Christine Hemm Klok para The New York Times.
Christine Hemm Klok para The New York Times.

Start-up quer enterrar suas cinzas em uma floresta

Empresa está comprando florestas e estabelecendo as normas necessárias para a sua conservação

Nellie Bowles, The New York Times

17 de julho de 2019 | 06h00

SANTA CRUZ, CALIFÓRNIA - Todos morreremos um dia, mas o Vale do Silício, até pouco tempo atrás, não se importava com a morte. Agora, em uma floresta ao sul do Vale do Silício, uma start-up espera mudar este conceito. A companhia, Better Place Forests, pretende oferecer um túmulo melhor.

“Os cemitérios são na realidade lugares caros e terríveis. Então imaginei que deveriam de ser algo melhor,” disse Sandy Gibson, o seu diretor. “Estamos oferecendo um novo projeto para toda a experiência no fim da vida de um indivíduo”. Por isso, a companhia está comprando florestas e estabelecendo as normas necessárias para a sua conservação a fim de impedir que o local, que nunca foi urbanizado, se torne depósito de cinzas de crematório.

Em junho, a equipe da Better Place inaugurou uma floresta em Point Arena, ao sul de Mendocino; além disso, está vendendo antecipadamente as árvores em outro ponto da Califórnia, em Santa Cruz, e preparando mais quatro florestas nos Estados Unidos para a mesma finalidade. A companhia já tem algumas dezenas de restos mortais no solo, e vendeu milhares de árvores para as pessoas que morrerem futuramente.

A Better Place captou US$ 12 milhões em financiamentos de investidores. Quando uma árvore morre, explica a companhia, uma nova será plantada no mesmo local. Entretanto, o pau-brasil pode viver 700 anos, e, dado que a maior parte das start-ups no Vale do Silício fracassa, é preciso ter certa confiança de que alguém estará no lugar para plantar uma nova muda.

Os clientes querem em geral uma árvore que dure para sempre. Ela custa de US$ 3 mil a US$ 30 mil (para os que desejam repousar eternamente em baixo de um pau-brasil). Para os que não se importam de passar a eternidade ao lado de estranhos, há também um preço básico de US$ 970 para um ponto determinado ao pé de uma árvore comunitária. (A cremação não está incluída.) Um funcionário então instalará uma placa no chão para servir de lápide.

Quando as cinzas chegam, a equipe da Better Place cava uma vala de 90 centímetros por 60 nos pés da árvore. Em seguida, mistura os restos cremados de uma pessoa com terra e água, às vezes juntamente com outros ingredientes para contrabalançar o teor naturalmente muito elevado de alcalinos e de sódio da cinza dos ossos. É importante que o solo esteja úmido.

Como a floresta não é um cemitério, as normas são mais brandas. Frequentemente, os clientes querem que suas cinzas sejam misturadas com as dos seus animais de estimação, disse Gibson. Trata-se de um processo que não exige muita tecnologia: basta misturar as cinzas com terra e colocar uma placa no lugar.

Mas mediante pagamento de uma taxa, os clientes  recebem um vídeo digital imediato de recordação. Caminhando pela floresta, os visitantes poderão escanear um cartaz e olhar um retrato digital do falecido com informações sobre a sua vida. Na Bay Area, um funeral tradicional e um lote para o túmulo muitas vezes custam de US$ 15 mil a US$ 20 mil. A ideia da Better Place é que o enterro o pé de uma árvore é bom para o meio ambiente, o local é mais agradável do que um cemitério - e é mais barato.

Nancy Pfund, fundadora da DBL Patners, que administrou o processo de capitalização inicial, a considera uma maneira de ganhar dinheiro com a preservação. John O’Connor, que dirige a empresa Menlo Park Funerals, se mostra cético. Ele disse que mais de 90% dos seus clientes optaram pela cremação.

“Eles chegam à noite, espalham as cinzas da vovó, tomam uma taça de champagne e todos os dias passam pelo parque sabendo que a vovó está ali. Para que pagariam US$ 20 mil para ir até um memorial, quando podem espalhar as cinzas em qualquer parque que quiserem, de graça? Tecnicamente, isto é ilegal. “Não pergunte, não conte”, ele disse. Recentemente, Gibson caminhava pelos 32 hectares de sua floresta em Santa Cruz onde há seis mil árvores disponíveis, fitas de cores diferentes amarradas, à espera de serem escolhidas.

Os clientes encontram aquela que mais os atrai. “Alguns querem uma árvore totalmente isolada; outros querem estar rodeados de pessoas e fazer parte de um círculo de fadas”, disse Gibson. Pessoas mais novas muitas vezes escolhem árvores mais novas porque gostam da ideia de crescimento. Depois de escolhida a árvore, os clientes cortam a fita em um evento que a Better Place chama de cerimônia da fita.

Debra Lee, assistente administrativa aposentada de San José, sentiu uma ligação imediata com um medronheiro, uma árvore perene com a casca vermelho escura. “Ele tem cerca de 60 anos, e eu tenho 63”, contou. “Olhando para o seu padrão de crescimento é possível ver que passou por momentos difíceis porque está um pouco curvado, mas conseguiu superar isto e encontrar a luz do sol”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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