David Cooper
David Cooper

Sua insônia talvez não seja um problema

Acordar cedo faz com que as pessoas sejam respeitadas. Mas isso pode mudar.

Alex Williams, The New York Times

02 Setembro 2018 | 10h30

Escutei isso durante a vida toda: a sociedade gosta de quem cedo madruga. As pessoas que acordam cedo são mais pontuais, conseguem notas melhores na escola e chegam mais alto na hierarquia corporativa. Essas chamadas cotovias são celebradas como os que mais acumulam realizações e ocupam os cargos de diretoria.

Mas, e se a sociedade estiver enganada? E se os notívagos (como eu) forem na verdade os gênios esquecidos? E se formos os maiores perturbadores das regras, aqueles mais bem adaptados para uma sociedade moderna, pós-industrial, governada por programadores que trabalham até tarde, nômades digitais e magnatas freelancers?

“Why We Sleep” [Por que dormimos], livro de Matthew Walker, diretor do Centro de Ciência do Sono Humano, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, detalha o funcionamento do corpo humano num ritmo circadiano de 24 horas, como um relógio interno, que coordena uma queda na temperatura do corpo conforme este se prepara para dormir, aumentando a temperatura novamente quando é hora de acordar. De acordo com o Dr. Walker, cerca de 40% da população mundial é do tipo que funciona melhor de manhã, 30% são notívagos e o restante se enquadra em algum ponto entre as duas coisas.

“Os notívagos não são assim por preferirem a noite", escreve ele. “Essas pessoas se veem presas a um ritmo atrasado por causa de algo no seu DNA. Não se trata de um defeito ou falta de força de vontade, e sim um destino traçado pela genética.”

Os médicos têm um nome para descrever essa condição: síndrome do atraso nas fases do sono, afetando todos aqueles que dormem horas mais tarde do que o horário "convencional". Com frequência, a expressão é sublimada numa sigla um pouco assustadora - SAFS - como tantas outras doenças mortais.

Quando os notívagos são obrigados a acordar cedo, seu córtex pré-frontal, que controla sofisticados processos do raciocínio, “permanece desativado, como se estivesse em modo 'espera'", escreve o Dr. Walker. “Como um motor desligado numa manhã fria, demora um pouco até que ele esquente.”

Pode ser que isso tenha um propósito evolutivo. Quando os primeiros humanos viviam em tribos menores, os cronogramas de sono assíncronos traziam uma vantagem para a sobrevivência: sempre havia alguém acordado para vigiar a aproximação de leopardos, de acordo com o livro.

Culpa da modernidade

A ascensão da agricultura trouxe consigo a obrigação de cuidar dos campos ao raiar do dia. A Revolução Industrial trouxe fábricas com relógios que soavam às 8 da manhã. Os notívagos foram obrigados a se adaptar, e isso pode ter lhes custado.

De acordo com um estudo dos tipos cronológicos, é possível que os notívagos morram antes que os demais. Outro estudo, publicado na Journal of Psychiatric Research, descobriu que os notívagos apresentam uma probabilidade 6% maior de desenvolverem depressão.

Vários estudos indicaram que os notívagos também bebem mais, fumam mais e têm mais parceiros sexuais. Outras pesquisas chamaram a atenção para a tríade sombria dos distúrbios de personalidade: maquiavelismo, psicopatia e narcisismo.

Não surpreende que “os funcionários que começam seu dia de trabalho mais cedo eram classificados por seus supervisores como maus disciplinados, obtendo assim melhores indicadores de desempenho", de acordo com um estudo de 2014 realizado pela Faculdade de Administração Foster, da Universidade de Washington. É a mesma lógica que nos ensina a “vestir-se como o chefe”, aplicada aos tipos cronológicos em lugar das roupas.

Mas, e se o ambiente de trabalho moderno não funcionar mais de acordo com essa fórmula? E se os notívagos tiverem um diferencial a oferecer?

Horários dignos de um hacker

“Nunca funcionei direito pela manhã", disse Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, em 2016. Dizem que ele acorda às 8 da manhã, horas depois que os executivos tradicionais, mas nada diferente do que se esperaria de um hacker, por exemplo.

“Os programadores mais produtivos que conheço - e também autores, além de outras profissões que envolvem criatividade", disse Tim Ferriss, autor e investidor, “tendem a realizar seus melhores trabalhos quando os demais estão dormindo, em horários que coincidem com o menor número de distrações".

O titã da tecnologia Alexis Ohanian, da Reddit, gaba-se de acordar e dormir tarde, dizendo que costuma ir para a cama às 2h da madrugada para acordar às 10h, ou quando seu gato vier despertá-lo.

O tradicional ambiente de trabalho funcionando das 9h às 17h está começando a ser visto com novos olhos, especialmente nos setores que envolvem criatividade, para os quais o dia de trabalho não está mais ligado ao dito horário comercial. A nova cultura do ambiente de trabalho coloca menos ênfase na pontualidade, sublinhando a criatividade e a capacidade de quebrar as regras.

Os notívagos são independentes. Nosso panteão inclui rebeldes (Keith Richards, Hunter S. Thompson) e revolucionários (Mao, Stalin), gênios loucos (James Joyce, Prince) e doidos varridos (Charles Manson, Hitler).

Talvez isso não seja uma coincidência. A própria essência do nosso tipo cronológico faz de nós figuras esquisitas, propensas a olhar a vida através de lentes diferentes.

Depois da meia-noite, sentimos a liberdade de pensar qualquer ideia, sonhar qualquer sonho, a salvo do julgamento do mundo careta.

O fim dos que cedo madrugam?

Será que isso significa que somos na verdade narcisistas? Talvez. Somos no mínimo diferentes. Talvez até especiais.

Alguns cientistas concordam com isso. Em estudo realizado em 2009, Satoshi Kanazawa, um provocador psicólogo evolucionário da London School of Economics and Political Science, tentou sugerir que os notívagos são mais inteligentes que os que cedo madrugam.

Outros pesquisadores sugeriram que nós, os notívagos, somos mais propensos a correr riscos. Um estudo de 2014 da Universidade de Chicago descobriu que os notívagos estão “associados à ideia de assumir riscos maiores em geral” em questões de finanças, ética e lazer.

Camilla Kring, uma consultora administrativa dinamarquesa, fundou o grupo B-Society, que defende o fim do horário de verão, promove horários de trabalho flexíveis e o ajuste do tempo de início das aulas na escola, “para acomodar diferentes tipos cronológicos humanos".

“As empresas podem usar o conhecimento a respeito do ritmo circadiano como uma vantagem competitiva", disse Camilla.

O termo “diversidade de tipo cronológico” começa a se popularizar, com os administradores explorando conceitos como a energia assíncrona numa equipe: cronogramas de trabalho não coincidentes para garantir que todos os funcionários estejam trabalhando com o máximo da sua eficiência.

Talvez os esquisitos do mundo - aqueles que se sentem melhor sozinhos no escuro, seguros na ilusão de terem o mundo para si, ainda que somente durante as preciosas horas da noite, quando os demais estão roncando - estejam finalmente conquistando o devido respeito.

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