Ilustração de Antoine Maillard
Ilustração de Antoine Maillard

Suas férias podem contribuir (e muito) para a mudança climática

Um assento em um voo de Nova York a Los Angeles, por exemplo, representa um aumento de meses em termos das emissões de carbono na atmosfera

Andy Newman, The New York Times

04 de agosto de 2019 | 06h00

As geleiras estão derretendo, os corais estão morrendo, e Miami Beach afunda lentamente. Rápido, diz uma voz na sua cabeça, vá vê-los antes que acabem! Você é mau, diz outra voz. Porque está acelerando a sua destruição. Para muitas pessoas que gostam de viajar, estes são tempos moralmente desconcertantes. Algo que parecia um mero escape e a busca de aventura tornou-se uma faca de dois gumes, ameaçadora, o epítome do consumo egoísta. Agora sabemos que viajar para algum lugar distante é a pior coisa que um indivíduo pode fazer porque agravará a mudança climática. Um assento em um voo de Nova Iorque a Los Angeles representa efetivamente um aumento  de meses em termos das emissões de carbono na atmosfera geradas pelo ser humano.

E no entanto, voamos cada vez mais. O número de passageiros em aviões no mundo todo mais que dobrou desde 2003, e não há muita coisa que possa ser feita neste momento para tornar estas viagens menos prejudiciais ao meio ambiente - os jatos elétricos demorarão muito ainda para poderem ser utilizados. E nós nos perguntamos: até que ponto as nossas férias afetarão a espécie humana, ou o planeta?

É difícil pensar na mudança climática em relação ao nosso comportamento. Somos pequenos, as consequências dos nossos atos representam um aumento microscópico, além disso, a nossa intenção não é prejudicar. Contudo, os efeitos  desta mudança são enormes, terríveis - e a maior parte das pessoas não tem noção disto. Nós não podemos ver o rosto das futuras populações anônimas cuja aldeia litorânea contribuímos para fazer submergir.

Mas há como quantificar o nosso impacto no planeta. Em 2016, dois climatologistas publicaram na revista Science um estudo que mostra uma relação direta entre as emissões de carbono e o derretimento do gelo do Oceano Ártico. Cada tonelada a mais de dióxido de carbono ou o seu equivalente - ou seja, a nossa parcela das emissões em um voo de ida de Nova York a Los Angeles - representa a perda de três metros quadrados de gelo do Ártico no verão, constataram seus autores, Dirk Notz e Julienne Stroeve.

Em 2005, o professor do Dartmouth College, Walter Sinnott-Armstrong, escreveu em uma revista especializada em um artigo intitulado  It’s Not My Fault: Global Warming and Individual Moral Obligations, que ele não tinha nenhuma obrigação moral de deixar de pegar um SUV, devorador de gasolina, para dar um passeio em uma tarde de domingo, se estivesse com vontade de fazê-lo. “Nenhuma tempestade, inundação, seca ou onda de calor pode ser atribuído ao meu ato individual de dirigir”, escreveu.“Se, nesse mesmo domingo, eu evitar de dirigir para meu lazer, não beneficiarei minimamente um indivíduo”, continuou. 

Outros filósofos questionaram o seu raciocínio. O professor John Nolt, da Universidade de Tennessee, mediu os danos provocados  pelas emissões de um americano médio ao longo de sua vida. Observando que o carbono permanece na atmosfera por pelo menos séculos, e que um painel da ONU constatou em 2007 que a mudança climática  “provavelmente afetará de maneira adversa centenas de milhões de pessoas pelo aumento das inundações nas regiões costeiras, da redução dos aquíferos, do aumento da desnutrição e dos efeitos prejudiciais para a saúde” nos próximos 100 anos, o professor Nolt chegou a uma conclusão dura. “Em razão das suas emissões de gases geradoras do efeito estufa, o americano médio causa grave sofrimento e/ou a morte de duas pessoas no futuro”.

Avram Hiller, da State University de Portland, Oregon, baseado no enfoque do professor Nolt, pôde chegar ao impacto do hipotético passeio de 40 quilômetros do professor Sinnott-Armstrong. “Sair para um passeio dominical terá como efeito acabar com a tarde de outra pessoa”, escreveu Hiller.

Alternativas para voos

Haverá alternativas a uma viagem de avião.Um cruzeiro marítimo, quem sabe? Talvez não. Bryan Comer, pesquisador da organização International Council on Clean Transportation, disse que até mesmo os navios mais eficientes emitem de três a quatro vezes  mais dióxido de carbono por passageiro/milha do que um jato.

Como a maioria dos navios de cruzeiro é movida a combustível derivado de petróleo pesado altamente poluente, muitos começaram a utilizar “depuradores” que retiram os óxidos de enxofre tóxicos dos seus equipamentos de escape. Entretanto, os depuradores despejam os poluentes no oceano, e portanto foram proibidos por sete países, e vários estados dos EUA.

Megan King, porta-voz da Cruise Lines International Association declarou que os depuradores atendem às novas normas para 2020 relativas à qualidade do ar e da água estabelecidas pela Organização Marítima Internacional, uma agência da ONU. Megan acrescentou que não é justo comparar as emissões de navios às dos jatos porque um jato é apenas um meio de transporte, enquanto um navio de cruzeiro é um resort flutuante.

Dirigir produz menos carbono do que voar, principalmente no caso de transportar um grande número de passageiros. Mas “menos” é relativo, e a maioria das viagens mais longas está distante do alcance prático de um percurso de carro.

Talvez exista uma justificativa em algum ponto. As decisões pessoais em si não deterão o aquecimento global - que necessitará de mudanças políticas dos governos em escala mundial. O turismo, por outro lado, cria milhões de empregos em lugares que anseiam por desenvolvimento. As compensações de carbono aparentemente oferecem a maneira mais direta de aplacar a sensação de culpa do viajante, ou não?

Teoricamente, elas expiam os nossos pecados. Nós damos aos corretores algum dinheiro, que eles transferem para alguém com a finalidade plantar árvores, ou capturar o metano de um lixão ou de uma operação pecuária, ou contribuem para construir uma fazenda de energia eólica, ou subsidiar fogões limpos para pessoas que cozinham ao ar livre. Todas estas coisas ajudam a diminuir os gases do efeito estufa.

Mas nada é tão simples. Pessoas ligadas à questão da compensação de carbono falam de temores a respeito de coisas como adicionalidade, dispersão e permanência.

Adicionalidade

Como saber se a companhia de serviços públicos  não teria construído a fazenda eólica não fosse pelo dinheiro que demos a ela?

Permanência

Como sabemos se a madeireira que plantou aquelas árvores não as derrubará dentro de alguns anos?

Dispersão

Como saberemos se o dono da terra que você pagou para que não derrube um hectare de floresta amazônica não usará o dinheiro para comprar outro hectare e depois derrubará todas essas árvores?

Alguns climatologistas consideram a compensação um tipo de pretexto. “É como pagar alguém para fazer dieta pela gente”, comparou Alice Larkin, da Universidade de Manchester na Inglaterra, que não voa desde 2008. Ela afirmou que, quando os governos precisam agir, são estimulados a fazê-lo pela atitude dos cidadãos. “Na minha opinião, as pessoas agem antes”, disse.

As compensações, Alice afirma, encorajam uma mentalidade que privilegia o ponto de equilíbrio, quando seria preciso evitar o desastre reduzindo imediatamente o consumo de combustíveis fósseis. Seu colega Kevin Anderson disse que quando compramos uma passagem, não estamos comprando apenas um assento em um avião. Mas estamos dizendo à indústria aeronáutica que programe mais voos, construa mais jatos, amplie mais aeroportos. “As compensações, seja qual for a escala, enfraquecem a vontade dos motoristas dos dias de hoje em relação à mudança e reduzem a inovação em busca de um futuro com menos emissões de carbono”, escreveu o professor Anderson em 2012. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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