Damien Meloney / The New York Times
Damien Meloney / The New York Times

Startups bilionárias decidem abrir capital

A Uber, gigante de compartilhamento de viagens, por exemplo, captou mais de US$ 20 bilhões nos últimos dez anos

Matt Phillips e Erin Griffith, The New York Times

09 de abril de 2019 | 06h00

A última geração de startups do Vale do Silício acaba de entrar nas bolsas, alimentando as esperanças de grandes e pequenos investidores ansiosos por apostar nessas empresas de rápido crescimento e grande destaque. Mas o ano de 2019 se mostra muito diferente dos anteriores. As companhias, entre elas as queridinhas da gig-economy, com trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício como Uber e Lyft, em geral são mais antigas e maiores, alimentadas há anos por milhões de dólares de recursos privados que transformaram o universo das startups. A maior maturidade das companhias poderá travar fortes flutuações - grandes ganhos e prejuízos - para novos investidores.  

Talvez signifique também que as fases de maior crescimento das empresas já passaram. Consequentemente, há um risco cada vez maior de que nesta onda de ofertas iniciais públicas das empresa de tecnologia, um grupo de investidores de elite, como fundos soberanos e capitalistas de risco, fique com a maior parte dos ganhos em comparação aos novos investidores. “Investidores individuais entrarão tarde demais”, disse Jason DeSena Trennert, sócio gerente da Strategas Research Partners, uma firma de análise econômica e dos mercados. “Eles serão os últimos a investir, e esta é a preocupação”.

A mudança reflete uma transformação em larga escala na maneira de captar dinheiro dos empreendedores americanos visando a criar as próprias companhias. Em vez de  recorrer rapidamente aos mercados públicos e ao escrutínio que estes comportam, como fizeram a Amazon e o Google, eles estão criando grandes empreendimentos ao longo de vários anos com dinheiro privado, e com menos exigências de divulgações financeiras.

A Uber, gigantesca empresa de compartilhamento de viagens, captou mais de US$ 20 bilhões nos últimos dez anos. A Lyft, sua concorrente menor, que começou a negociar no Nasdaq no mês passado e cuja ação foi avaliada em cerca de US$ 72 no dia 4 de abril, captou $ 4,9 bilhões em sete anos.

Muitas startups das ondas anteriores - da época do boom do fim da década de 1990, quando a Amazon estava listada na Nasdaq - abriram o capital poucos anos depois da sua fundação. Algumas, como a Pets.com, tinham uma receita limitada, e agora existem somente na tradição do Vale do Silício. Uma combinação de mudanças políticas e novas e imensas riquezas na indústria tecnológica mudou, há mais de dez anos, a equação para as startups.

Os fundos mútuos e os fundos hedge - os investidores típicos na oferta pública inicial de uma startup - começaram comprando participações em grandes empresas privadas como uma maneira de aumentar consideravelmente estas participações antes que as novas empresas abrissem o capital. Apareceram outros grandes investidores, como os grandes fundos soberanos e o gigantesco SoftBank Vision Fund, que criaram um mercado mais quente.

Os investimentos de capital de risco em companhias sediadas nos Estados Unidos cresceram para $ 99,5 bilhões em 2018, o patamar mais elevado desde 2000, segundo a CB Insights, que acompanha as startups. Estes investimentos elevaram as avaliações das startups a alturas inusitadas. Agora, há pelo menos 333 unicórnios, companhias avaliadas em $ 1 bilhão ou mais, segundo a CB Insights. Em 2014, eram cerca de 80.

A Lyft tem uma avaliação privada de mais d $ 11 bilhões. Também a Pinterest, outra companhia prestes a abrir o capital. A Uber, a maior das empresas privadas que irão à Bolsa este ano, tem uma avaliação do mercado privado de mais de US$ 70 bilhões. Nos mercados públicos, este é mais ou menos o mesmo tamanho do gigante corporativo Goldman Sachs.

Alguns grupos e investidores do setor afirmam que a ênfase nos mercados privados é a consequência de uma lei federal aprovada em 2002, que tornou mais rigorosas as normas contábeis para as companhias que negociam em bolsa. Outros afirmam que o declínio das ofertas públicascomeçou mais cedo. Eles atribuem a mudança a uma onda de desregulamentações federais que facilitou a captação de dinheiro e a negociação de companhias em vendas privadas.

Qualquer que seja o motivo, os resultados têm sido uma queda do número de companhias listadas em bolsa nos Estados Unidos. O número destas companhias declinou 52% desde 1977, para pouco mais de 3.600 em 2016, segundo o National Bureau of Economic Research.

Esta persistente redução das ações publicamente disponíveis é uma razão pela qual alguns analistas acreditam que as principais startups receberão uma calorosa resposta dos investidores institucionais que costumam comprar ações há pouco emitidas, mesmo que o potencial de ganho possa ser menor. “Acho que aqui existe certa demanda reprimida”, avaliou David Ethridge, que assessora as ofertas públicas na empresa de consultoria PwC. “Acho que as pessoas irão pensar: ‘Não quero perder isto’ ”.

Entretanto, os investidores têm algum motivo para se mostrarem céticos quanto a pagar muito por companhias recentemente listadas em bolsa. De fato, nos dois últimos anos, o valor das companhias que concluíram ofertas públicas caiu em média 8%, segundo um recente relatório de pesquisa de analistas da Goldman Sachs. No mesmo período, o índice de ações da S&P subiu cerca de 12%. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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