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Estereótipos racistas de vietnamitas marcam filme de Spike Lee

Sua crítica antirracista poderia superar o investimento no imperialismo americano que a maioria dos americanos faz mesmo sem saber? Infelizmente, a resposta é não

Viet Thanh Nguyen, The New York Times - Life/Style

25 de julho de 2020 | 05h00

Todas as guerras são travadas duas vezes: a primeira no campo de batalha, a segunda na memória. Sem dúvida, é o que acontece com aquilo que os americanos chamam de “Guerra do Vietnã” e os vietnamitas, vitoriosos, chamam de “Guerra dos Estados Unidos”. Ambos os termos obscurecem o fato de que a guerra, que matou mais de 58 mil americanos e 3 milhões de vietnamitas, também foi travada no Laos e no Camboja, ceifando outras centenas de milhares de vidas e levando diretamente ao genocídio do Camboja.

À sua maneira tipicamente solipsista, centrada nos Estados Unidos e na branquitude, Hollywood vem travando essa guerra desde o atroz Os Boinas-Verdes (1968), com John Wayne, um filme tão propagandístico que poderia ter sido feito pelo Terceiro Reich. Nascido no Vietnã, mas criado nos Estados Unidos, tenho um interesse pessoal e profissional no fetiche de Hollywood com essa guerra. Infelizmente, assisti a quase todos os filmes sobre a “Guerra do Vietnã” que Hollywood fez. É um exercício que não recomendo a ninguém.

Então, quando o novo filme de Spike Lee, Destacamento Blood, foi anunciado, fiquei com sentimentos confusos. Por um lado, sou admirador de muitos dos filmes de Lee. Por outro, temia que – apesar de ser um americano preto que tem uma voz poderosa e necessária – Lee fosse, no final das contas, só mais um americano.

Sua crítica antirracista poderia superar o investimento no imperialismo americano que a maioria dos americanos faz mesmo sem saber? Infelizmente, a resposta é não. Destacamento Blood é um filme menor de Lee – falando francamente, é uma bagunça. Suas caracterizações do povo vietnamita são indissociáveis de suas falhas políticas.

Estou me sentindo quase indelicado ao escrever estas palavras, dada a urgência do Black Lives Matter apontada por Lee e a maneira pela qual Hollywood – e os Estados Unidos, de maneira geral – apagaram, ignoraram ou distorceram a história da população preta. Há décadas, o talento preto luta para contar histórias pretas, com atores pretos nos papéis principais e com roteiristas, diretores e produtores pretos nos bastidores.

Nesse contexto, Destacamento Blood merece, com razão, seu momento, pois conta, daquele jeito extraordinário de Spike Lee, as experiências de alguns soldados pretos que lutaram em número desproporcional durante uma guerra cujo racismo cortava dos dois lados: contra os soldados americanos pretos (e indígenas) e também contra os vietnamitas (e os cambojanos, os laocianos e os hmong).

Sou a favor do Black Lives Matter e contra o racismo, mas, ainda assim, ao assistir pela milésima vez à velha cena obrigatória dos soldados vietnamitas sendo baleados e mortos, ao sentir a mesma dor que senti ao assistir Platoon, Rambo e Nascido Para Matar, fiquei me perguntando: faz alguma diferença quando são negros politicamente conscientes que nos matam?

Destacamento Blood continua sendo um filme de “Guerra do Vietnã” sobre a guerra suja americana. A diferença é que põe pretos nos papéis de destaque e elimina a pior parte do racismo contra asiáticos e do Perigo Amarelo que caracteriza o gênero. O que fica, no entanto, é a evidência de que, embora Lee tenha boas intenções, ele também não sabe o que fazer com os vietnamitas, a não ser lançar mão de sentimentos de culpa liberal em relação a eles.

Como resultado, os vietnamitas aparecem como guias turísticos, ajudantes, “putas”, crianças miscigenadas, mendigos e inimigos sem rosto, todos brincando com os desejos e temores dos americanos. Num momento particularmente absurdo, um gângster vietnamita ameaça os veteranos ao relembrar o massacre de My Lai. Ainda que seja importante reconhecer o massacre de 500 civis vietnamitas, é mais um desajeitado exercício de culpa americana que relega aos vietnamitas o papel de vítima – que é como os americanos preferem se lembrar deles, a não ser quando os retratam como vietcongues.

A sensação de que o povo vietnamita deve ser vítima também se manifesta no episódio em que um vendedor tenta convencer um dos veteranos, Paul (interpretado por Delroy Lindo), a comprar uma galinha viva (algo de que nenhum vietnamita que eu conheça jamais ouviu falar). A situação de repente fica mais tensa, e o vingativo vietnamita grita com os veteranos, dizendo que eles mataram sua mãe e seu pai.

Embora a cena possa de fato ter acontecido, é extremamente rara. Muitos americanos que visitam o Vietnã observam, com surpresa, que os vietnamitas parecem ter deixado o passado para trás. E isto é verdade. Não temos tempo para odiar os americanos porque nos odiamos ainda mais, uma vez que nossa verdadeira guerra foi uma guerra civil (além disso, os vietnamitas odeiam muito mais os chineses). Os americanos e os franceses, nossos ex-colonizadores, são vistos como financiadores, a quem não devemos ofender.

Além de ser traumático na vida real, ser vítima nas telas, sucessivas vezes, é muito chato, e Lee sabe que basear uma história preta nesse tipo de experiência é uma proposta fadada ao fracasso. Sua estratégia em Destacamento Blood ecoa Francis Ford Coppola em Apocalypse Now, filme a que ele faz várias referências: reserva o papel principal para americanos que estão se digladiando contra seu próprio Coração das Trevas.

Numa performance brilhante, Lindo se torna uma espécie de Ahab preto, guiado por demônios até encontrar seu destino. Destacamento Blood mostra os pretos como agentes de seu próprio destino, capazes de atos de heroísmo e de horror, como todos nós somos na condição de seres humanos cuja desumanidade é parte indissociável de nós mesmos. Essa subjetividade complexa é o que a Hollywood branca sempre negou aos pretos, e é o que eles merecem. Mas os vietnamitas, laosianos, cambojanos e hmong também merecem.

Talvez seja pedir demais de uma história preta, mas é o próprio Lee quem define o limite. Destacamento Blood claramente quer ser um filme que bate no racismo americano e na justificativa imperialista, mas, apesar de ter sucesso no primeiro objetivo, fracassa no segundo. Por quê?

Ao colocar a subjetividade preta no centro, Lee também continua colocando a subjetividade americana no centro. Se não se pode desentranhar a subjetividade preta da subjetividade americana dominante (branca), fica impossível fazer uma genuína crítica anti-imperialista. Então, os vietnamitas marginalizados continuam a servir de pretexto para um drama preto encenado contra a divisão entre americanos brancos e pretos.

Não se trata de um argumento em defesa de mais inclusão vietnamita. É uma demanda para que reconheçamos que será impossível promover a descolonização e o anti-imperialismo se continuarmos reiterando o ponto de vista do país imperial, mesmo da perspectiva de uma minoria.

As ambições políticas do filme de Lee ficam claras nos dois intelectuais pretos que ele inclui no começo e no final. O filme começa com a clássica citação antirracista e anti-imperialista de Muhammad Ali sobre os vietcongues: “Eles nunca me chamaram de crioulo”. É triste, então, que a resposta de Paul ao vendedor de frango seja chamar os vietnamitas de gooks [algo como “japas” ou “amarelos”, o termo pejorativo com que os militares se referiam aos orientais]".

Sim, os soldados pretos usavam esse insulto, e o termo diz muito sobre a internalização do trauma do racismo em Paul. Mas a justificação de Paul soa vazia quando ele diz que, se os pretos podem se chamar da pior maneira possível, ele pode usar a ofensa vietnamita. Não.

Os pretos podem se chamar do que quiserem, é um direito deles. Mas não podemos chamar os pretos com um termo ofensivo, e eles também não podem nos chamar com um termo ofensivo. As tentativas de Lee em fornecer alternativas antirracistas – um veterano preto que cria um laço com sua filha miscigenada, uma doação à iniciativa de remoção de minas – se enquadram na categoria da condescendência liberal, a velha narrativa do resgate, mas com salvadores pretos em vez de brancos.

Mas não dê ouvidos a mim. Dê ouvidos ao reverendo Martin Luther King Jr, cujo importante discurso “Além do Vietnã” é citado no final do filme. O fato de a maioria dos americanos conhecer o discurso “Eu tenho um sonho”, mas não o “Além do Vietnã” é um testemunho da profundidade da propaganda americana, da vontade que os americanos têm de se sentir bem com o Sonho Americano e de sua relutância em enfrentar o Pesadelo Americano.

No Pesadelo Americano, a severidade do racismo contra os pretos é inseparável da persistência do imperialismo americano. Como King disse, os pretos americanos foram enviados “ao sudeste da Ásia para garantir liberdades que eles não encontravam no sudoeste da Geórgia e no leste do Harlem”.

King condenou não apenas o racismo, mas também o capitalismo, o militarismo, o imperialismo americano e a máquina de guerra americana, “a maior provedora de violência no mundo de hoje”. Em outro discurso, ele exigiu que questionássemos toda a nossa “sociedade”, o que significava “ver que o problema do racismo, o problema da exploração econômica e o problema da guerra estão todos ligados”. A verdadeira urgência aqui não é apenas a autorrepresentação e a necessidade de nos reconhecermos, para que os outros possam nos reconhecer também.

O crucial é a necessidade de contar histórias de maneira diferente. “As ferramentas do mestre jamais desmontarão a casa do mestre”, Audre Lorde escreveu certa vez e, de fato, uma história de guerra que repete um ponto de vista puramente americano apenas ajudará a garantir que as guerras americanas continuem, só com soldados americanos mais diversos e novos alvos a serem mortos ou salvos. Que tipo de história de guerra consegue enxergar a partir do ponto de vista do outro, ouvir suas questões, levar a sério a ideia que os outros têm de nós mesmos? Seria mesmo uma história de guerra? E não seria esta a história que devemos contar? / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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