Scott McIntyre para The New York Times
Scott McIntyre para The New York Times

Submarinos translúcidos trazem vislumbre do fundo do mar

As gigantescas esferas de plástico estão abrindo os olhos de todos para as profundezas escuras do oceano e levando a novas descobertas

William J. Broad, The New York Times

26 de novembro de 2019 | 06h00

O biólogo marinho Bruce H. Robison, do Instituto de Pesquisas do Aquário da Baía de Monterey, na Califórnia, começou a vasculhar as profundezas do Pacífico em uma embarcação revolucionária em 1985. Era uma imensa bolha de plástico translúcido que dava ao ocupante uma visão panorâmica incrível, em vez de exigir do observador que olhasse por um buraquinho. “Foi algo incrivelmente transformador", disse recentemente Robison. “A profusão de formas de vida foi muito maior do que o imaginado.”

A escuridão do oceano estava viva. “Foi impressionante ver toda aquela bioluminescência e perceber o quanto ela é uma forma de comunicação importante", disse ele. “É algo que muda nossa perspectiva.” Passadas mais de três décadas, milhares de pessoas estão conhecendo o panorama do fundo do mar. Enquanto Elon Musk e Jeff Bezos fazem avançar a viagem espacial, outros empreendedores seguem na direção oposta, buscando expandir a exploração do oceano

“Eles vão cada vez mais fundo", disse Will Kohnen, da Sociedade de Tecnologia Marinha, uma associação profissional. Ele acrescentou que boa parte da atividade nasce da preocupação com a saúde do oceano: “As pessoas querem ver em primeira mão. Há um interesse em ligar-se ao mar".

A geração atual de submarinos-bolha pode alcançar profundidades de quase três mil metros, muito abaixo do último raio de luz do Sol, abrigando até sete pessoas. Bolhas maiores, capazes de ir ainda mais fundo, estão nos planos. As gigantescas esferas (ou, em um dos casos, um hemisfério) de plástico estão abrindo os olhos de todos para as profundezas escuras do oceano e levando a novas descobertas. Em 2012, um submarino-bolha perto do Japão capturou pela primeira vez um vídeo de uma lula gigante, uma criatura cheia de tentáculos. 

Em 2016, um mergulho perto dos Açores (Portugal) encontrou uma fêmea de peixe-sapo acasalando-se com o macho, muito menor. Biólogos marinhos celebraram o vídeo por mostrar segredos do comportamento do peixe-sapo, conhecido por agitar uma isca bioluminescente diante dos dentes pontiagudos como agulhas.

Em meados do ano, cientistas dentro de uma bolha perto das Bahamas afixaram uma etiqueta de satélite a um tubarão-albafar, gigante anterior à maioria dos dinossauros. De acordo com os cientistas, a etiquetagem nas profundezas proporcionaria um rastreamento mais preciso.

Os submarinos são o resultado de avanços na eletrônica e na ciência de materiais. De acordo com a Triton Submarines, empresa de submarinos-bolha com sede em Sebastian, Flórida, 2,7 mil quilos de acrílico são usados na construção de uma bolha de plástico com dois metros de largura e paredes de espessura de aproximadamente 16 cm. A embarcação é capaz de levar seus ocupantes a uma profundidade de mil metros. A bolha pilotada por Robison em 1985, batizada de Deep Rover, foi projetada por Graham Hawkes, da Deep Ocean Engineering, na Califórnia.

Outros projetistas seguiram o mesmo rumo. Uma equipe oceanográfica da Costa Rica usa uma bolha feita pela SEAmagine Hydrospace, com sede na Califórnia, para turismo e pesquisas de biodiversidade há mais de uma década. O desenvolvimento de bolhas é impulsionado atualmente principalmente pelos ricos - em geral, donos de super-iates, que podem custar US$ 100 milhões ou mais. Uma bolha custa entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões. 

O bilionário, empreendedor e filantropo Chris Cline, morto em um acidente de helicóptero em julho, encomendou uma bolha para seu super-iate há mais de dez anos. Outro dos primeiros entusiastas foi Ray Dalio, fundador da firma de investimentos Bridgewater Associates, de Westport, Connecticut. Com seu super-iate e seu submarino Triton ele se tornou o primeiro a filmar uma lula gigante, em 2012.

Em setembro, a Triton anunciou que o bilionário norueguês Kjell Inge Røkke, que ganhou sua fortuna com a pesca comercial, está comprando uma bolha capaz de alcançar profundidade de 2.286 metros. Seria um recorde de profundidade para uma esfera de plástico. Sua fundação oceânica planeja usar embarcações para três passageiros, com paredes de 30 centímetros de espessura, voltadas para pesquisas científicas.

Em um material de divulgação intitulado Luxury Submersibles (Submarinos de Luxo), a Triton anuncia um modelo com capacidade para sete pessoas - um piloto mais seis passageiros - que pode ser operado a partir de um cruzeiro. Kelly Downey, porta-voz da Triton, disse que a empresa acaba de receber sua primeira encomenda, mas não poderia revelar o nome do comprador. De acordo com ela, a bolha mergulhará até uma profundidade de 500 metros.

Em abril, o rico investidor Victor L. Vescovo pilotou um veículo da Triton até uma profundidade de quase 11 quilômetros até a fissura mais profunda da Terra, conhecida como Depressão Challenger. A embarcação era feita de titânio, um metal superforte, e tinha três escotilhas de observação do tamanho de pratos de jantar.

A Triton propôs a construção de um resort de luxo subaquático chamado Poseidon. Ficaria situado no fundo de uma laguna em Fiji, ao lado de um recife de coral, com 24 quartos para hóspedes - não seriam bolhas, e sim redomas de plástico. A ascensão dos submarinos-bolha promete facilitar a exploração nas próximas décadas.

“Independentemente de quem estiver no timão", disse Robison, “sejam sujeitos ricos com seus iates ou cientistas munidos de instrumentos, o fato é que a evolução da tecnologia significa que será muito mais fácil realizar pesquisas desse tipo no futuro". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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