F. Bongers / The New York Times
F. Bongers / The New York Times

Substância utilizada em perfumes e remédios está à beira da extinção

Resina aromática que está na composição do Chanel Nº 5, por exemplo, o franquincenso deve desaparecer em breve, segundo publicação da revista 'Nature Sustainability'

Joanna Klein, The New York Times

29 de julho de 2019 | 06h00

Há milhares de anos as culturas do mundo inteiro reverenciaram o doce aroma do franquincenso. No antigo Egito, os embalsamadores o colocavam no interior dos corpos e nos túmulos de reis e rainhas, e as suas cinzas moídas eram utilizadas nos delineadores para os olhos. Hoje, é encontrado em lojas de medicina natural, de produtos para o culto, em butiques personalizadas, e online. A Sephora, grande cadeia de produtos de toucador, vende o óleo essencial e perfumes caros que o contêm em sua composição, como o Chanel No. 5.

Mas o franquincenso poderá desaparecer em breve, adverte um estudo publicado na edição de 3 de julho da revista Nature Sustainability. “A primeira vez em que falei da ameaça ao franquincenso, houve pânico”, disse Frans Bongers, ecologista da Wageningen University and Research da Holanda, que realizou o estudo. “Muitas pessoas me perguntam a este respeito”, inclusive o clero católico, que o usa nos serviços religiosos.

O franquincenso, ou olíbano, é uma resina aromática usada no incenso, em perfumes e em remédios naturais. Ele deriva da Boswellia, um gênero de árvores e arbustos que crescem no Chifre da África, na Península Arábica e em partes da Índia.

Para se extrair o franquincenso, são feitas incisões na casca de algumas espécies da árvore Boswellia madura, de modo que a resina escorre como sangue de uma ferida. Em seguida, ela seca na forma de uma cicatriz de resina, que é colhida e vendida no seu estado natural ou transformada em óleo ou incenso. Anualmente, são exportados milhares de toneladas do franquincenso. Mas o aumento da demanda, a exploração excessiva e a degradação do ecossistema estão levando a população deste vegetal ao colapso. 

Os autores do estudo calculam que, se não forem plantadas novas mudas substituindo as velhas, a metade das florestas intactas - e metade do franquincenso que elas produzem - desaparecerá no prazo de 20 anos. Bongers e os seus colegas monitoraram a Boswellia papyrifera - a espécie que produz a maior parte do franquincenso do mundo - na Eritreia, Etiópia, Sudão e Darfur. As florestas são antigas e estão morrendo, e a maioria delas não produz uma árvore nova há meio século.

O problema, constataram, é o crescimento da população humana.O homem queima as florestas para o cultivo da terra e permite que o gado paste nas florestas alimentando-se dos brotos. Por outro lado, o aumento da demanda incentiva uma mão de obra pobre que extrai a resina das árvores, e dependem do franquincenso para viver, colha o máximo possível em um espaço de tempo muito curto. Isto deixa as árvores excessivamente  enfraquecidas e vulneráveis a pragas e à morte prematura.

Anjanette DeCarlo, ambientalista da Universidade de Vermont, que não participou do estudo, trabalhou com o franquincenso na Somália. Ela sugere que os proprietários de terras sejam autorizados a formar plantações a fim de não pressionar as florestas. Já existem plantações desta espécie em Omã, e, na Somália, ela plantou viveiros com árvores que dentro em breve estarão disponíveis para patrocínio. Salvar estas árvores raras, afirmou, também contribui para proteger o seu habitat ameaçado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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