Andy Mann via The New York Times
Andy Mann via The New York Times
William J. Broad, The New York Times - Life/Style

01 de outubro de 2020 | 05h00

Em 2014, quando o petróleo bruto estava sendo vendido a mais de US$ 100 o barril, o custo de um novo navio de perfuração para a exploração poderia chegar a US$ 100 milhões. Por isso, quando o preço despencou, Ray Dalio, o fundador da Bridgewater Associates, uma empresa de investimentos de Westport, viu uma oportunidade.

Em 2016, adquiriu um navio pouco usado para o transporte de petróleo a um preço muito atraente e o transformou em seu sonho – uma embarcação a ser usada pela grande ciência, pela tecnologia e para contar uma grande história. O objetivo de Dalio é ajudar a humanidade a conectar-se mais intimamente com o oceano, que ele chama de “o nosso maior bem mundial”. O OceanXplorer fez recentemente sua estreia operacional, depois de levar anos para a sua reconstrução, modernização e aparelhamento. Dalio é um novo tipo de empreendedor.

Ele vê seu navio high-tech brilhando como um super astro não somente para a pesquisa oceânica, mas também para produção de vídeos, programas de televisão sobre a natureza e acontecimentos ao vivo que irão escancarar o abismo a um público inusitadamente amplo. O equipamento da embarcação e o seu programa utilizaram os dez anos de experiência que Dalio conquistou enquanto viajava pelo globo com cientistas no Alucia, seu navio de pesquisa menor. Como o novo, ele transporta mini-submarinos com cascos semelhantes a bolhas de plástico transparente que proporcionam aos mergulhadores fantásticas visões panorâmicas.

Em 2013, Dalio estava explorando as profundezas do Pacífico com cientistas da Universidade Yale, e do Museu Americano de História Natural, quando numa escuridão de breu, uma câmera recebeu uma flecha de luz. As criaturas nas redondezas se iluminavam em ondas bioluminescentes. “Foi como um espetáculo de fogos de artifício”, lembra Dalio. “Tudo estava respondendo. Foi incrível”.

Vincent Pieribone acompanhou Dalio naquela viagem. Ele é autor de Aglow in the Dark: The Revolutionary Science of Bioluminesceence, e neurocientista da Escola de Medicina de Yale, que usa a química da biofluorescência para estudar os impulsos nervosos humanos.

Dalio conversou com ele para convencê-lo a atuar como vice-presidente do OceanX, um empreendimento da Dalio Philanthropies para a exploração do oceano. Como cientista-chefe da organização, Pieribone ajudou a equipar o novo navio para investigações científicas e dirigiu grande parte do planejamento exploratório. “Andando pelo navio, literalmente chorei por causa de todas as coisas que conseguimos realizar”, afirmou recentemente.

“Parece uma coisa saída de um filme de James Bond”. Dalio é um dos filantropos bilionários, um grupo que não para de crescer, que procuram reinventar-se como patronos do progresso social por meio da pesquisa científica. Segundo a revista Forbes, o seu capital líquido é de US$ 16,9 bilhões, o que o torna um dos indivíduos mais ricos do mundo. Sua companhia, a Bridgewater Associates, costuma ser definida como o maior fundo hedge do mundo.

Dalio afirma que a sua jornada oceânica começou enquanto ele era adolescente em Long Island, Nova York, o único filho de um músico de jazz profissional e de uma dona de casa. Adorava assistir às aventuras marinha do oceanógrafo francês Jacques Cousteau pela televisão. Mais tarde, com pouco mais de 20 anos, Dalio aprendeu a mergulhar e, desde então, foi cada vez mais fundo. Um momento fundamental foi em 2011, quando aprofundou o seu relacionamento com a Woods Hole Oceanographic Institution em Cape Cod, Massachusetts.

O complexo de casas e laboratórios de tijolos tornou-se famoso por projetar o Alvin, um submergível que foi o primeiro a iluminar o Titanic e a transportar os cientistas até as nascentes termais do fundo marinho global. Os ecossistemas da escuridão dos oceanos têm abundância de caranguejos, camarões e vermes tubulares.

Dalio estava pensando em comprar o Alucia quando uma equipe de especialistas de Woods Hole usou a embarcação e um robô submarino para procurar os restos espalhados do vôo 447 da Air France, que em 2009 desapareceu enquanto sobrevoava o Atlântico Sul com 228 passageiros a bordo. Outras equipes de pesquisa fracassaram; Dalio viu no sucesso em 2011 uma indicação de promessas exploratórias neste campo.

“Era como procurar uma agulha em um palheiro”, ele disse falando da caça ao avião comercial. “Fiquei chocado e eufórico ao mesmo tempo”. Rapidamente tratou de comprar o Alucia e, no final de 2011, comprou também o seu primeiro "bubble sub", depois de fazer um test drive nas Bahamas. Quase imediatamente, os dois veículos fizeram uma descoberta importante.

A lula gigantesca – enorme e escorregadia, com os tentáculos cobertos de ventosas, e os olhos enormes que não pestanejam – é um personagem da ficção de horror, como o de Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Mas, durante muito tempo, ela enganou a ciência. Um livro de 1994 de Richard Ellis, Monster of the Sea, dizia que a criatura era tão misteriosa que “ninguém jamais viu uma lula gigante alimentar-se - na realidade, ninguém jamais viu uma lula gigante saudável fazendo coisa alguma”.

No verão de 2012, ao largo das costa do Japão, o Alucia hospedou uma equipe de cientistas que encontrou e filmou um destes animais. A descoberta provocou um estardalhaço global em 2013 nos noticiários e documentários.

O filho mais novo de Dalio, Mark, era então produtor associado da rede de televisão da National Geogreaphic. Fascinado pela caça à lula, ele convenceu o pai a financiar uma empresa multimídia, a Alucia Productions, que faria a crônica da pesquisa do Alucia. Em 2017, o navio apareceu na série do documentário da BBC Blue Planet II, que gerou um aumento das solicitações para o estudo da biologia marinha.

Naquela altura, Dalio havia adquirido o navio de perfuração e o estava transformando em mais um laboratório móvel para a ciência das profundezas e de educação do público. Aconselhado por especialistas, ele não só recorreu ao filho, ao Woods Hole e a Pieribone de Yale, como também ao diretor de cinema James Cameron.

O magnata hollywoodiano conhecia a ciência e a tecnologia marinha, porque havia mergulhado no ponto mais profundo do oceano em uma embarcação submarina que ele mesmo projetara e que posteriormente doou ao Woods Hole. Entre outras coisas, Cameron sugeriu bancos de luz que iluminariam não apenas as criaturas marinhas, objetos do estudo, como também os especialistas que as estudavam.

No ano passado, ele contou à revista Variety que o navio gigantesco serviria de set e iluminaria a paixão que impulsionou a exploração do oceano. “Vocês enfrentarão adversidades e desafios psicológicos”, ele disse. “A tripulação ficará decepcionada, os exploradores ficarão decepcionados. Mas para cada desapontamento ou desafio, haverá um momento de descoberta. Vocês querem levar o público na montanha russa que é esta jornada, porque a exploração é exatamente isto”.

A viagem inaugural do navio é mostrada em Mission Ocean-X, uma série em seis partes para a National Gographic. A BBC e a OceanX Media (anteriormente Alucia Productions) estão produzindo a série, e Cameron é um produtor-executivo. O OceanXplorer, que foi reconfigurado e equipado na Europa, hoje está na fase dos testes no mar. As filmagens devem começar no início do próximo ano.

Há muito tempo, Dalio considera as pesquisas oceânicas mais importantes do que a exploração espacial – por exemplo, em seu best-seller de 2017, Principles: Life and Work. “O retorno sobre os investimentos é muito maior”, ele disse na entrevista, referindo-se à exploração oceânica. Um enigma do mundo moderno, acrescentou Dalio, é por quê a compreensão e a proteção do oceano recebem relativamente poucos lucros, tempo e esforços em comparação com o espaço. “Em termos de emoção e importância, não há comparação”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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