossa persistência e resistência.'

Jill Langlois, The New York Times - Life/Style

05 de setembro de 2020 | 22h00

SÃO PAULO, BRASIL — Guardada na prateleira de baixo do estúdio de Sonia Gomes há uma pequena caixa de papelão. Dentro dela, há dois lenços cuidadosamente dobrados: um feito de cashmere mostarda e o outro de seda estampada. Sobre eles, uma carta escrita à mão. “A ideia de uma pequena parte minha poder se tornar parte da sua obra me inspira e me faz sorrir", dizia a carta.

Os lenços, presente de uma admiradora do seu trabalho, são como os outros tecidos de segunda mão esticados sobre telas de metal nas paredes do estúdio de Sonia e pendendo dos ganchos presos ao teto (um antigo vestido de casamento em camadas de renda e seda cor de creme, uma toalha de mesa azul-anil bordada com flores brancas que pertencia à avó de uma amiga, fragmentos dourados que faziam parte de uma fantasia de carnaval) que ela combina a materiais do cotidiano, como a mobília, paus trazidos pela maré e fios para criar esculturas abstratas.

Os materiais foram dados a Sonia na esperança que ela pudesse retorcê-los, estufá-los ou costurá-los, dando-lhes novo significado como parte da sua obra. “Obrigada por criar obras tão sinceras, que são ao mesmo tempo parte de você e parte do mundo", escreveu a mulher que mandou os lenços, lembranças de viagens ao Paquistão e à China. “É como se as pessoas me dissessem, ‘Dê vida nova a isto, não deixe que morra’”, disse Sonia em entrevista. “É algo tão precioso para a pessoa que ela deseja ver aquilo se tornar algo maior.”

Para Sonia, de 72 anos, o ato de dar vida nova a esses materiais a ajudou a cicatrizar. Sonia levou a maior parte da vida para perceber que sempre foi uma artista. Na infância, em Caetanópolis, pequena cidade que já foi conhecida como polo têxtil, ela gostava de desconstruir suas roupas e transformá-las em algo diferente, usando sobras de tecido e materiais encontrados para confeccionar as próprias joias. “É parte de uma rebeldia que sempre tive", disse ela. “Ainda não gosto do que é predeterminado, que nos diz para fazer as coisas de um jeito ou usá-las de determinada maneira.”

Ela tinha 45 anos quando deixou para trás a carreira de advogada para frequentar a Escola Guignard, faculdade de artes do seu estado natal, Minas Gerais. Ali, descobriu que “nem tudo é arte, mas a arte pode ser qualquer coisa", disse ela, desenvolvendo a confiança necessária para ir adiante com sua obra, que evoca a experiência e a cultura afro-brasileiras, ainda diminuídas e apropriadas no último país do Ocidente a abolir a escravidão.

Sua exposição de estreia na Pace Gallery, no espaço temporário da galeria em East Hampton, Nova York, inclui novas obras e esculturas de exposições anteriores, como “Cordão dos Mentecaptos", no qual ela retorce, envolve, estufa e costura tecidos multicoloridos criando diferentes formatos, reunindo-os antes de pendurar o resultado final do teto. Ela também colaborou em uma nova obra de mixed-media com a pintora Marina Perez Simão, que fará parte da exposição (a primeira solo de Sonia pela Pace Gallery em Manhattan está marcada para 2022).

“É o tipo de artista que faz de nós mais do que apreciadores, convertendo-nos em verdadeiros fiéis quando vemos sua obra", disse Marc Glimcher, diretor executivo da Pace Gallery. “É como uma regente, e todos esses objetos e elementos são sua orquestra. Tudo ressoa.” Sendo negra, Sonia disse que espera-se dela constantemente que conte determinada história com sua arte, seguindo as ideias de outros a respeito do que deve ser a arte negra.

Mas ela se recusa a ser definida como artista ativista, e também a ter sua obra classificada como artesanato, termo frequentemente usado para diminuir a obra de artistas oriundos de grupos marginalizados. Quando deixou a Escola Guignard, Sonia teve dificuldade para viver de sua arte. Como ela permite que os materiais lhe digam onde querem estar e transita confortavelmente entre diferentes suportes, suas obras ocupavam um espaço que não se refletia nas galerias de arte nem naquilo que poderia ser vendido no universo do artesanato. Mas isso não a incomodou. “Não quero ficar presa em nenhuma caixa", disse ela.

“Isso limita minha liberdade.” Ela também sabe que o trabalho com diferentes suportes não foi o único obstáculo que manteve sua arte fora das categorias convencionais. Enquanto mulher negra, ela sempre soube que as regras seriam diferentes para o seu caso. Sonia disse que, aos poucos, mais espaços se abrem para os artistas negros no Brasil, graças aos esforços dos grupos de artistas negros do país.

Os jovens negros que ela vê em São Paulo, onde vive e trabalha atualmente, a fazem acreditar que esses espaços continuarão se multiplicando. “Não se pode falar em arte brasileira sem se falar no negro", disse ela. “E somos nós que estamos mudando as coisas, com nossa persistência e resistência.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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