Tasneem Alsultan para The New York Times
Tasneem Alsultan para The New York Times

Sul-africanos arriscam a vida pela lucrativa pesca de abalone

Atraídos pela esperança de altos ganhos, mergulhadores inexperientes são vítimas de afogamento ou de ataques de tubarões na costa do país

Kimon de Greef, The New York Times

07 Abril 2018 | 10h15

HANGBERG, ÁFRICA DO SUL - Um homem desapareceu enquanto mergulhava à meia-noite. Outro foi atacado por um tubarão. Mais dois morreram afogados, um com trajes de mergulhador que não estava qualificado a usar.

Os quatro homens mortos nos últimos meses foram vítimas de uma comércio ilícito muito arraigado: a pesca furtiva de abalone, uma iguaria marinha vendida a preços exorbitantes na Ásia.

Encontrar o molusco, que outrora cobria os recifes da África do Sul, tornou-se mais difícil em consequência da pesca excessiva, que atrai mergulhadores inexperientes a águas profundas e mortais.

“Os antigos recifes foram afetados pela pesca indiscriminada e não tiveram tempo para se recuperar”, afirmou um mergulhador de Hanberg, uma pobre comunidade de pescadores na Cidade do Cabo, que pediu para não ser identificado por não querer chamar a atenção da polícia para a sua atividade ilegal.

Como os estoques do molusco estão em declínio na África do Sul, as cotas legais para a coleta fixadas pelo país são rigorosamente aplicadas. Mas em Hangberg, centenas de famílias dependem do mercado negro do abalone para sobreviver, porque o fechamento das fábricas e o fim da pesca comercial contribuíram para o aumento do desemprego.

O que provocou o aumento da exportação do molusco é a ascensão da classe média na China, ansiosa por consumir alimentos que dão status. Há mais de dois mil anos, o abalone é servido em ocasiões especiais e homenagear os convidados, quando os anfitriões se orgulham de oferecê-lo ao lado de outros pratos considerados inigualáveis, como a barbatana de tubarão e o pepino do mar. Ele tem um sabor delicado, amanteigado, e, quando preparado corretamente, sua carne é tenra.

Uma das espécies de abalone mais caras do mundo , o Haliotis midae, só é encontrada as praias do sul e do oeste da África do Sul, onde o seu valor muito elevado é alimentado por uma epidemia de pesca ilegal desde o fim do apartheid, no início dos anos 1990.

Quando o abalone era mais abundante mais perto da praia, a maior ameaça para os pescadores ilegais era a prisão. As autoridades continuam patrulhando os últimos trechos onde o molusco ainda pode ser encontrado. Apesar da perspectiva de multas e de condenação à prisão, o contrabando do abalone tornou-se uma parte importante da economia clandestina em muitas comunidades de pescadores.

Enquanto os que cometem a infração pela primeira vez podem ser obrigados a pagar multas de apenas US$ 10, as penalidades para os chefões podem chegar a US$ 10 mil, com penas de prisão de mais de 15 anos. Entretanto, raramente ultrapassam um ano, e as sentenças são raras.

Perto da cidade de Gansbaai, mergulhadores inexperientes nadam cerca de três quilômetros até Dyer Island, um lugar muito procurado para o mergulho em gaiolas para a pesca do tubarão, a fim de caçar em leitos de abalone praticamente intocados. Em setembro do ano passado, um mergulhador foi arrastado para a morte por um grande tubarão branco sob os olhos de outros pescadores ilegais.

Encontrar um emprego formal é difícil em Hangberg, um grupo de pequenas habitações do governo e de cabanas onde termina um caminho de terra, por isso, muitos homens começaram a mergulhar para caçar o abalone, afirmaram moradores.

“O trabalho é muito perigoso, mas os homens fazem isso por causa do dinheiro”, disse um sacerdote local, Jonathan Xama. “Na igreja, nós oramos por sua segurança. Este trabalho não é bom para ninguém”.

Em fevereiro, um homem morreu tentando pescar ao largo da Cidade do Cabo. Sua viúva disse que ele procurava ganhar dinheiro para impedir que os filhos do casal fossem levados pelo serviço social.

No início da cadeia de oferta da pesca ilegal os mergulhadores recebem cerca de US$ 33 pela carne sem casca.

Uma coleta razoável de 16 quilos rende US$ 525, quase o dobro do mínimo mensal na África do Sul, de US$ 295. Quando o abalone era mais abundante, era comum os mergulhadores colherem 70 quilos em um único mergulho.

Para os mergulhadores comerciais que trabalham para as empresas de pesca legal do abalone, o trabalho é feito em condições mais seguras, e o ganho é menor.

O molusco vai para uma rede de compradores, e em geral é enviado para Hong Kong, onde o abalone seco sul-africano vale mais de US$ 440 o quilo, o que significa lucros consideráveis para os que estão lá em cima na cadeia da oferta.

Segundo Markus Burgener, um funcionário da Traffic, uma organização sem fins lucrativos que monitora o contrabando de animais silvestres, desde 2000, os pescadores ilegais coletaram mais de 36 mil toneladas de abalone. Em 2016, foram colhidas ilegalmente cerca de 3 mil toneladas, disse Brugener, mais de 30 vezes o equivalente a toda a pesca legal. “A pesca ilegal vem aumentando de maneira muito intensa”, prosseguiu.

Desde meados dos anos 1990, as cotas de pesca legal do abalone foram reduzidas significativamente, em quase 85%, e três zonas anteriormente produtivas foram fechadas totalmente.

Recentemente, na Cidade do Cabo, quatro pescadores ilegais de Hangberg desceram por algumas rochas de granito perto de Clifton, uma praia lotada de turistas. Três deles colocaram trajes de banho molhados enquanto um quarto observava; minutos mais tarde, pularam na água gelada com snorkels e começaram a caçar “perlemoen”, termo afrikaans que significa abalone, derivado de “madrepérola”, o interior brilhante da concha.

Ao voltar, disseram que o abalone estava escasso naquele dia, e só pegaram cerca de US$ 120 cada um - magra compensação para um risco tão grande. Eles explicaram que muitos mergulhadores já haviam estado no local. Da próxima vez, terão de ir ainda mais longe.

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