Bannenberg & Rowell
Bannenberg & Rowell

Ninguém precisa de um superiate, mas eles são vendidos mesmo assim

Depois de gastar US$ 500 milhões, é hora de começar a pagar a tripulação

Peter Wilson, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 06h00

LONDRES - Este é um momento de tensão para os fabricantes de superiates - e não por causa do medo de os proprietários de suas mais novas criações se desapontarem com as primeiras saídas ao Mediterrâneo. É nesta época do ano que os clientes cujos navios ainda estão em produção voltam das férias desejando uma lista de novas comodidades - geralmente, com base no que viram nos iates de seus amigos ou no Monaco Yatch Show, em setembro.

“Agora mesmo estamos quase na finalização de um grande iate no norte da Europa, de um cliente que acabou de passar um tempo no barco de um amigo, e isso não ajuda, necessariamente”, afirmou Dickie Bannenberg, diretor de uma das mais conhecidas fabricantes de superiates, a Bannenberg & Rowell. Ele acrescentou: “Tudo bem quando se trata de algo superficial - digamos, que eles tenham gostado dos pratos ou das toalhas dos iates dos amigos - mas isso pode descambar para: ‘Oh, a academia de ginástica do meu amigo era assim, não podemos ter algo parecido?’. Ou: ‘Eu gostaria muito de acrescentar uma embarcação submarina’”.

A complexidade dos cronogramas de produção desses iates faz com que os estaleiros sejam resistentes a alterações significativas.

Uma única embarcação pode custar de US$ 5 milhões a US$ 500 milhões, sob um custo anual de manutenção de aproximadamente 10% de seu valor. Trata-se de uma indústria em que os problemas a serem resolvidos incluem proteger da maresia a coleção de Picassos do proprietário, tripulantes desajeitados ou extintores de incêndio com defeito.

William Mathieson, diretor editorial do Superyatch Group, um dos principais institutos de análise especializados nessa indústria, afirmou que existem em atividade no mundo atualmente cerca de 3,5 mil embarcações que atendem à definição informal dos superiates, com mais de 30 metros de comprimento; somente 55 superam os 100 metros.

O pai de Bannenberg, Jon Bannenberg, morto em 2002, costumava dizer que ninguém no mundo precisa de superiates, então é missão do fabricante torná-los desejados. Jon leva o crédito, amplamente, por ter inventado a profissão de projetista de superiates. Na década de 1960, ele combinou habilidades de design de interiores e exteriores com entendimento de engenharia marítima para substituir as estruturas relativamente simples usadas anteriormente sobre os cascos, projetadas por "simples" engenheiros navais.

Depois da morte de Jon, Dickie, que havia trabalhado para o pai como gerente de projetos por 15 anos, contratou Simon Rowell, um projetista de hotéis, para trabalhar como diretor de criação de seu escritório em Londres. Normalmente, a firma trabalha em mais ou menos seis projetos em diversos estágios simultaneamente, em processos de construção que levam de quatro a cinco anos para serem finalizados - e que frequentemente vão até o design dos artigos de escritório e logotipos usados pela tripulação, assim como a encomenda de esculturas a serem instaladas a bordo.

Jon Bannenberg exercia seu trabalho como um artista da Renascença, treinando aprendizes que agora são responsáveis por alguns dos mais importantes escritórios do setor no mundo e se fiando em patronos abastados para as encomendas, incluindo J. Paul Getty, Malcolm Forbes e Larry Ellison. Projetos discutidos com Fidel Castro e o xá do Irã nunca saíram do papel.

Muitas pessoas ricas o suficiente para comprar um iate se revelaram polêmicas. O bilionário australiano Alan Bond foi cliente de Bannenberg antes de ser preso por fraude.

Donald Trump comprou um iate dele em 1987, por um preço anunciado de US$ 30 milhões e um custo anual de manutenção de US$ 2,5 milhões, afirmando que se tratava do “brinquedo definitivo” com o qual queria fazer outros donos de iate se sentirem inferiores. Ele foi forçado a vender a embarcação em 1991.

Os tipos de compradores e suas exigências vivem mudando. Mais de uma década de gastos pesados de clientes russos e do leste europeu começaram a escassear após a anexação da Crimeia por parte da Rússia e as subsequentes sanções por parte do Ocidente.

Recentemente, os americanos voltaram a comprar, afirmou Bannenberg. Os cortes de impostos de Trump alimentaram a demanda por superiates, de acordo com analistas da indústria. Isso apesar de um arrefecimento no mercado de alto padrão de arte, carros e imóveis, em meio a temores mais amplos de uma retração no setor.

A maior mudança está na função que as embarcações cumprem. O bilionário da Microsoft Paul Allen, morto em 2018, é citado como exemplo de um proprietário mais ativo, que usava seus iates em pesquisas oceanográficas e viagens pelo mundo.

“Os clientes que nos contratam hoje em dia não querem mais palácios flutuantes”, afirmou Rowell. “Eles querem barcos em que possam viver e até trabalhar, para usá-los mais do que duas semanas ao ano.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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