Joao Silva/The New York Times
Joao Silva/The New York Times

Soweto representa símbolo da desigualdade social da África do Sul

Em grande parte, a economia e a terra ainda são controladas pela minoria branca do país

Patrick Kingsley, The New York Times

03 de outubro de 2019 | 06h00

SOWETO, ÁFRICA DO SUL - Nomsa Victorino tinha um Lexus na garagem, piscina, oito quartos e uma mensagem sobre  a sua famosa cidade natal. “Sempre que as pessoas pensam em Soweto, aquela Soweto, é o lugar onde moram os pobres, não se parece com isto”, disse Nomsa, 50. “A situação mudou drasticamente”.

Agnes Sehole tem ratos no forro da casa, à noite, precisa usar velas, parafina para se aquecer e uma mensagem sobre a sua famosa cidade natal. “Está ficando casa vez pior,” disse Agnes, 77 anos, sentada em um dos dois quartos de sua casa em Soweto. “Não pude experimentar nada da nova África do Sul”.

Soweto, outrora a cidade com mais negros do país, era um símbolo da resistência unida ao regime racista do apartheid e o lar do líder do combate ao apartheid, Nelson Mandela. Foi ali que a polícia matou pelo menos 176 escolares durante o Levante de Soweto de 1976, e onde os moradores se recusaram a pagar ao governo branco o aluguel e as contas de luz e de água durante os boicotes dos anos 1980. Para o mundo exterior, Soweto simbolizava a solidariedade dos negros.

Hoje, Soweto representa as divisões sociais e de classe existentes na maioria negra da África do Sul. É um lugar de carros reluzentes e grandes mansões, mas também de favelas e enorme desemprego. Soweto foi criado pelo governo branco nos anos 30 como um gueto negro nos arrabaldes de Johannesburgo. A região não tinha eletricidade e poucas ruas eram pavimentadas durante a maior parte da era do apartheid. Mas hoje, em Vilakazi Street, onde Mandela viveu, pode-se ver frequentemente um Porsche estacionado na porta de um dos vários restaurante de luxo. 

Ali, realiza-se também um festival anual do vinho, há um dos maiores shopping centers da África e uma micro-cervejaria tão bem-sucedida que recentemente foi adquirida pela Heineken. Entretanto, a 10 minutos de automóvel, em um bairro como Klipspruit, o visitante tem uma visão diferente. Embora a maior parte das ruas de Soweto tenha sido asfaltada nos anos que se seguiram ao fim do apartheid, alguns bolsões nesta parte de Klipspruit foram esquecidos.

Quando Agnes Sehole se mudou para cá, em 1966, ela podia apreciar o panorama da porta de trás de sua casa. Agora, a escassez de habitações levou vários dos seus vizinhos a construir até quatro barracos para alugar nos seus quintais. Em grande parte, a economia e a terra ainda são controladas pela minoria branca.

O desemprego continua quase tão elevado quanto em 1994; e mais da metade dos jovens abaixo dos 35 não têm uma ocupação. A classe média negra cresceu, mas ainda constitui cerca de 10% do total da população de cor. No cerne desta divisão está a crise de eletricidade de Soweto.

Nos anos 1990, os moradores recusaram-se a pagar alguns serviços, como a energia elétrica, em uma campanha contra o apartheid que tinha várias frentes. Depois do final do apartheid, esta cultura da recusa do pagamento continuou. Hoje, mais de 80% dos moradores do lugar não pagam a energia elétrica.

Mas muitos pobres sul-africanos acreditam que a eletricidade deveria ser gratuita, ou pelo menos subsidiada em boa parte. Eles acham que estão pagando o preço da corrupção do partido do presidente Cyril Ramaphusa, o Congresso Nacional Africano, cuja liderança anterior se envolveu em um emaranhado de escândalos, inclusive no setor elétrico.

O impasse da energia está no centro do debate sobre a natureza da democracia na África do Sul e questiona se o acerto político depois do fim do apartheid fez o suficiente para redistribuir o poderio econômico e as oportunidades. Em um dos bares mais elegantes de Soweto, no final de julho, um banqueiro e um homem de negócios discutiam exatamente esta questão. Ambos haviam crescido em Soweto, e ambos haviam sido bem-sucedidos a ponto de se mudarem  para outra parte de Joanesburgo.

O banqueiro, Dumisani Bengu, achava que quem se esforçou ao máximo poderá ser bem-sucedido na nova África do Sul. “Todos nós tivemos as mesmas oportunidades, por que você não aproveitou das suas?” perguntou Bengu. “Todos nós crescemos no mesmo espaço, mas eu me esforcei muito na escola”.

O empresário que tem uma empresa de construção, Bongani Moyo, discordou. As oportunidades não são distribuídas de maneira equitativa. “Há pessoas que tiveram oportunidades, sem dúvida”, ele disse. “Mas alguns de nós também precisaram encontrar o seu caminho e sair da rotina, enquanto outros não tiveram qualquer oportunidade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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