Krista Schlueter / The New York Times
Krista Schlueter / The New York Times

No novo romance de Stephen King, a vida imita a arte, e isto o assusta

Em seu 61ª obra, 'The Institute', o autor agora tenta dissipar o medo, não criá-lo

Anthony Breznican, The New York Times

18 de setembro de 2019 | 06h00

Stephen King não estaria exercendo ainda o ofício de escritor se tudo o que ele tivesse para vender fosse o medo. Em cada história de terror sobre um assassino metamorfoseado em palhaço, no pai homicida em um hotel assombrado ou uma super gripe que despovoa o planeta, ele sempre encheu suas páginas com uma quantidade igualmente significativa de força, generosidade e até mesmo esperança. Talvez seja porque tantos leitores, como os que descobriram os seus livros quando crianças, permaneceram fiéis às histórias que ele conta, mesmo depois dos 45 anos.

O seu 61º romance, The Institute, fala de crianças dotadas de habilidades sobrenaturais, levadas à força de suas casas para serem estudadas por uma obscura organização que se livra brutalmente delas quando sua utilidade se esgota. Os que pensam em King em primeiro lugar como autor de livros de horror talvez se surpreendam pelo calor humano que há neste livro aparentemente tão impiedoso.

Quando começou a escrevê-lo, em março de 2017, não o pensou como uma história de terror, mas como um conto sobre a resistência, com Luke, o gênio de 12 anos capaz de mover objetos com a mente, a adolescente Kalisha, que lê pensamentos, e Avery, de 10 anos, que transmite um poder da mente, causando uma rebelião no interior do centro de detenção onde se encontram. “Eu queria contar como pessoas fracas podem se tornar fortes”, disse King, hoje com 72 anos, de sua casa no Maine. “Cada um de nós vive em sua própria ilha, e, ao mesmo temo, às vezes gritamos um para o outro e nos encontramos, e há uma sensação de comunidade e empatia. Adoro isto. Adoro isto nas histórias”, continuou.

King disse que The Institute compartilha este mesmo tema com o seu épico A Coisa, de 1986. No cerne de cada história há algo que, afirma o autor, agora é mais importante para ele: não criar o medo, mas dissipá-lo. “Uma das dificuldades quando você escreve há muito tempo, como eu, e acha que já explorou todos os temas, precisa se perguntar: ‘Quais são as coisas que realmente me dizem respeito? Quais são as coisas que realmente me preocupam?’”, questionou-se. “Eu me preocupo com a amizade, com um governo que se intromete em tudo e que tentará fazer coisas em que os fins justificam os meios. Eu me preocupo com as pessoas indefesas que tentam encontrar uma maneira de se defender. Tudo isto está em The Institute”, garantiu.

Os amigos de King perceberam uma mudança. “Em geral, grande parte da obra recente de Stephen se tornou mais otimista", disse Ben Vincent, autor de The Stephen King Illustrated Companion.

Entretanto, à medida que King se aproximava da conclusão de The Institute, as coisas foram ficando estranhas. Os traços gerais do romance começaram a encontrar paralelos com o que acontecia na vida real: crianças buscando asilo na fronteira dos EUA com o México estavam sendo tiradas dos pais pela política de Donald Trump sobre a separação das famílias. “Durante a elaboração do livro, o presidente começou a trancafiar crianças de verdade”, disse King.

Pelo menos sete crianças morreram enquanto estavam sob custódia da polícia de imigração, desde a implementação da medida. “Isto foi assustador para mim porque eu estava escrevendo sobre isto”, contou. “Quando você conta a verdade sobre o comportamento das pessoas, às vezes descobre que a vida imita realmente a arte”. E acrescentou: “Acho que foi o que aconteceu neste caso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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