Hilary Swift|The New York Times
Hilary Swift|The New York Times

Sucesso nos Jogos de Inverno causa desconforto à Noruega

As consecutivas vitórias dos noruegueses na modalidade esqui cross-country aumentam os temores de que outros países percam o interesse pelo esporte

David Segal, The New York Times

01 Março 2018 | 10h08

PYEONGCHANG, Coreia do Sul - Superando até mesmo suas próprias expectativas elevadas, a Noruega apresentou o melhor desempenho da história das Jogos de Inverno, conquistando um total de 39 medalhas, das quais, 14 de ouro. Um país de apenas 5 milhões de habitantes esmagou todos os pretendentes, incluindo potências esportivas como Alemanha e Estados Unidos, nas modalidades mais importantes para os noruegueses.

Em outro lugar, esse resultado histórico seria pretexto para desfiles de rua do tipo que faz desconhecidos de abraçarem em comemoração. Na Noruega, a celebração foi mais contida.

"Sempre queremos vencer", disse Fredrik Aukland, comentarista de TV na Noruega. "Mas a modéstia é uma parte importante da cultura local".

Os atletas da Noruega conquistaram 14 medalhas no esqui cross-country, seis no biatlo, cinco no salto com esqui, sete no esqui alpino, quatro em patinação de velocidade e três em outras modalidades. O resultado deve trazer de volta as preocupações que acompanharam o sucesso da Noruega no passado, com alguns temendo que o domínio do país nesses esportes possa arruiná-los.

Essa ansiedade é mais pronunciada no caso do esqui cross-country, que é adorado com um fervor que remonta a séculos. Os noruegueses temem que a falta de resultados equilibrados possa demolir o entusiasmo pelo esporte nos países que são sistematicamente derrotados.

A atleta olímpica polonesa Justyna Kowalczyk, que participou dos jogos em Pyeong-chang, descreve a situação como um paradoxo. A Noruega pode amar o esqui cross-country a ponto de sufocar o esporte.

"É ótimo que eles tenham um amplo orçamento, grandes patrocinadores e que todos na Noruega gostem de esquiar", disse Justyna, que ganhou cinco medalhas olímpicas. "Mas isso torna a disputa muito difícil para países como a Polônia".

O predomínio de um país numa modalidade esportiva não é incomum. A Holanda domina a patinação de velocidade, por exemplo, e os Estados Unidos dominam o basquete. A diferença está no fato de os noruegueses dizerem que gostariam de ver o esqui cross-country conquistar muitos fãs pelo mundo, e isso significa nutrir um público televisivo.

As corridas de cross-country são transmitidas pela TV todo fim de semana, de novembro a meados de abril, em grandes partes da Europa. Nos diferentes países, a audiência aumenta quando há atletas locais participando, e diminui quando estes não estão no páreo.

Desde 2011, quando a ascensão da Noruega teve início, os números da audiência encolheram cerca de 40%, disse Jurg Capol, diretor de marketing da Federação Internacional de Esqui. "Se o atleta que representa seu país termina sempre em 23º lugar, a probabilidade de o público desse país se interessar diminui", disse ele. "O importante é o resultado".

Para crescer, o esqui cross-country precisa de heróis nacionais em países como a Alemanha, com uma população de mais de 82 milhões de pessoas. E embora EUA, Suécia e outros países tenham conquistado recentemente títulos importantes, os noruegueses ficaram com o ouro em todas as cinco modalidades femininas do campeonato mundial realizado na Finlândia no ano passado, conquistando um total de 18 medalhas, mais que qualquer outro país.

Em vez de conter seus atletas, a Noruega tenta aperfeiçoar o nível da concorrência. Faz sete anos que o país convida atletas de todo o mundo para uma visita de uma semana a um centro de treinamento.

"Mostramos a eles o que funciona para nós", explicou Erik Roste, presidente da Federação Norueguesa de Esqui. "Não temos um modelo pronto, mas acreditamos que essa é nossa responsabilidade para com a comunidade internacional, e queremos ser abertos. Queremos compartilhar nosso conhecimento".

O domínio do país tem origem numa série de fatores, e o principal está ligado à cultura local. Num país de população pequena, coberto pela neve, um par de esquis pode ser indispensável, e muitas crianças começam a praticar ainda pequenas.

Nos níveis de desempenho mais altos, o esporte recebe patrocínio de bancos, empresas de petróleo e seguradoras. Esses benfeitores ajudam a financiar a pesquisa e o desenvolvimento de equipamentos caros, como um caminhão especializado de dois andares e US$ 1 milhão usado para o transporte dos esquis e demais aparatos.

A combinação de tradição, treinamento e suporte é quase impossível de ser igualada por outros países, e é por isso que, em Pyeongchang, quando outros países venciam, os atletas noruegueses pareciam quase aliviados de ceder parte dos holofotes. Marit Bjoergen se tornou a atleta mais vitoriosa da história das Jogos de Inverno quando conquistou sua 14ª medalha na corrida de equipes. Ela ficou com o bronze. O ouro foi para os EUA, e a prata, para a Suécia.

Depois da corrida, Marit parecia satisfeita com o resultado. "É claro que lutamos pelo ouro", disse ela. "Mas é ótimo ver os EUA no pódio. É importante para o esporte".

 

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