Yael Malka The New York Times
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No Central Park, o primeiro monumento representando uma mulher histórica

Parque tem sido um lar para estátuas de homens, principalmente brancos, e de personagens femininas fictícias

Alisha Haridasani Gupta, The New York Times - Life/Style

29 de agosto de 2020 | 05h00

NOVA YORK – Nos Estados Unidos, os monumentos que homenageiam personagens racistas estão sendo desfigurados e derrubados. No Central Park de Nova York, uma estátua está tomando forma com o objetivo de corrigir não apenas a disparidade racial, mas também a de gênero na arte pública: um monumento de bronze de 4,2 metros de altura retratando Susan B. Anthony, Sojourner Truth e Elizabeth Cady Stanton, três relevantes líderes da luta nacional pelo direito das mulheres ao voto.

Chamado de Monumento às Pioneiras dos Direitos da Mulher, ele será inaugurado em 26 de agosto para comemorar o 100º aniversário da emenda constitucional que finalmente garantiu às mulheres o direito ao voto. A escultura retrata as três figuras reunidas em torno de uma mesa no que parece ser uma discussão ou uma reunião de estratégia. Anthony está no meio, segurando um panfleto com a frase "Votos para mulheres"; Stanton, sentada à sua esquerda, segura uma caneta, provavelmente fazendo anotações; e Truth parece estar no meio de uma frase.

"Eu queria mostrar as mulheres trabalhando juntas. Ficava pensando nas mulheres agora, trabalhando juntas em alguma cozinha em um laptop, tentando mudar o mundo", disse Meredith Bergmann, a escultora escolhida entre dezenas de artistas para criar a estátua.

Será o primeiro – e único – monumento do parque em homenagem às mulheres reais, localizado na Caminhada Literária. Em seus 167 anos de história, o parque tem sido um lar arborizado e exuberante para cerca de duas dúzias de estátuas de homens, principalmente brancos, e de personagens femininas fictícias ou míticas (Alice no País das Maravilhas, Julieta de Shakespeare e o Anjo das Águas, a mulher no topo da Fonte Betesda), mas não há uma estátua de uma mulher histórica.

A cidade de Nova York como um todo também não foi muito inclusiva: das 150 estátuas em homenagem a personagens históricos, apenas cinco retratam mulheres, de acordo com a She Built NYC, a campanha oficial da cidade, iniciada no ano passado, para aumentar a representação feminina na arte pública. E, em 2011, pouco mais de sete por cento das quase 5,2 mil estátuas públicas ao ar livre de todo o país representavam mulheres, de acordo com o Catálogo de Inventários de Arte do Museu de Arte Americana Smithsonian.

"O fato é que ninguém, por muito tempo, nem sequer percebeu que faltavam mulheres no Central Park – o que isso diz sobre a invisibilidade delas? Há uma responsabilidade não apenas de criar uma bela obra de arte, mas também de fazer com que essa arte reflita a realidade da vida de todas as pessoas que a veem", comentou Pam Elam, presidente da Monumental Women.

Em 2014, um grupo de voluntários criou a Monumental Women (inicialmente chamada de Elizabeth Cady Stanton and Susan B. Anthony Statue Fund Inc.), uma organização sem fins lucrativos com a missão de fazer campanha e levantar fundos para a estátua sufragista do Central Park. Mas a jornada, do conceito à criação, acabou sendo longa e tortuosa, cheia de críticas e de contratempos.

Bergmann disse que foi um trabalho monumental de "muita humildade" e acrescentou que cada decisão criativa foi cuidadosamente considerada. Na fase de pesquisa, Bergmann, que em 2003 criou o Memorial às Mulheres de Boston, com Abigail Adams, Phillis Wheatley e Lucy Stone, leu muito e conversou com a tataraneta de Stanton, Coline Jenkins-Sahlin, para entender melhor a questão.

Em seguida, ela passou meses criando modelos de argila do monumento, e, depois de aprovados, fazendo os diferentes moldes para o metal fundido. Para o rosto das mulheres, ela consultou diversas fontes. "Nunca copio uma fotografia, mas reúno todas as fotos disponíveis e as estudo, procurando criar um rosto que expresse mais de um momento na vida dessa pessoa, com indícios de seu rosto jovem, de seu rosto mais velho, de seu rosto zangado e de seu rosto feliz", observou a artista.

Suas roupas trazem algumas surpresas – símbolos e pistas que falam do contexto social ou da personalidade delas. Bergmann explicou que girassóis foram esculpidos no vestido de Stanton porque ela usou o pseudônimo Sunflower (girassol, em inglês) ao escrever editoriais para o jornal "The Lily", de Seneca Falls, em Nova York. Anthony tem um camafeu em volta do pescoço representando Minerva – a deusa romana da estratégia e da sabedoria. Truth foi esculpida vestindo seu característico xale – a franja dele parece estar voando ao vento – e uma jaqueta de brocado listrada com coroas de louros, simbolizando a vitória e a honra.

O fato de todas estarem de saia longa e vestido também é significativo. No fim do século XIX e no início do século XX, as mulheres que lutavam por reformas sociais – incluindo Stanton – adotaram o que ficou conhecido como o "traje Bloomer": um vestido na altura do joelho sobre calças, que oferecia mais liberdade e alívio do que o apertado espartilho e o vestido que ia até o chão e era o padrão da época.

"Stanton disse uma vez como era maravilhoso poder subir um lance de escada segurando um bebê em um braço e uma vela no outro sem ter de segurar cinco quilos de saia de lã e a anágua", contou Bergmann. Mas o vestuário era tão radicalmente distante da norma que acabava provocando intensa chacota e desviava o foco das conversas mais amplas sobre os direitos da mulher; assim, aquelas que lutavam pelo sufrágio desistiram de usá-lo. Bergmann comentou que isso influenciou sua escolha de representá-las vestindo uma volumosa saia.

Embora a campanha para instalar a estátua tenha levado mais de seis anos (sete, se você incluir os meses de discussão que antecederam a criação da organização sem fins lucrativos), a Monumental Women selecionou o projeto de Bergmann em 2018, dando à artista dois anos – um período curto no mundo da escultura, de acordo com a artista – para dar vida às sufragistas.

A proposta aprovada consistia em retratar Anthony e Stanton ao lado de um longo pergaminho descendo a mesa de trabalho e trazendo citações de mais de 20 outras sufragistas. "A encomenda inicial era para uma estátua dessas duas mulheres", informou Bergmann, e o pergaminho, que incluía citações de 11 mulheres negras (incluindo a educadora Anna Julia Cooper e a jornalista Ida B. Wells), era uma maneira de também reconhecer as muitas outras sufragistas do movimento.

O edital original da encomenda dizia que a escultura deveria "honrar a memória de outras pessoas, além de Stanton e Anthony, que ajudaram a promover a causa do sufrágio feminino durante a batalha de 72 anos".

Mas, ao aprovar o design de Bergmann, em março passado, a Comissão de Design Público da cidade pediu à artista que abrisse mão do pergaminho e se concentrasse apenas em Anthony e Stanton, explicou Elam. O projeto também foi fortemente criticado por colocar apenas mulheres brancas no pedestal – continuando, em essência, com o apagamento das contribuições das mulheres negras ao movimento sufragista.

"Essa questão não foi fácil. Tudo começou com o departamento de parques, depois foi para o Central Park Conservancy, em seguida para a Comissão de Design Público e enfim para a Comissão de Preservação de Marcos e todos os conselhos comunitários que cercam o Central Park. Não deveria ter sido tão difícil", disse Elam.

Em agosto passado, na esteira da polêmica, a Monumental Women mudou o foco e decidiu incluir uma terceira personagem – Truth, a abolicionista e sufragista negra. A comissão aprovou o novo design em outubro, dando a Bergmann menos de um ano para criar o novo conceito da escultura. Até agora, o grupo declarou já ter arrecadado um total de US$ 1,5 milhão para a estátua e não recebeu dinheiro algum da cidade.

Ao revelar a estátua no fim deste mês (em uma cerimônia às oito da manhã do dia 26 de agosto), a Monumental Women planeja lançar um desafio aos municípios de todo o país para incluir mais mulheres e pessoas não brancas no espaço público. Parte da missão da organização é ajudar outras comunidades a enfrentar os obstáculos burocráticos que surgirem. Ela também lançará uma campanha educacional on-line e propôs fornecer livros sobre a história das mulheres à biblioteca de todas as escolas públicas de Nova York.

"Para as pessoas que pensarem 'certo, vocês quebraram o teto de bronze (expressão que se refere ao fato de a maioria das estátuas públicas ser de personagens masculinos), que bom para vocês, agora seu trabalho acabou' – não, certamente não, estamos aqui para ficar", completou Elam.

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