Kibbo via The New York Times
Kibbo via The New York Times

Startup de aluguel de vans quer criar comunidades para socialização

Projeto da Kibbo prevê wi-fi, banheiros e uma cozinha compartilhada em localidades designadas para o estacionamento dos veículos

Candace Johnson, The New York Times – Life/Style

05 de outubro de 2020 | 05h00

E se a resposta à pergunta “Onde vamos viver agora?” fosse realmente “Em muitos lugares”, e “talvez em nenhum lugar”? A Kibbo é uma nova empresa no florescente campo da vida em um trailer nos Estados Unidos. Ela aluga vans aos seus membros e cria comunidades para eles socializarem.

O seu plano é começar com cinco locações nos desertos da Califórnia, Utah e Nevada. Estas localidades - poderíamos chamá-las campings, ou estacionamentos para trailers? – têm um centro, ou clube, que seria o equivalente a um espaço de convivência.

Haverá wi-fi, banheiros e uma cozinha onde a comida será compartilhada. A outra vantagem? Os membros alugam estas casas móveis, tornando-se eventualmente associados com acesso total. O aluguel de uma van Mercedes-Benz Sprinter 4x4 começa em cerca de US$ 1,5 mil ao mês. (Os membros com vãs próprias pagarão cerca de US$ 1 mil por mês para ter acesso aos clubes.) Marian Goodell, CEO do Burning Man (evento que "constrói" uma cidade temporária durante alguns dias todos os anos e costuma reunir milhares de pessoas no deserto de Nevada), tem um apartamento em São Francisco, mas vive há várias semanas em uma van Kibbo emprestada, para testar o novo estilo de vida.

“Antes da covid, esta era uma ideia interessante”, ela disse. (Marian estava estacionada nos arredores de Grand Rapids, Michigan.) “Mas agora, a crise irá criar mais micro-comunidades.” No próximo ano, a companhia planeja abrir mais cinco localizações urbanas em São Francisco, Los Angeles e no Vale do Silício.

Os associados podem ir e vir e retornar, se desejarem. Grande parte dos Estados Unidos já é móvel, embora de maneiras bastante diferentes. O país tem uma rede de estacionamentos para trailers, criados há muito tempo, onde as pessoas podem passar as férias ou morar em caráter semipermanente.

Muitas cidades vivem uma crescente crise de sem teto, com dezenas de milhares de americanos morando em vans ou em automóveis por desespero. (Somente em Los Angeles, 16,5 mil sem teto moravam em carros em 2019.) Esse ano, a Câmara Municipal de Berkeley, Califórnia, com o problema das pessoas que dormiam em vans em bairros comerciais, aprovou em votação um programa de autorizações para a utilização de lotes urbanos durante a noite.

Isto contrasta com a versão de influenciadores do Instagram sobre a #vanlife – ônibus Volkswagen antigos, com graciosas cortinas, pôr do sol na Califórnia, chapéus de abas largas, onde não se sabe ao certo o que acontece depois que as pessoas tiram as fotos.

“É realmente difícil viver em uma van em uma cidade”, observou Colin O’Donnell, o fundador da Kibbo. Na realidade, estávamos falando em uma de suas vans, estacionada em uma rua de São Francisco em uma vaga perpendicular. Ele ocupava o assento do passageiro, totalmente abaixado.

Os pisos eram de cortiça e havia uma quitinete entre nós, com uma pequena geladeira e um fogãozinho. É difícil até para as pessoas que têm outra moradia. A certa altura da nossa conversa, um Volkswagen parou na vaga ao nosso lado e, depois de olhar para nós desconfiado, o motorista rapidamente desapareceu.

“Há uma demografia de aves migratórias que não é bem o que nós procuramos”, ele disse. Os associados da Kibbho “estão trabalhando. Estão criando, são pessoas interessadas em participar da vida da cidade em geral”. Ele está anunciando a Kibbo como uma alternativa mais barata, mais flexível, ao aluguel e uma maneira fácil para as cidades disporem de mais habitações.

Se as pessoas vivessem apenas em veículos – ou “quartos de dormir” móveis, como os chamou – poderiam montar uma “casa” tão facilmente quanto estacionar um carro. A pandemia, afirmou, entabulou muito mais facilmente negociações com proprietários de terrenos comerciais. Para os resorts fechados e os campi corporativos de cidades fantasmas, ele está lançando um site da Kibbo como um novo tipo de inquilino confiável. 

A pandemia está trazendo também novas pessoas para povoar estas vans. O’Donnell afirma que há interesse de pessoas que começaram a trabalhar em casa. “Elas estão gastando muito dinheiro neste produto que é ultrapassado e indesejável”, afirmou. “Está começando a parecer mais uma prisão, como aquela em que você está preso, principalmente depois de quatro meses de quarentena”.

Segundo O’Donnell, a pandemia acelerou o calendário dos seus negócios. A Kibbo, que tem o nome de um movimento pela vida em campings, de artesanato e pela paz mundial na Inglaterra dos anos 1920, esta longe de ser um conceito comprovado.

Mas Marian Goodell, do Burning Man, está entusiasmada com o conceito da Kibbo. Na sua opinião – e ela deve conhecer alguma coisas em matéria de eventos – a pandemia amentou o desejo das pessoas de se comunicarem com segurança em grupos menores em suas idades ou na estrada.

Ao chegar em casa, planejou enviar um feedback para O’Donnell sobre a vida fora da van da Kibbo. Qual foi o maior desafio até o momento? A falta de um banheiro. Ela usou um toalete marinho e um recipiente portátil de dois galões movido a energia solar usado frequentemente em campings. Na sua opinião, foi ótimo. “A experiência me lembra muito o Burning Man”, observou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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