Declan Walsh/The New York Times
Declan Walsh/The New York Times

Sudão depõe ditador, mas outro assume o poder

O general Hamdan, agora no posto mais alto do país, foi o executor das ordens do presidente Omar Hassan al-Bashir, o brutal déspota que governou por 30 anos

Declan Walsh, The New York Times

20 de junho de 2019 | 06h00

CARTUM, SUDÃO - Outrora comerciante de camelos que liderou um genocídio em Darfur, o general Mohamed Hamdan agora está no posto mais alto do poder no Sudão, vigiando as ruas do alto do seu gabinete, no quartel-general do exército na capital. Dali, ele pode ver o local onde sua unidade, as Forças de Intervenção Rápida paramilitares, dispersaram milhares de pessoas que participavam de um protesto em favor da democracia em uma onda de violência que começou no dia 3 de junho. As tropas queimaram barracas, estupraram mulheres e mataram dezenas de pessoas, algumas afogadas no Nilo, segundo testemunhas.

A violência consolidou a ascensão do general Hamdan, conhecido como Hemeti, que, segundo a maioria, hoje é o governante de fato do Sudão. “Durante anos, Hemeti matou e incendiou em Darfur”, afirmou Alaa Salah, a jovem de 22 anos que transmitia as palavras de ordem aos manifestantes de cima de um carro, chamando a atenção mundial para a revolução no Sudão. “Agora Darfur chegou a Cartum”.

O general Hamdan foi o executor das ordens do presidente Omar Hassan al-Bashir, o brutal ditador que liderou o Sudão por 30 anos. Quando os protestos tomaram as ruas em abril, exigindo a saída de al-Bashir, militares o derrubaram. Mas quando o povo reivindicou a transição imediata para um governo civil, os generais recusaram. Com o impasse das conversações sobre a divisão do poder, no dia 3 de junho, as Forças de Intervenção Rápida começaram a repressão. Médicos sudaneses afirmam que o número total de mortos foi 118.

“Se eu não assumisse esta posição, o país mergulharia no caos”, declarou o general Hamdan, de 45 anos, em uma rara entrevista a um jornalista ocidental. Ele não respondeu às perguntas sobre as acusações de que as suas tropas cometeram atrocidades, mas referiu-se a uma investigação em curso, que, afirmou, dentro em breve apresentará os seus resultados.

O general disse que as suas tropas foram levadas a agir por “provocações inimagináveis”, na sua opinião. “Um manifestante tirou isto”, disse, apontando para a genitália, “e o agitou diante dos soldados. O nosso veículo foi destroçado na nossa frente, e eles filmaram tudo ao vivo. Houve inúmeras provocações”.

O Sudão está formalmente sob o governo do general Abdel Fattah al-Burhan, um oficial do exército mais velho. Ele é o chefe do Conselho Militar de Transição que tomou o poder de al-Bashir no dia 11 de abril. Mas poucos duvidam de que o general Hamdan seja quem manda na realidade. Sob o seu controle, as Forças de Intervenção Rápida esmagaram os levantes no Sudão, e atuaram como mercenárias no Iêmen como parte da coalizão liderada pelos sudaneses.  

A guerra o tornou um homem rico. Diante da condenação internacional, os oficiais tentam apresentar uma explicação para a violência do dia 3 de junho. O general Nooreldeen Ahmed, que chefia a unidade de direitos humanos da força, declarou que os relatos de atrocidades não passam de fake news. Os manifestantes afirmam ter imagens que documentam as matanças e os espancamentos. Mas como a internet foi fechada, não podem distribuí-las.

Sulaima Sharif, diretora do Centro de Traumas Ahfad em Cartum, disse que a sua equipe tratou dezenas de mulheres que sofreram abusos pelas Forças de Intervenção este mês. Cerca de 15 delas foram estupradas, embora ela acredite que o número real seja muito maior.

Há sinais de que o poder do general em Cartum provocou a ira do exército regular, onde alguns o consideram um descarado arrogante. As tensões explodiram no dia 13 de junho, quando o Conselho Militar de Transição declarou ter frustrado um suposto complô para assumir o governo liderado por oficiais militares. Mas derrubá-lo, exigirá que o exército dê início a uma guerra civil nas ruas de Cartum, afirmou um funcionário ocidental que pediu para não ser identificado. Algo aparentemente improvável por enquanto, segundo ele.

Os generais estão unidos por poderosos interesses econômicos. Sob al-Bashir, eles controlavam inteiros setores da economia, disse Suliman Baldo, do Projeto Enough, que busca pôr fim às atrocidades em zonas de conflito africanas. “Isto não tem nada a ver como poder, mas com o dinheiro”, destacou. “Os comandantes do exército e Hemeti afundaram até o pescoço na corrupção - é por isso que têm tolerância zero por um governo civil no Sudão”./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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