Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times

Suástica em sino de igreja alemã provoca polêmica

Moradores, políticos e conselho da igreja se manifestaram sobre o caso

Katrin Bennhold, The New York Times

19 Setembro 2018 | 15h15

HERXHEIM AM BERG, Alemanha - Depois que descobriu que havia uma suástica no sino da igreja da cidade, Sigrid Peters se recusou a continuar tocando o órgão durante as funções religiosas.

Protegido da vista do público, no alto da escada íngreme do campanário da igreja, o sino continua suspenso onde foi instalado em 1934 por um major nazista. Herxheim am Berg é um município de 750 habitantes situada no topo de uma colina, na região dos vinhos no sudoeste da Alemanha, onde está a igreja.

Menor do que os outros dois, o sino está coberto de excrementos de pombos. Mas a suástica é claramente visível e também sua inscrição: “Tudo pela Pátria - Adolf Hitler”.

Quando Sigrid, professora de música aposentada, se recusou a tocar no ano passado se permanecesse no campanário, o “sino de Hitler” passou a fazer parte do noticiário nacional. Grupos de judeus exigiram que fosse retirado. O conselho da igreja local proibiu que tocasse. O conselho regional das igrejas se ofereceu para substitui-lo.

Cerca de outras vinte cidades da Alemanha descobriram suásticas nos sinos de suas igrejas, e trataram rapidamente de livrar-se deles. No norte do país, os moradores resolveram a questão por conta própria, entraram na torre da igreja e retiraram a suástica com um esmeril. Na porta, foi afixada uma nota: “Limpeza de primavera, 2018”.

Mas as questões levantadas pelo sino dividiram a cidade. Sigrid foi chamada de traidora. A pizzaria agora recebe pedidos de “pizza nazista”. Muitos querem manter o sino, e Herxheim foi apelidada de “cidade nazista”.

O prefeito, Georg Welker, 72, quer que seja afixada uma placa com a história do sino. “É um monumento da nossa história”, ele disse. “Não podemos esquecer dessa história ou fazer de conta de que não aconteceu”.

A história nunca está distante da superfície na Alemanha, que, sob o regime nazista, assassinou seis milhões de judeus, e por muito tempo se vangloriou de assumir o próprio passado conturbado com generosa honestidade. Mas com um partido de extrema direita que agora constitui a principal oposição no Parlamento, isto ficou mais difícil.

Um líder do partido, Alternativa para a Alemanha, referiu-se recentemente à era nazista como “cocô de passarinho” da história. Desde que o sino passou a ser notícia, os neonazistas organizaram uma passeata na cidade pedindo que ele seja deixado no lugar.

Na praça da cidade, os moradores enumeraram a infraestrutura criada sob os nazistas, como a autoestrada entre Heidelberg e Mannheim, e imóveis na vizinha Freinsheim. “Acaso deveríamos destruir tudo isto?” perguntou Roland Pox. “É absurdo”.

O sino pertence à cidade, mas a torre que abriga o sino pertence à igreja. O pastor, Helmut Meinhardt, acha que o debate adquiriu um teor um tanto histérico, por exemplo, quando Sigrid diz que, quando o sino toca, ela ouve “a voz de Adolf Hitler”.

No entanto, alguns mudaram de ideia. “Eu achava que poderíamos ficar com o sino, colocar uma placa e realizar eventos anuais”, disse Bettina Heberer, bióloga e escritora. “Mas as vítimas e as famílias das vítimas dos nazistas acham este sino intolerável, e isto para mim é suficiente".

“O sino precisa ser retirado”, afirmou.

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