Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

'Eu queria morrer': Irlanda do Norte confronta uma crise de suicídio

Assombrado por um passado violento, país tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo

Ceylan Yeginsu, The New York Times

06 de dezembro de 2019 | 06h00

LURGAN, IRLANDA DO NORTE - Em uma fria noite de fevereiro de 2001, enquanto caminhava pelas pedrinhas da praia de Newcastle, Irlanda do Norte, Joe Holbeach imaginou-se arrebatado pela violenta maré e afogando-se. Dias mais tarde, ele se viu diante de uma queda considerável, buscando a coragem para pular.

Ele não foi adiante, mas, como muitos outros sobreviventes da violência paramilitar da turbulenta época dos Troubles na Irlanda do Norte, sofre de distúrbio de estresse pós-traumático (PTSD). Até hoje ele luta contra os demônios que lhe pedem para tirar a própria vida.

Vinte anos após o acordo de Belfast, que pôs fim aos Troubles, a Irlanda do Norte apresenta um dos índices de suicídio mais altos do mundo. Os especialistas apontam para fatores como pobreza, falta de recursos para os serviços de saúde mental e uma alta recente na violência paramilitar. Mas eles dizem que uma das principais causas é o estresse pós-traumático.

Holbeach está entre as milhares de pessoas pegas no fogo cruzado da guerra de guerrilha na Irlanda do Norte, onde atentados a bomba, tiroteios e mutilações fizeram parte do cotidiano por quase três décadas. Os sintomas se manifestam sob a forma de flashbacks, sensações de intensa aflição emocional, depressão e ansiedade, que levam ao comportamento suicida.

“(Em um dia, em 2001) Não aguentei mais, fui direto ao ponto mais fundo do Lago Craigavone e me joguei na água. Eu queria me afogar, queria morrer", disse Holbeach . A Irlanda do Norte apresenta o mais alto índice de suicídios na Grã-Bretanha, com 18,5 casos de suicídio para cada 100 mil habitantes em 2017, de acordo com a Agência de Estatística e Pesquisa da Irlanda do Norte, colocando o país entre os 15 piores do mundo. Entre os homens, o índice está se aproximando de 30. Na Inglaterra, o índice é metade disso, com 9,2 casos a cada 100 mil pessoas.

A incidência de suicídios na Irlanda do Norte dobrou depois que os grupos militantes da região firmaram o acordo de paz. “Quando os Troubles chegaram ao fim, muitos tiveram dificuldade para entender qual o motivo de tanta briga e qual tinha sido o ganho com isso. Foi então que os suicídios se tornaram mais frequentes", disse a professora Siobhan O’Neill, da Universidade do Ulster.

Incertezas causadas pelo Brexit e o colapso da coalizão que partilhava o poder na Irlanda do Norte ameaçam a frágil paz na região. Espancamentos disciplinares ao estilo paramilitar - principalmente como forma de castigar os jovens por infrações como crimes menores e tráfico de drogas - aumentaram 60% no ano passado, alta que, de acordo com os especialistas, contribuiu para o elevado índice de suicídios.

Naquele dia, em 2001, Holbeach foi visto por pescadores, que o trouxeram até a praia. Enquanto se afogava, Holbeach tinha flashbacks do dia 8 de novembro de 1987, quando foi à cidade de Enniskillen para participar de uma homenagem a soldados britânicos e uma bomba plantada por militantes do IRA explodiu perto dele. “Todos estavam reunidos - amigos, parentes, crianças - e, de repente, houve uma grande explosão", lembrou ele. Suas mãos começaram a tremer. “Pensei que tivesse morrido.” O ataque deixou 12 mortos e mais de 60 feridos.

“Cavei entre os escombros e consegui sair dali", disse Holbeach. “Passei por corpos estirados no chão como se fossem de papelão, sangue e membros por toda parte.” Hoje, uma resposta silenciosa e estoica envolve o suicídio, especialmente nas comunidades católicas, para as quais tirar a própria vida é algo geralmente considerado pecado.

Eamonn Baker, que trabalha para uma fundação de construção da paz e dedicou a vida à solução de conflitos, ainda vive assombrado pelos eventos que vivenciou na sua cidade natal, Derry, no dia 30 de janeiro de 1972 - o Domingo Sangrento, um dos dias mais violentos de todo o conflito.

Ele lidou com o trauma mergulhando no álcool. Mas, agora, busca uma abordagem positiva, trabalhando para aproximar pessoas de ambos os lados do conflito para estabelecer um diálogo. Para muitos, o processo de reconciliação foi catártico, mas outros têm dificuldade com suas emoções. “O passado pesa como uma pedra no presente", disse Baker. “Viver no presente é um grande desafio.”/ Allison McCann contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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