Rozette Rago para The New York Times
Rozette Rago para The New York Times
Adam Popescu, The New York Times

16 de janeiro de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - “Pinchas, quantos anos você tem?”, Steven Spielberg perguntou para a tela na parede, uma imagem de vídeo em tamanho natural de um idoso de cardigã, que respondeu sem hesitação. “Nasci em 1932, agora você faça a conta”, respondeu Pinchas, com sotaque polonês. “Ele me disse para fazer a conta!”, riu Spielberg. “Como foi que você sobreviveu quando tantos não conseguiram?”. “Como sobrevivi?”, respondeu. “Acho que sobrevivi porque a providência divina cuidou de mim”.

O objetivo da conversa não era divertimento - era educação. Na tela, havia uma biografia interativa de Pinchas Gutter, um judeu polonês que sobreviveu ao Holocausto e cuja história faz parte de uma visita do diretor pela sede reformada da USC Schoah Foundation, a organização que ele fundou em 1994 para coletar depoimentos de sobreviventes do Holocausto. 

Agora, Spielberg ampliou a importância da fundação no campus da Universidade da Califórnia, juntamente com sua missão e objetivo público: combater o ódio, que, segundo ele, se espalhou no mundo todo. “A presença do ódio passou a ser aceita sem contestação”, disse o cineasta. “E nós não fazemos o suficiente para combatê-la”. Os visitantes conversam com 16 sobreviventes do genocídio, de acordo com padrões coloquiais e com mais de 2 mil perguntas que variam desde pontos de vista a respeito de Deus a histórias pessoais. A fundação atualmente reúne o que Spielberg chama de “testemunhos vivos” de vítimas dos modernos genocídio.

“O Holocausto não pode ser o único”, ele disse. “Decidimos despachar os nossos cinegrafistas para Ruanda, com a finalidade de colherem depoimentos. Dali, fomos para o Camboja, Armênia - estamos fazendo um estudo crítico na República Centro-Africana, Guatemala, do massacre de Nanquim. Mais recentemente, estamos colhendo depoimentos sobre a violência contra os rohingya em Mianmar e a atual violência antissemita na Europa”.

O espaço de 930 metros quadrados é mais impressionante do que o do começo da organização, depois do filme “A lista de Schindler”, de 1993. (O filme foi reeditado.) Spielberg enviou um exército de cinegrafistas pelo mundo para gravar os relatos de sobreviventes do Holocausto. Fitas de Betamax das entrevistas foram armazenadas em seus escritórios da Amblin Entertainment, no espaço da Universal Studios, e depois em uma companhia de armazéns antes da mudança da fundação para a Leavey Library da USC, em 2006. (Há pouco mais de 51 mil gravações de sobreviventes do Holocausto no arquivo de história visual, 115 mil horas.)

Hoje, o grupo tem 82 funcionários e um orçamento anual de cerca de 15 milhões de dólares, que inclui 3 milhões de dólares da universidade. Também recebeu milhões em doações. Sua nova sede está repleta de vídeo-depoimentos de 65 países em 43 línguas, juntamente com obras de arte inspiradas nos sobreviventes (uma escultura do artista britânico Nicola Anthony incorpora as frases de depoimentos filmados.) Expressando o legado do seu fundador, a organização produziu muitos filmes, como o recente documentário “The Girl and the Picture”, sobre Xia Shuqin, de 88 anos, que testemunhou o assassinato de sua família no massacre de Nanquim em 1937. 

“The Last Goodbye”, uma visão em realidade virtual de monumentos às vítimas nos museus do Holocausto da Florida, Nova York, Illinois e Califórnia, leva o público para o campo de concentração de Majdanek na Polônia ocupada pela Alemanha. “Todo mundo pensa que a Shoah Foundation é um arquivo do passado, mas ela fala em compreender a compaixão e da utilização dos depoimentos para lançar uma luz”, disse o diretor da fundação, Stephen D. Smith.

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